O psicanalista Hélio Pellegrino (1924-1988)

Hélio Pellegrino, talvez o brasileiro mais libertário do século XX, foi múltiplo, genial e com uma coragem inacreditável. Neste último post antes do lançamento do novo Sete Doses, homenageio o homem que me inspirou a criar o site e me inspira todos os dias a continuar.

Poeta, político, meio anarquista, meio comunista, católico da teologia da libertação, escritor, batalhador, psiquiatra e, acima de tudo, psicanalista, Hélio Pellegrino lutou contra a ditadura e o conservadorismo, foi preso, torturado e criou as Clínicas Sociais na Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro. A ideia dele: que todo psicanalista reservasse duas horas de sua semana para atender de graça ao povo pobre. Pouco depois, ao denunciar o conservadorismo de psicanalistas brasileiros envolvidos com o regime militar, foi expulso da Sociedade. A Clínica Social que ele criara acabou exatamente no dia em que ele morreu de infarto. Mesmo dia também em que Sarney, a quem ele nutria uma oposição absoluta, foi nomeado presidente do País. Foi demais para o coração brigador dele.

Para quem acha que ele saiu derrotado, engana-se. Mais de duas décadas depois, a partir de agosto de 2011, devo começar a atender na Clínica Social da Sociedade Paulista de Psicanálise. Pouca gente sabe, mas ela existe  muito graças a esse mineiro fantástico, amigo íntimo e parceiro de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Ele plantou essa semente tão importante, sofreu as conseqüências, mas ela cresceu e se espalhou. Hoje, porém, muitas das sociedades de psicanálise brasileiras possuem clínicas sociais que atendem por preços simbólicos. Abrir o consultório da psicanálise ao povo era o objetivo de Hélio e deve ser o objetivo de qualquer psicanalista, inclusive o meu.

A importância de Hélio para a redemocratização do Brasil e para a psicanálise é inestimável. Essa homenagem – meio sem conteúdo, puramente sincera – busca relembrar  a figura de um homem esquecido por muitos, mas imortal para a recente história do Brasil. É de pessoas corajosas como ele que o mundo precisa para amadurecer. Coloco, primeiro, um pequeno poema dele  (lindo, lindo) e, em seguida, uma breve entrevista comandada por Clarice Lispector.

VALSA DO ADEUS

Tudo é partida de navio, velas
ao vento, coisas desancoradas
que se desgarram. Este copo, esta pedra
que pronuncio não são palavras, nem
versos de amor, nem o sopro
vivificante do espírito. São barcos
arrastados pelo tempo, cascas
de fruta na enxurrada, lenços
de adeus, enquanto o vapor se afasta,
e de longe ilumina essa ausência que somos.

Um homem chamado Hélio Pellegrino

(Entrevista com Clarice Lispector)

Clarice – Diga qual é a sua fórmula de vida. Eu queria imitar.

Hélio – Há, no Diário íntimo de Kafka, um pequeno trecho ao qual gostaria de permanecer para sempre fiel, fazendo dele a minha fórmula de vida: “Há dois pecados humanos capitais dos quais todos os outros decorrem: a impaciência e a preguiça. Por causa de sua impaciência, foi o homem expulso do paraíso. Por causa de sua preguiça, não retornou a ele. Talvez não exista senão um pecado capital, a impaciência. Por causa da impaciência, foi o homem expulso, por causa dela não consegue voltar. Tenhamos paciência – uma longa, interminável paciência – e tudo nos será dado por acréscimo”

Clarice – Por que você escreve esporadicamente e não assume de uma vez por todas o seu papel de escritor e criador?

Hélio – Poderia driblar essa pergunta, respondendo com uma meia-verdade – escrevo menos esporadicamente do que publico. Mas esta seria uma saída falsa, e não quero ser falso. Escrever e criar constituem, para mim, uma experiência radical de nascimento. A gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer é saber-se vivo e – como tal – exposto à morte. Escrevo mais do devo para – quem sabe? – manter a ilusão de que tenho um tempo longo pela frente. A meu favor, posso dizer a você que, com frequência, agarro-me pelas orelhas e me ponho ao trabalho. Há umas coisas valiosas nas quais acredito, com muita força. Preciso dizê-las e vou dizê-las.

Clarice – Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?

Hélio – A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma e intensa mutalidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele. Na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para a mim a graça de existir. É esta fonte da verdadeira generosidade e do entusiasmo – Deus comigo. O amor genuíno ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.

Clarice – Que é amor?

Hélio – Amor é surpresa, susto esplêndido – descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado.

Clarice – Helio, você é analista e me conhece. Diga-me sem elogios – quem sou eu, já que você me disse quem é você…

Hélio – Você, Clarice, é uma pessoa com uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self… e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, sol e lua…

*Fragmentos transcritos do livro “De corpo inteiro” , Clarice Lispector, Ed.Rocco, 1999, págs 54, 55.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses graças à pessoas como Hélio Pellegrino

 

 

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Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981)

Para o psicanalista francês Jacques Lacan, o sujeito da psicanálise é aquele descentrado, em que a consciência não forma seu centro. Portanto, Lacan acredita que a consciência é uma ilusão e toda certeza é, na verdade, enganosa. Isso vai de encontro com a teoria freudiana. Freud alterou a famosa frase de Descartes. O “penso, logo existo” foi trocado pelo “penso onde não existo”. Essa idéia de Lacan e Freud também casa com o pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que em seu livro Além do Bem e do Mal (1886) afirma que a consciência engana o filósofo e que uma filosofia de verdade deve sempre duvidar do próprio pensamento. Na clínica isso é mais do que provado: em minha própria análise e nos estudos de caso fica mais do que claro que o inconsciente é quem direciona nossas vidas

A consciência como mera ilusão de Lacan vai contra a psicologia do ego norte-americana e o racionalismo. O homem, antes centro de seu próprio universo, não controla sequer seus próprios pensamentos. A pergunta que vale para Lacan é sempre: “Sou eu ou é o outro?”. Na verdade, a imagem do outro introjetada (principalmente pai, mãe e antepassados) é a que constitui de fato o sujeito. Portanto, é apenas no inconsciente que temos a referência de nós mesmos, onde se encontra a verdadeira realidade psíquica de cada um de nós.  O pensamento, assim, passa a ser ilusório e o sujeito vai muito além do ego, que em grande parte também é inconsciente. Em uma instância mais radical, é como se fossemos todos bonecos de ventríloquo cumprindo papeis sem saber muito bem os motivos. A mão que nos controla é o inconsciente.

Por isso, para Lacan, o saber da psicanálise não é absoluto, e sim singular e incompleto. O inconsciente é um saber onde não existe um eu, e é estruturado como uma linguagem: o discurso do outro. Essa estrutura de linguagem incide sobre o sujeito à sua completa revelia. Para Lacan, a palavra é a morte da coisa. Ou seja, uma máscara que não nos permite enxergar o que de fato somos – isso é compatível com a filosofia budista e os objetivos da meditação. O que somos, como diria Chico Buarque na letra de “O Que Será”, é aquilo que “não tem nome nem nunca terá”. O psicanalista, assim, deve deixar de lado seu suposto saber e ter a humildade de perceber que ele e o paciente , em última instância, sofrem do mesmo sintoma: uma busca por uma completude imaginária que nunca poderão alcançar. Hoje, a caracterstíca mais importante de um psicanalista é a humildade diante do indízivel da existência. E uma profissão com essas caracteristícas é tudo que sempre busquei ao longo da vida. Acho que no futuro vou conseguir trabalhar com o que realmente eu gosto. Precisei primeiro trabalhar com as palavras para enxergar o quanto elas nos enganam. O silêncio é mesmo uma benção.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e termina a primeira etapa de sua formação em psicanálise este ano. As outras etapas ainda demorarão muito. Mais ou menos a vida inteira

Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979)

Quem nunca estudou psicanálise tende a associar essa ciência metafísica apenas ao nome de Freud, um dos erros básicos de quem é desinformado e desinteressado. Freud criou a base teórica e prática, mas muitos dos seus conceitos, hoje, são ultrapassados e inaceitáveis. Isso não tira o mérito do homem mais genial do século XX, na minha modesta opinião. Se não fosse por ele, nossa sociedade seria ainda mais conservadora e hipócrita do que é hoje. Não consigo pensar na invenção da pílula, na contracultura e na maior aceitação dos homossexuais sem a teoria psicanalítica. Ler Freud é fundamental para quem se interessa em humanidades: é um prazer estético, já que ele era um escritor fabuloso, e uma forma de introdução ao universo emocional do ser humano. Além do que, é viagem sem volta a uma busca pela verdade.

Após a morte de Freud, a psicanálise se desenvolveu de forma impressionante. Muitos gênios apareceram, e um dos meus preferidos é Bion. Ele nasceu na Índia, mas os pais o mandaram para um internato na Inglaterra quando ele tinha apenas oito anos. Com uma vida muito difícil, além de abandonado emocionalmente pelos pais – que só lhe davam recursos financeiros –, Bion usou a experiência terrível de sua infância para estruturar sua obra. Antes disso, fez nada mais nada menos que 16 anos de terapia para entender o vazio existencial que o afligia.

Pra mim, o conceito mais interessante de Bion foi denominado por ele como “terror sem nome”. Trata-se, em resumo, da sensação de vazio e desamparo que muitas vezes sentimos sem saber bem os motivos. Aquela melancolia que bate sem explicações e, muitas vezes, se tornam mais frequentes do que gostaríamos. O que provoca esse buraco que parece impossível de tapar acontece, como em toda a teoria psicanalítica, na infância e tem uma explicação muito interessante.

Quando somos bebês, entre o zero e cinco anos principalmente, absolvemos experiências sem nenhuma racionalização. Apesar disso, temos uma sensibilidade incrível para perceber e sentir. O problema é que não conseguimos nomear essas sensações, que ficam jogadas em nosso inconsciente de forma caótica. Por exemplo, o avô de um bebê morre, os pais ficam extremamente tristes e o clima da casa fica pesado. O bebê, apesar de não saber o que aconteceu, sente todas essas emoções, mas não consegue nomeá-las. Por não conseguir racionalizar o ocorrido, a emoção é jogada no inconsciente e fica lá. O problema é que o inconsciente é atemporal e possui uma dualidade: bem e mal. Não existe meio termo. Essa sensação ruim, portanto, fica gravada para sempre na pessoa. Você cresce e essa dor continua lhe perseguindo para o resto da vida e retorna com mais força quando ocorrem perdas ou você se sente rejeitado (no fim de um relacionamento, por exemplo).

O inconsciente não é uma estrutura, uma caixinha, como as pessoas imaginam. O ser humano tem a mania de querer racionalizar e encaixar tudo em suas concepções, mas o inconsciente é algo maior, que vem da natureza, algo invisível para os olhos, incontrolável. Por exemplo, a força que faz uma árvore crescer, um rio correr e seu sangue fluir, de onde ela vem? O inconsciente também é formado por essa força: é nossa parte animal, a mais ligada com o que somos: só mais um ser que forma a natureza, como tantos outros. É tão óbvio, mas nunca pensamos sobre isso.

Para que o “terror sem nome” seja menos sentido na vida adulta, Bion afirma que é necessária uma mãe continente. Ou seja, uma mãe que entenda o sofrimento do bebê e explique a ele o que está acontecendo. Uma mãe que, com afeto, crie um vínculo e simbolize a dor do bebê, que dê a ele palavras para formar uma realidade. Ele chamou esses elementos de alfa, que vem de alfabetização. Ou seja, no exemplo do avô, o melhor seria a mãe dizer à criança o que aconteceu e por quais motivos eles estão tão tristes. Dessa forma, de maneira ainda arcaica, o bebê começaria a formar signos para entender aquela dor e assim conseguir interpretá-la. Ao invés de ficar jogada no caos inconsciente, a sensação seria transformada em uma experiência de vida. Por isso, para a psicanálise, negar a dor, jogá-la para debaixo do tapete, é ir contra a verdade. É preciso encará-la de frente para crescer.

Quando a mãe não dá essa significação da experiência para o bebê, os elementos formados são chamados de betas, que estão ligados à parte psicótica de nossa personalidade. Um bebê saudável teria mais elementos alfas do que betas e, dessa forma, estaria mais com o pé na realidade do que na fantasia. Para Bion, os elementos alfas criam uma barreira de proteção que separa o mundo externo (realidade) e o mundo interno (fantasia). Quando muitos elementos betas aparecem, essa barreira é toda perfurada e os dois mundos se confundem. O adulto, dessa forma, não percebe quem ele é e o que de fato é a realidade: as duas coisas se fundem. Quando isso se agrava muito, temos os psicóticos, que perdem totalmente a noção de realidade e vivem em um mundo próprio, sem interação real com o mundo externo.

Nas pesquisas desenvolvidas hoje, é muito difícil uma pessoa que tenha essa barreira de proteção estruturada. Na clínica psicanalítica moderna, o analista se depara na maior parte das vezes com pacientes bem regredidos, que apresentam uma barreira bastante comprometida. Bion, para conseguir estruturar a sua, fez 16 anos de análise. Eu, com apenas um ano de experiência, digo que os resultados são fantásticos.

Resumindo, a terapia não passa de uma interpretação daquilo que não foi simbolizado na sua infância. É reviver aquela dor, nomeá-la, interpretá-la e transformá-la em uma experiência de vida. Se dói? Dói muito. Mas depois que você consegue, a sensação é de uma liberdade extraordinária. É impossível para uma mãe ser tão boa que consiga nomear todas as dores de seu filho, por isso existe a psicanálise e por isso ela é fundamental para um mundo menos doente. O exemplo do avô é muito pequeno perto dos absurdos que acontecem entre os membros de uma família. Imagine quantas dores sentidas não ficam esquecidas. Parece mais fácil assim, mas o inconsciente não esquece nenhuma sensação, jamais.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

– Dói quando eu faço isso?
– Um pouco, Dr., será que você pode me dar uma água?
– Claro, mas me explica, ao que essa dor te remete?
– Ai, Dr., uma angústia.
– Isso, estamos no caminho certo. Me conta da sua primeira vez.
– Ai, Dr., que absurdo.  Por que você esta perguntando isso?
– Não se preocupe. Eu sou profissional. Pode se abrir?
– Abrir mais, Dr.?
– Não, aqui está tudo certo. Mas abra seu coração.
– É que foi traumático, Dr. Ele não me amava e eu sabia disso. 

Depois de anos de estudo prático da cabeça feminina, Alexander decidiu ir a fundo. Passou no curso de psicanálise e virou o melhor profissional da cidade. Mas ainda não era suficiente, o rapaz resolveu conhece-las mais a fundo. Virou médico, especializando-se em ginecologia.

No começo sentiu que nunca consegueria achar uma conexão entre as duas profissões, mas descobriu o método. Abriu o primeiro consultório de um ginecologista psicanalista. E mesmo sem todas as clientes saberem disso, ele tentava ao máximo associar o corpo feminino e a sua parte mais complexa: o cérebro.

– Isso é psicológico, menina. Vc não tem nada.

– Agora você só precisa passar una ponadinha e pronto.

– Veja bem, você não pode deixar que a sua infância retome toda vez que você vá fazer sexo.

– A formação dessa gordurinha é com certeza reflexo do que você esta sentindo na vida inteira. Sabe?

As mulheres foram se acostumando e o método funcionando. Alugou uma sala em um prédio chique e começou a atender as madames da cidade. Um dia, o marido de uma delas desconfiado que estava tendo um caso com o psicanalista, foi ao escritório e começou a ouvir atrás da porta. Tudo que ouviu foi.

– Pronto. Acabou. Pode colocar a roupa.

Arrombou a porta e ela estava lá, quase sem calça. O marido não teve dúvidas, matou o médico sem dó.

Ana Luiza Ponciano escreve aos sabados no Sete Doses

Carlos Manuel

Carlos Manuel era tão bom com as mulheres que bastava um olhar para conquistá-las e duas palavras para fisgá-las para sempre. Conhecia a alma feminina como poucos: sentia o que elas sentiam, previa o que elas pensavam e se aproveitava para confortá-las e acariciá-las. Olhava para elas e sabia exatamente as palavras macias que precisava falar e a força masculina que era necessário aplicar. Era um homem que utilizava elegância e virilidade nas proporções exatas, sabendo usar diferentes graus de intensidade física e emocional para enlouquecer qualquer mulher. Além disso, era conselheiro, ouvia com paciência e era um amante constante e retumbante. Levava-as ao orgasmo apenas ensaiando frases sussurradas cheias de palavras açucaradas.

Seu dom transformou-se em vício quando percebeu que suas investidas nunca falhavam. Entregou-se ao hábito de colecionar mulheres por onde passava pela consciência de que todas elas lhe entregariam a alma sem vergonhas ou alardes. Perdeu o controle e passou a investir em moças casadas, solteiras, virgens e inanimadas. Sua voracidade era engoli-las por inteiro e, após consumir todas as suas essências, cuspi-las com desprezo e frieza. Tapava seus próprios vazios com qualquer peneira que lhe parecesse esteticamente adequada. Dessa forma, mal sabia com quem estava, qual era o nome ou as características próprias: importava-lhe que fossem belas mulheres e que tivessem algo a lhe acrescentar nas técnicas alcoviteiras. Queria tê-las dentro de si para, com o conteúdo adquirido, partir para a próxima investida. Sabia que um homem que coleciona conquistas não precisa de esforços para fazer sua próxima vítima.

O primeiro problema de Carlos Manuel ocorreu em uma manhã de terça-feira quando ele acordou e se deparou no espelho com o reflexo de sua própria mãe. Olhou bem, balançou a cabeça, passou as mãos nos longos cabelos ruivos e percebeu que realmente havia se transformado em sua genitora. O detalhe é que ela estava jovem, linda, com um corpo estonteante e uma vitalidade inédita no olhar. Percebeu que ele, agora, era sua mãe na idade exata em que ela engravidou dele próprio. Assustou-se com o reflexo, mas logo escovou pacientemente os longos cabelos vermelhos e sorriu. Sim, no fundo estava feliz e não entendia bem os motivos.

A mudança, porém, era apenas física e estética. Seus desejos masculinos e sua lábia com o sexo oposto continuavam afinados e bem dispostos. Abriu o armário, procurou a roupa de uma das mulheres que se deitaram em seu leito nos últimos meses e escolheu um vestido que sabia que sua mãe iria adorar. Saiu para a rua com a certeza de que tudo o que queria era experimentar um novo jeito de fazer sexo com as mulheres. Não mudara nada, era o mesmo crápula transvertido em corpo materno. A beleza ruiva e juvenil de sua mãe, aliada ao seu falar próprio, charmoso e encantador, ajudou Carlos Manuel a conquistar as mais belas lésbicas que encontrava pelas ruas e casas noturnas da cidade. Percebeu que o sexo entre iguais era tão bom quanto o de antes e lhe servia para o mesmo propósito.

O segundo grande problema de Carlos Manuel ocorreu três semanas depois de sua estranha transformação: ao se maquiar em frente ao espelho, percebeu que estava absolutamente apaixonado por si mesmo. Ou melhor, pela sua própria mãe. Olhou novamente e percebeu que não sabia mais quem era a figura do reflexo. Sua própria silhueta se fundira à imagem de sua mãe, à personalidade dela, aos anseios e aos dizeres, às qualidades e aos defeitos. Percebeu que ele e sua mãe, na realidade, eram a mesma pessoa. Percebeu que sempre fora apaixonado por si mesmo. Ou seria por sua mãe? Não sabia mais o que pensar. Sentiu-se perdido, tonto e carente.

Naquela noite resolveu que não iria sair de casa. Deitou-se na cama, encolheu-se o máximo que podia e abraçou a si mesmo. Observou os cabelos ruivos que caiam no ombro e percebeu que, na verdade, abraçava sua mãe. Apertou-se ainda mais, pressionando os braços no ventre rígido e o sentindo com um misto de amor e ódio. Sua vontade era entrar em si mesmo e perder-se para sempre. Sentiu-se, pela primeira vez, completo. Sua carência se dissipou por alguns instantes e sua impressão era de que tinha encontrado uma peneira sem furos para tapar de vez seu vazio. Adormeceu feito um bebê, em paz e satisfeito, embalado por seus próprios braços e pelos braços imaginários de sua mãe.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

A primeira crise alérgica de Oswaldo ocorreu no transcorrer de seu batizado. Empunhado pelas mãos grandes e impositivas do Padre Clemente, o bebê foi alçado aos céus para em seguida ser mergulhado em água sagrada. O público fiel, que observava com olhares fraternos a cerimônia, percebeu que o recém-nascido apresentava uma estranha coloração roxa e uma sudorese transbordante. O padre desesperou-se ao constatar que ali nem Deus poderia lhe ajudar. Jogou Oswaldo nos braços de sua madrinha e solicitou urgentemente auxílio médico e cético. O neném só voltou ao seu estado normal quando afastado alguns quarteirões do ambiente sagrado e levado às pressas para um ambiente profano.

As crises intensificavam-se conforme Oswaldo se relacionava com pessoas e organizações. Sua primeira babá – uma ladra de sorriso fácil e amante silenciosa de seu pai – causava-lhe alergias quase insuportáveis. Era só ela pegá-lo no colo que sua pele empipocava, a rouxidão tomava conta de suas bochechas e o ar faltava e quase sumia de seus pulmões. Preocupada, a mãe do garoto resolveu levá-lo ao médico da família. Após testes, análises e uma entrevista para saber em que momentos as crises eram mais comuns, o experiente Dr. Joaquim foi absolutamente certeiro no diagnóstico:

– Seu filho sofre de uma séria alergia à hipocrisia.

Os primeiros conselhos médicos eram de afastá-lo o máximo possível do convívio social e humano e identificar quais pessoas da família incitavam o organismo de Oswaldo àquela revolta contra as falsidades e máscaras da existência. Raquel, a mãe, carregava o filho nos braços sem muitos problemas. Em alguns momentos, o garoto ameaça um espirro ou uma rouquidão na voz, mas nada que afetasse de maneira agressiva o pequeno corpo já castigado e empipocado pelos distúrbios de caráter da convivência social. A única pessoa que não afetava a saúde do garoto era tia Estella, uma louca desbocada e de cabelos azuis intitulada por todos como a vagabunda descarada da família. Oswaldo, apesar de pequenas coceiras localizadas, dormia serenamente em seus braços.

Uma recomendação do Dr. Joaquim era de que o garoto nem sequer chegasse perto do pai. Mal a aproximação ocorria, Oswaldo instantaneamente perdia os ares do pulmão e sofria com coceiras descomunais seguidas de brotoejas que lhe sangravam todo o corpo. Mesmo com o sofrimento, conforme amadurecia, Oswaldo foi criando certa resistência àquele mal. No colégio já conseguia assistir aulas isolado na última cadeira e participava de festas de parentes, desde que estivesse preparado com pomadas e analgésicos em caso de um escândalo nos bastidores ou de conversas em que os elogios se aflorassem em excesso.

Na vida adulta, Oswaldo passou a conviver muito bem com seu infortúnio. A alergia manifestava-se apenas em grandes e falsas aglomerações humanas, onde o sorriso forçado e as palavras de educação eram as regras. Mesmo assim, algumas graves crises ocorriam em festas familiares de peso, como o Natal ou – no caso mais grave, em que ele quase padeceu – nas bodas de prata de seus pais. O Doutor Joaquim, velho e já quase entregue às forças da gravidade, deu a notícia que todos esperavam quando Oswaldo estava prestes a completar seus 27 anos:

– Descobri a cura para a terrível doença de seu filho, dona Raquel: basta que ele aja como um hipócrita e, assim, estará a salvo das hipocrisias alheias.

Era a chance de Oswaldo enfim ter uma vida saudável e normal, livre da penosa convivência com as raras pessoas honestas e verdadeiras. Dessa forma, prometeu a si mesmo que faria qualquer coisa para se ver livre daquele martírio: se necessário, esboçaria um sorriso postiço e massagearia o ego de gregos e troianos. E foi assim que passou a viver e conviver. Em pouco tempo, tornou-se um homem querido e prestigiado pelos seus pares, amado pelas mulheres e desejado pelas empresas que buscavam um gerenciamento meritocrático em um mundo competitivo e globalizado.

Passados alguns anos, todas as marcas da hipocrisia alheia desapareceram da pele de Oswaldo, seus pulmões passaram a funcionar com energia e sua cor de pele passou a se assemelhar aos de seus convivas. A respiração passeava levemente por suas narinas e as coceiras sumiram: as pomadas antialérgicas deram lugar aos cremes de rejuvenescimento para manter a aparência. Todos os sintomas desapareceram e Oswaldo nunca mais se preocupou em carregar os analgésicos emergenciais. Sentia-se, enfim, livre.

Mas o verdadeiro mal repousa inerte e só reaparece quando dele não se espera mais nada. Oswaldo, excedendo os limites da hipocrisia, passou a mentir e encenar de forma desenfreada e descontrolada. Suas mentiras saltavam da boca com facilidade assombrosa e ele mesmo perdeu a identidade que outrora formara. Suas personalidades fragmentaram-se como peças de quebra-cabeça que se encaixam de acordo com as imagens que buscam formar. Tornara-se muitos, porém todas as suas variantes eram falsas: o seu verdadeiro eu desapareceu para nunca mais ser encontrado.

Certo dia, no meio de uma reunião do conselho da empresa que presidia, iniciou um discurso fulgurante sobre a luta de sua companhia pela sustentabilidade e contra o aquecimento global. Conforme falava, empolgadamente, sua cor foi lentamente se transformando em um roxo cáustico, sua respiração rareava conforme as mentiras surgiam de sua boca e sua pele se empipocava em uma absoluta explosão de brotoejas avermelhadas. Sua voz sumiu, seu coração parou e ele quedou falecido em cima da mesa da sala de reuniões.

Dr. Joaquim, teimando em prosseguir com sua existência cambaleante, foi escalado para realizar a autópsia e determinar a causa daquela morte tão trágica e repentina. Para ele, que acompanhava o caso há décadas, fora necessário apenas uma observação ligeira do corpo para atestar os motivos que levaram Oswaldo ao ponto final:

– Dona Raquel, seu filho morreu de hipocrisia. Desculpe-me, mas a cura para o seu mal também foi a causa de seu final. Oswaldo foi uma cobra que engoliu o seu próprio rabo. Rezemos por ele e por todos nós…

André Toso escreve hipocritamente aos domingos para o Sete Doses