O psicanalista Hélio Pellegrino (1924-1988)

Hélio Pellegrino, talvez o brasileiro mais libertário do século XX, foi múltiplo, genial e com uma coragem inacreditável. Neste último post antes do lançamento do novo Sete Doses, homenageio o homem que me inspirou a criar o site e me inspira todos os dias a continuar.

Poeta, político, meio anarquista, meio comunista, católico da teologia da libertação, escritor, batalhador, psiquiatra e, acima de tudo, psicanalista, Hélio Pellegrino lutou contra a ditadura e o conservadorismo, foi preso, torturado e criou as Clínicas Sociais na Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro. A ideia dele: que todo psicanalista reservasse duas horas de sua semana para atender de graça ao povo pobre. Pouco depois, ao denunciar o conservadorismo de psicanalistas brasileiros envolvidos com o regime militar, foi expulso da Sociedade. A Clínica Social que ele criara acabou exatamente no dia em que ele morreu de infarto. Mesmo dia também em que Sarney, a quem ele nutria uma oposição absoluta, foi nomeado presidente do País. Foi demais para o coração brigador dele.

Para quem acha que ele saiu derrotado, engana-se. Mais de duas décadas depois, a partir de agosto de 2011, devo começar a atender na Clínica Social da Sociedade Paulista de Psicanálise. Pouca gente sabe, mas ela existe  muito graças a esse mineiro fantástico, amigo íntimo e parceiro de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Ele plantou essa semente tão importante, sofreu as conseqüências, mas ela cresceu e se espalhou. Hoje, porém, muitas das sociedades de psicanálise brasileiras possuem clínicas sociais que atendem por preços simbólicos. Abrir o consultório da psicanálise ao povo era o objetivo de Hélio e deve ser o objetivo de qualquer psicanalista, inclusive o meu.

A importância de Hélio para a redemocratização do Brasil e para a psicanálise é inestimável. Essa homenagem – meio sem conteúdo, puramente sincera – busca relembrar  a figura de um homem esquecido por muitos, mas imortal para a recente história do Brasil. É de pessoas corajosas como ele que o mundo precisa para amadurecer. Coloco, primeiro, um pequeno poema dele  (lindo, lindo) e, em seguida, uma breve entrevista comandada por Clarice Lispector.

VALSA DO ADEUS

Tudo é partida de navio, velas
ao vento, coisas desancoradas
que se desgarram. Este copo, esta pedra
que pronuncio não são palavras, nem
versos de amor, nem o sopro
vivificante do espírito. São barcos
arrastados pelo tempo, cascas
de fruta na enxurrada, lenços
de adeus, enquanto o vapor se afasta,
e de longe ilumina essa ausência que somos.

Um homem chamado Hélio Pellegrino

(Entrevista com Clarice Lispector)

Clarice – Diga qual é a sua fórmula de vida. Eu queria imitar.

Hélio – Há, no Diário íntimo de Kafka, um pequeno trecho ao qual gostaria de permanecer para sempre fiel, fazendo dele a minha fórmula de vida: “Há dois pecados humanos capitais dos quais todos os outros decorrem: a impaciência e a preguiça. Por causa de sua impaciência, foi o homem expulso do paraíso. Por causa de sua preguiça, não retornou a ele. Talvez não exista senão um pecado capital, a impaciência. Por causa da impaciência, foi o homem expulso, por causa dela não consegue voltar. Tenhamos paciência – uma longa, interminável paciência – e tudo nos será dado por acréscimo”

Clarice – Por que você escreve esporadicamente e não assume de uma vez por todas o seu papel de escritor e criador?

Hélio – Poderia driblar essa pergunta, respondendo com uma meia-verdade – escrevo menos esporadicamente do que publico. Mas esta seria uma saída falsa, e não quero ser falso. Escrever e criar constituem, para mim, uma experiência radical de nascimento. A gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer é saber-se vivo e – como tal – exposto à morte. Escrevo mais do devo para – quem sabe? – manter a ilusão de que tenho um tempo longo pela frente. A meu favor, posso dizer a você que, com frequência, agarro-me pelas orelhas e me ponho ao trabalho. Há umas coisas valiosas nas quais acredito, com muita força. Preciso dizê-las e vou dizê-las.

Clarice – Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?

Hélio – A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma e intensa mutalidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele. Na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para a mim a graça de existir. É esta fonte da verdadeira generosidade e do entusiasmo – Deus comigo. O amor genuíno ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.

Clarice – Que é amor?

Hélio – Amor é surpresa, susto esplêndido – descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado.

Clarice – Helio, você é analista e me conhece. Diga-me sem elogios – quem sou eu, já que você me disse quem é você…

Hélio – Você, Clarice, é uma pessoa com uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self… e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, sol e lua…

*Fragmentos transcritos do livro “De corpo inteiro” , Clarice Lispector, Ed.Rocco, 1999, págs 54, 55.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses graças à pessoas como Hélio Pellegrino

 

 

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Paella valenciana servida em uma taberna no museu catalão El Poble Espanyol

A capital da Catalunha é apontada pelos outros espanhóis como um lugar de gente com soberba. No entanto, o que é considerado separatismo é, na verdade, a hipervalorização de elementos culturais muito particulares, que surgem nas conversas, no futebol, comida e, obviamente, na língua. Nas ruas de Barcelona, o motorista dá informações, a caixa oferece sacolas plásticas e as crianças incomodam seus pais em catalão. Todos falam castelhano, mas, por razões históricas que remontam à reação ao franquismo, optaram por essa aberração deliciosamente corrupta do latim. Apesar do que podem achar os madrileños ou os sevillaños, possivelmente não exista lugar mais plural e tolerante em toda a Espanha.

Uma das boas provas disso é o El Poble Espanyol, que completou 80 anos em 2009. É o museu mais interessante para quem quer experimentar a Espanha e só pode fazê-lo via Barcelona, como eu fiz. Construído em razão da Exposição Internacional de Barcelona, em 1929, ele abriga vários edifícios e demais construções de toda a Península Ibérica que não fala português. Tudo isso justamente no coração “independentista” da Catalunha. São 117 cantos com réplicas de praças, castelos, igrejas, monastérios, torres, jardins de inspirações e matrizes diversas reunidas pelo arquiteto modernista Puig i Cadafalch. Sorte é que alguma boa alma impediu que o local fosse demolido após a exposição do ano da crise financeira mundial. A velha. 

Em uma tarde, dá para pisar nas ruas de uma versão dos bairros brancos da Andalucía, jogar conversa fora nas praças de Aragón ou falar mal da igreja católica nas escadas de um monastério romano catalão. Pode-se ter uma boa amostra de como um povo que já reinventou a cartografia mundial nas Grandes Navegações soube absorver os elementos culturais de seus conquistadores e conquistados. Para o bem da história arquitetônica, por exemplo, muçulmanos tiveram suas mesquitas convertidas em igrejas católicas apostólicas romanas nas Cruzadas, sem que o conjunto fosse dissolvido pelos séculos. Isso permitiu, por exemplo, que permanecesse erigida até hoje a Torre da Igreja da Nossa Senhora da Assunção, em Zaragoza, repleta de azulejos mouriscos, traços geométricos e a inventividade do renascentismo. Ela é o principal expoente da arte mudéjar (estilo hispano-muçulmânico) e está situada originalmente na cidade de Utebo.

El Poble Espanyol também te dá a chance de experimentar o benefício da mestiçagem cultural na expressão mais prazerosa entre todas: comer. Restaurantes emulam tabernas medievais e monastérios para ambientar opções do cardápio de toda a Espanha. Experimentei uma paella valenciana, pouco generosa em um dos ingredientes que a caracteriza – frutos do mar –, mas que funcionou bem porque apresentou outro ingrediente que a caracteriza – arroz escurecido, de consistência espessa. Para o vinho, apelei ao nepotismo e não me arrependi, ao contrário do Sarney (será mesmo?). Terminei a tarde no museu que existe dentro do próprio museu. Algumas raras ilustrações de Picasso e Miró, pinturas contemporâneas, além de um grande acervo de obras de artistas plásticos diversos. Tudo posicionado no local ideal, a capital da multiculturalidade dentro da mais multicultural das capitais espanholas.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses