Minha simpatia por alienigenas…

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses

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Com uma sunga listrada em bege e azul desbotados, o velho sacolejava o corpo a cada passada à beira da piscina. Fazia dos azulejos molhados uma pista de dança; como se pisasse involuntariamente sobre as pedras mais escuras. Sua careca reluzia sob a luz do sol, com alguns cabelos grisalhos rebeldes nas laterais. Carregava consigo uma batida de maracujá, e o líquido era derramado à medida que ele avançava. As sementes da fruta já haviam alcançado o pulso direito.

Não sei por que, mas aquela cena se tornou insuportável para mim. Meu autocontrole, antes inabalável, agora era tão instável quanto a dentadura que ia para frente e para trás dentro da boca roxa e sorridente do velho. Tentei olhar para a direita. Não consegui. O barulho que o choque daqueles pés enrugados com o granito molhado provocava era um incômodo para os meus ouvidos e uma melancólica atração para a minha vista. Levantei-me da cadeira de plástico onde me sentara no início da manhã e postei-me diante do velho.

Foi então que percebi o burburinho causado pela minha atitude intempestiva. Duas senhoritas em trajes de banho curtos ergueram seus óculos escuros para ver o embate entre o velho e eu. Um rapaz que besuntava protetor solar nas costas da namorada estagnou. Quando ela reclamou, recebeu um cutucão nos ombros e um convite para se virar e também assistir à minha revolta.

O velho abriu um sorriso incomodado, pois estava obstruído pela minha imponente presença. Ele deu mais um passo adiante: o suficiente para derramar batida de maracujá nas minhas pernas e pés e eu passar a inalar o seu hálito azedo. Revoltei-me ainda mais. Meus pelos se eriçaram até as sobrancelhas e um ar frio repulsivo percorreu todo o meu corpo até a garganta; de lá, o nervosismo foi expulso com um grito molhado. Imaginei que o velho tremesse de medo. Não hesitei. Mostrei as palmas da mão e empurrei a barriga proeminente da minha vítima com toda a força possível. Ele cambaleou e ruiu para o fundo da piscina, de costas.

Agora, todos que rodeavam aquela redoma de água dirigiam os olhares para a antiga pista de dança do velho – um verdadeiro palco. Eu era o centro das atenções. As garotas em biquínis curtos me encaravam com expressão de desaprovação, mas, ao mesmo tempo, pareciam atraídas por mim. Uma delas chegou a piscar demoradamente o olho esquerdo, franzindo a bochecha corada. Já a namorada insistia para que o namorado fizesse algo contra mim. Ele gargalhava. Dois senhores tão velhos quanto o primeiro pigarreavam palavrões enquanto salivavam cerveja quente. Um grupo de senhoras, provavelmente esposas dos homens, fazia concha com as mãos para proteger a boca ao  comentar o ocorrido com feição de ira. Alguns religiosos se benziam. Estudantes de Direito analisavam as implicações jurídicas do meu ato hostil.

O velho nada disso podia ver. O impacto do seu corpo com a piscina deixara as costas vermelhas, arranhadas. Ele certamente havia engolido alguns mililitros da água, que agora estava amarelada por causa do maracujá. As sementes boiavam próximas à dentadura. A sunga também ameaçava abandoná-lo, fazendo com que metade da bunda branca e ossuda ficasse para fora. Começou a debater os braços de maneira estabanada, em sinal de desespero, enquanto era tragado pela piscina. Metros à frente, algumas crianças brincavam com uma bola de plástico diante do velho, que submergia de forma tão patética quanto quando bailava sobre o granito.

Os adultos também não pareciam dar importância para o velho. Preferiam me julgar, sem expor as suas peles já bronzeadas para fora dos guarda-sóis. A minha revolta provocara um acalorado debate nas mesas de plástico e espreguiçadeiras. Eu já sabia exatamente por que me enervava. Queria jogar cada um deles dentro da piscina, a começar pela madame que sujava o seu batom violeta quando engolia generosas porções de salgadinho industrial. Mas o que adiantaria? Se todos estivessem na companhia do velho, eu ficaria sozinho e poupado da minha fúria. Eu também merecia a ruína, evidentemente. Observei mais uma vez o senhor que se afogava e decidi salvá-lo. Mergulhei, agarrei o corpo que me temia e clamava por piedade, e o arremessei para fora da água.

Ouvi um e outro aplausos. Logo, as garotas de trajes curtos perderam o interesse por mim e pelo velho e pediram mais uma bebida ao garçom, que equilibrava uma pesada bandeja com maestria ao correr pelo local. Os demais velhos resmungaram um pouco mais antes de iniciar uma animada partida de tranca. A namorada se virou para bronzear as costas no sol escaldante. Estudantes e religiosos procuraram outro assunto, então me senti absolvido pelas Justiças divina e terrena. E o velho que caíra me abriu um desdentado sorriso de agradecimento. Tentou retomar normalmente o seu trajeto à beira da piscina em seguida, ao encontro dos amigos ou do banheiro. Esboçou até alguns irritantes passos de dança.

Aquilo não ficaria assim. Mostrei as palmas da mão e empurrei a barriga proeminente da minha vítima com toda a força possível de novo. Ele cambaleou e ruiu para o fundo da piscina, de costas.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança

(Chico Buarque)

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses


Ela voava todas as noites. O ritual se repetia. Esperava impacientemente que o mundo silenciasse; que apenas um e outro carro desafiassem a escuridão; que todos dormissem. A partir de então, sentia-se livre para viver.

Levantava-se da cama com o cuidado de não amassar o lençol rendado. Caminhava até a beira da janela na ponta dos pés. Destravava a vidraça, subia as persianas e olhava sete andares para baixo. Inspirava fundo (sentia o ar percorrer todo o corpo, como um combustível) e fechava os olhos.

De repente, lá estava ela entre as estrelas. Sua face corava diante do brilho dos astros. E, se houvesse algum homem de altivez aguçada, certamente poderia avistar aquela mulher iluminada nesse instante. Mas crer que alguém deixasse de se preocupar com o chão para sonhar com o céu era utopia. Sempre haveria um teto sobre as casas, até para aqueles que não possuíam uma. E todos dormiam.

Ela não. Deixara o peso da existência sobre a cama para flutuar como uma pluma. Estava nua. Abria os braços em 180 graus e sentia o vento conduzir uma pessoa que já não se prendia à aparência. Os cabelos grisalhos, agora esvoaçantes, revoltavam-se contra qualquer penteado. As rugas enrijeciam com o frio da noite. Os ouvidos, mesmo tapados por tamanha plenitude do espírito, recobravam a sensibilidade para escutar os mais distantes sussurros. Sim, era uma jovem mulher quem voava. E como ela sorria.

Também havia tristeza entre as nuvens. O conjunto de prédios da metrópole se apresentava perturbador e misterioso em meio ao breu. Ela sabia que milhares de corpos estavam depositados naquelas construções. Amontoavam-se, distribuídos em andares, até ficar à altura da metade do céu. Sem jamais experimentarem os prazeres de voar. As paredes, o cimento, o tijolo e o concreto impediam que o vento atraísse novos passageiros.

Uma lágrima costumava escorrer pelo rosto dela naqueles momentos, e não raro a gota que descia para a terra era um prenúncio de chuva. Transformava o choro em riso quando a natureza a acompanhava no derramamento de água. Via os raios subirem, dançava com a música dos trovões e supunha que tudo aquilo era planejado por alguém. Gritava de felicidade. Fazia acrobacias. Esquecia-se de tudo e de todos.

Quando os primeiros raios de sol lhe embaçavam a vista, no entanto, era chegada a hora de retornar. Já começava a fazer mais barulho entre os homens do que longe deles. O dia derrotava a noite.

Ela expirava raso (devolvia o ar que tomara emprestado à realidade) e abria os olhos. Descia as persianas, travava a vidraça e sentia-se novamente sete andares acima, como mais um corpo amontoado. Caminhava até a cama na ponta dos pés, amarrotando o lençol rendado. Chegara a vez de ela dormir, saciada, enquanto vocês pensavam que acordavam.


Helder Júnior escreve (em tempos recordes) às quintas-feiras para o Sete Doses

Apaixonado por música ,e por tabela, pela arte gráfica dos discos/cds, sempre tive tara pelos chamados singles. Com o lançamento de um determinado album, sempre fiquei na curiosidade de como aquela determinada banda/artista iria ilustrar uma canção em particular.

E nessa expectativa/curiosidade, acabo eu criando a minha própria leitura visual da canção. Assim como ler um livro e imaginar um ambiente e personagens, escuto a música e imagino uma capa pra ela.

Neste caso acima, é uma música dos noruegueses A-ha. O disco levou o nome Lifelines, mas logo depois o single trouxe uma segunda capa e eu aqui faço o que seria, na minha interpretação, uma terceira arte.

 

Abaixo as capas (album e single)…

 

 

 

 

 

 

… e no meu Ipod (rs) a música rolando:


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

 

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses

Já está rolando em São Paulo a Cowparade, são aquelas simpáticas vaquinhas que são espalhadas por todo canto da metrópole paulistana, trazendo um toque de arte e diversão para todos que passam pelas ruas. A última visita foi há quatro anos e além de São Paulo, outras cidades brasileiras também tiveram sua exposição a céu aberto.

Aproveito e deixo aqui a minha contribuição, a nossa vaca SeteDoses. Além disso, fiz uma varredura e separei algumas bem legais de vários cantos do mundo. Procure uma por aí e dê uma bela de uma mamada na teta da vaca, antes que as chuvas de São Paulo levem as mimosas embora.

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Abaixo a galeria, passe o mouse sobre a imagem para ver o nome do artista e sua localização e clicando para aumentar.

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses.

George Turklebaum

Foram apenas 17 segundos de hesitação.

Com aquele pouco tempo passado, o homem não sabia, o futuro seria um presente. Seu subconsciente se servia das breves pausas em uma vida mecanizada como brechas na carapaça onde estava aprisionado. Não se tratava de mera hipnose, e sim de uma reza silenciosa.

Mas o consciente não era plenamente inconsciente. O muito possível se tornaria o pouco viável mais uma vez. Como foi amanhã e da mesma maneira que ontem será.

Naqueles raros momentos de absorção, os gestos autômatos se repetiam. O homem mantinha os seus olhos vidrados, abertos porém fechados, enquanto metodicamente pressionava a ponta do lápis contra a mesa de escritório à sua frente. As palmas da mão estavam unidas.

Foram apenas 17 estocadas até que a grafite se partisse, com um barulho amargurado. A realidade, ao contrário, acabou refeita de imediato. O homem piscou. Amém.

Checou, então, o horário no canto inferior da tela do seu computador. Eram 17h17 no instante em que ele parara de trabalhar. Continuavam sendo 17h17 quando retomou seus afazeres. E, assim, o tempo e o homem permaneceram. Estagnados.

Helder Júnior hesita às quintas-feiras para o Sete Doses