Romário disputou clássico contra o Flamengo, em março de 2007, e ficou ainda mais perto de atingir a (polêmica) marca de mil gols ao fazer o terceiro da vitória vascaína aos 33 minutos do segundo tempo. O histórico milésimo só não saiu naquela mesma noite porque o então goleiro Bruno fez ótima defesa no final da partida.

Mesmo assim, o gol 1.000 parecia estar muito perto para o rei da grande área no futebol mundial. Afinal, Romário já havia feito os 999 gols da sua conta com extrema tranquilidade, que fazia o futebol e a arte de marcá-los como algo fácil. Nada mais enganoso.

Romário sofreu com a pressão de logo marcar o milésimo gol. Perdeu chances claras contra o Botafogo e viu o Vasco ser eliminado nas semifinais da Taça Rio pelo rival. E, em um vexame histórico, participou da eliminação da equipe pelo Gama, no Maracanã, na Copa do Brasil.

Precisou esperar mais um mês para entrar novamente em campo, já que o Vasco estava eliminado das duas competições oficiais que participava. E a consagração definitiva veio em 21de maio de 2007, com a ajuda de Durval. O zagueiro do Sport, que havia evitado gol de cabeça de Romário no primeiro tempo, colocou a mão na bola no início da etapa final. Pênalti para o Vasco e Romário.

Olhar fixo em Magrão, uma breve corrida, uma paradinha e um chute no canto esquerdo do gol para superar o antagonista e a única razão que lhe fez jogar futebol até os 41 anos. Depois, a volta olímpica, dada sem precisar carregar o peso de ter que fazer o gol que foi muito mais difícil de marcar do que os outros 999.

A agonia não respeita nem os grandes craques do futebol. Mas eles sabem driblá-la e escrevem de vez o nome na história do esporte.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

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Quando trocou o Barcelona pelo Flamengo no final de 1994, Romário era o melhor jogador do mundo e acabara de ser o personagem principal da conquista do título da Copa do Mundo dos Estados Unidos pela seleção brasileira. Por isso, essa foi a maior contratação da história do futebol do Brasil.

Romário, porém, não conseguir obter os resultados que se imaginavam quando foi contratado. Conquistou apenas dois títulos estaduais (1996 e 1999) e participou da vitoriosa campanha da Copa Mercosul de 1999, mas já não estava no clube na final do torneio.

Mas o futebol não se faz apenas de galeria de taças. Romário se envolveu em polêmicas, levantou a imagem do Flamengo e colecionou desafetos no mesmo ritmo que marcou gols. Foram 204, que o tornaram o terceiro maior artilheiro da história do time. Mais do que isso, Romário teve atuações brilhantes, que aumentaram a galeria de feitos de um dos maiores jogadores da história do futebol.

Em 1999, Flamengo e Corinthians tinham desempenho medíocre no Torneio Rio São Paulo. Mas o encontro dos dois gigantes, com ares de clássico, sempre mobiliza os clubes. E também seus torcedores e jogadores.

Romário foi ao Pacaembu e fez história. Distribui dribles, passes precisos e gols. Aos seis minutos, fez um dos gols mais antológicos da sua carreira. Com um elástico, passou pelo marcador Amaral e finalizou com a simplicidade que só um gênio como Romário tem.

Ainda haveria tempo para mais um golaço, no segundo tempo, que desencadearia duas reações diferentes do torcedor corintiano. Invasão de campo para protestar contra os seus jogadores e aplausos efusivos a Romário.

O Baixinho deixou o Pacaembu mais uma vez consagrado como o gênio da grande área, um sinônimo para o atacante que melhor soube ocupar espaços e marcar gols nos últimos 30 anos no futebol mundial.

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A festa foi estranha, mas sua principal atração conseguiu levantá-la, a tornando especial. É assim que pode ser bem resumida a vitória da seleção brasileira por 3 a 0 sobre a Guatemala, em amistoso disputado no estádio do Pacaembu, na cidade de São Paulo, em abril de 2005.

Campeão mundial em 1994, Romário teve a sua despedida pela seleção brasileira misturada com a festa de aniversário de 40 anos de fundação da TV Globo. O dono da festa, porém, era só ele, mesmo que em um palco pouco usual, contra um adversário ainda mais estranho.

Houve temor de que o Pacaembu não lotasse, mas o povo paulistano mostrou que, apesar de ter construído quase toda sua carreira no Rio, Romário não era um ídolo carioca. O estádio encheu e reverenciou um dos maiores centroavantes da história do futebol brasileiro e mundial.

Aos 39 anos, Romário chorou ao ouvir o hino nacional pela última vez como jogador da seleção, depois de muitas histórias de sucesso e polêmica, que terminaram em uma despedida de 38 minutos.

Nesse curto tempo para encerrar uma parceria de êxito, Romário deu passes precisos, recebeu um cartão amarelo, fez gol impedido, cobrou falta e, claro, deixou a sua marca com o estilo que o consagrou: um gol de oportunismo, comemorado com uma mensagem por baixo da camisa da seleção brasileira.

Aos 16 minutos, Ricardinho teve a honra de servir Romário com um bom cruzamento. Sem marcação e com o goleiro fora da meta, o Baixinho cabeceou com precisão e, aos 39 anos, chegou aos 62 gols pela seleção brasileira. Um número incontestável, mesmo que frio.

Frio, mas construído com um vice-campeonato olímpico, o título da Copa América de 1989 no Maracanã, lesões dolorosas que o atrapalharam nas Copas do Mundo de 1990 e 1998, desentendimentos com Parreira, Zagallo, Luxemburgo e Felipão, a sofrida classificação para a Copa de 1994 e o posterior título mundial, e a certeza de que todo jogo é especial com Romário em campo.

Certeza que existe porque o Davi do futebol brasileiro sempre derrubou os Golias dos adversários. E, por isso, o nó na garganta do Baixinho destemido e arrogante durante a sua volta olímpica de despedida da seleção brasileira também era o mesmo do torcedor por ver a confirmação de que o tempo é quase invencível. Só perde mesmo para a memória. E Romário faz parte desse time.

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ELISPELÉ

 

Imagine Salvador Dalí como empacotador de um supermercado. Sophia Loren como vendedora de churros. Mohamed Ali como regente da Filarmônica de Berlim. Ary Toledo como presidente dos Estados Unidos. Mallu Magalhães como reitora de Harvard. Chet Baker como amolador de facas Ginsu. Derci Gonçalves como superintendente do Vaticano. Hermeto Pascoal como piloto de Fórmula 1. Rita Hayworth como mulher-barbada do Circo Garcia. Roberto Carlos como corredor dos 100 metros em Londres-2012. Pina Bausch como atendente de telemarketing do Speedy. Nelson Ned como pivô de basquete. Greta Garbo como caminhoneira. Pixinguinha como cabeleireiro. Tarsila do Amaral como garçonete no Texas. Frank Sinatra como garimpeiro em Serra Pelada. José Serra como vendedor de charutos em Havana. Ella Fitzgerald como bailarina do Bolshoi. George Michael como desafiante no Ultimate Fight. Fernanda Montenegro como despachante. Oswaldo Montenegro como centroavante do Real Madrid. Tonia Carrero como domadora de leões. Beto Carrero como protagonista de Laranja Mecânica. Aretha Franklin como carimbadora do arquivo do Poupatempo. Paulo Autran como tocador de realejo. Aracy de Almeida como representante brasileira no Miss Mundo. Bruce Lee como confeiteiro. Elis Regina como atacante do Santos. Pelé como cantor e compositor.

Ainda bem que tudo não passou de uma grande brincadeira. Ou não?

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e concorda com o gênio Romário. Se, em relação a declarações esdrúxulas, Pelé calado já era um poeta, imagine cantando.

Havia um tempo em que provocações e promessas no futebol eram encaradas com naturalidade. É provável que hoje as afirmações de Romário antes da Copa do Mundo de 1994 provocassem a ira e até declarações de guerra de 23 países, revoltados com a promessa do Baixinho de levar a taça novamente para o Brasil, após longos 24 anos.

Não foi isso o que aconteceu em 1994, já que não havia tanta beligerância. E, principalmente, porque era bom não duvidar de um atacante que trocava gols contra o Real Madrid por folgas e viagens ao Rio de Janeiro.

Foi sob esse clima que o Brasil estreou no Mundial de 1994. Cruel para alguns, o destino reservou o primeiro jogo para um reencontro com a Rússia. O primeiro rival já não era mais a União Soviética, por culpa da carestia e de Gorbatchev, mas pouco importava.

O adversário que havia feito o menino Romário, então grande promessa do Vasco, chorar na final dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, estava à sua frente. E dessa vez não haveria espaço para a decepção do melhor jogador do mundo.

Depois de criar duas chances e desperdiçá-las, Romário abriu o placar para o Brasil na clássica “dá um metro para ele pra ver o que acontece”. Infernal, continuaria controlando o jogo, sofreria um pênalti, convertido por Raí. A vitória na estreia, com auxílio luxuoso de Jorginho e Bebeto, mas sem muito brilho coletivo, estava garantida e o recado estava dado. A Copa dos Estados Unidos tinha um dono. Definitivamente, as declarações não haviam sido uma falácia, mas apenas um aviso do que estaria por vir.

Leandro Augusto publica vídeos esportivos históricos aos sábados no Sete Doses.