A semana do dia 07 ao dia 13 de Dezembro

Segunda-feira

André Roston foi para a praia e deixou um bilhete de Tchékov debaixo da porta de Toso. 

Fig 1. Roston em Peruíbe

A abertura de “O Samba em História” de Fernando Macedo tem eco demais. Diminuiria. Mas esse primeiro sotaque brincado, que assassina todas as palavras no meio do vôo, é bom de ouvir mais de uma vez (exatamente duas). Não passa batida também a qualidade da retomada histórica que vem pra dizer que o dia escolhido para celebrar o samba o foi por pura homenagem de um vereador baiano a Ary Barroso. Clipping do bom. Lá pelos quatro minutos e meio, entretanto, nosso querido locutor passa a gargarejar um pouco na narração, se enrolando de preguiça na voz, e fica difícil entender algumas coisas. Vaquinha por um fonoaudiólogo. Aos dezessete minutos, também. Parece até aqui e ali que Fernando fala enquanto petisca alguma coisa que gruda nos dentes, como um caramelo. E não passou em branco também a tentativa do Grito de criar uma chamada de identificação para o podcast. Algumas vezes se pode ouvir Fernando anunciar “o podcast do Grito”, mas ainda sem muita personalidade. O elogio fica pelo quanto desta vez a chamada está muito melhor costurada no podcast.

 

Fig 2. Dois dias depois do post

Terça-feira

Ricardo Torres fez um xixi do alto do prédio este dia oito. Embora os passantes bem pudessem ter se molhado, o tiro úmido dado ao escuro não errou dois milímetros do melhor alvo possível – o mijo amorteceu na lagoa. Ricardo fala da morte de dois ângulos e sempre muito delicado em escolher as palavras. Os “pés mal sustentam o peso dos órgãos, involuídos”, diz Ricardo do pré-morto navegante, na melhor frase do texto. Isso logo seguido do único respingo do mijo (erro compreendido nos dois milímetros de tolerância além do “acertar realmente em cheio”), aclamado idiotamente pelo André Toso, “o vermelho das chagas causadas pelas cordas”, que seria a visão mais óbvia do marinheiro dolorido. O desvio só não jogou gota de urina em cima de alguém que corria em torno do lago porque Ricardo acrescentou um misterioso “verde” nas chagas. Confesso que terminei pensando especialmente neste “verde”, com o qual fiquei bastante entretido. Por fim, coisas de mar e navegantes significando mais do que coisas de mar e navegantes já estão um pouco batidas. Levemos em conta apenas o Marcelo Camelo, para ilustrar: a cada 5 músicas que o carioca faz, 4 e meia são metáforas de papelão montadas em cima de mar e percurso. E Ricardo só ganha aqui de Camelo – que vive mijando sem querer nos outros, principalmente quando fica com preguiça da própria genialidade e escreve alguma canção repetida – porque fala de uma chaga com “verde”. No caso do Marcelo – senti como se precisasse dize-lo – quando a barba mija do prédio em Copacabana um monte de gente abre a boca.

 

Fig 3. Marcelo Camelo

“Para quem não gosta dos meus julgamentos expressos, aí vai mais um”, entra Senador com o chute na porta da casa de veraneio de Ziegler – que desta vez não tem nada a ver com o podcast. Da mesma forma, embora o trecho aí detrás soe violento, o nosso ilustre e erudito japonesinho não quer dessa vez falar mal de ninguém. Kwak vem é dizer de Ronald Golias, em uma doce e divertida homenagem. Honestamente, nem sei brincar sobre este homem porque também foi meu favorito. Então vale comentar sobre tecnicices. Primeiro: Senador engasga em dizer “fisionômica”, o que me fez rir muito. Também menciona a nova “lei” ortográfica que sumiu com o acento em “platéia” – sem motivo algum, visto que o acento não some na imagem acústica. Divertido. Aos seis minutos e tanto, Senador mais uma vez tenta aprimorar seu podcast acrescentando sonoras. De novo para parecer a televisão por onde os mortos falam entre os chuviscos em “Poltergeist”. Continue tentando, Kwak, um pouco mais de esforço e juro que o senhor consegue botar o ovo.

 

Fig 4. As sonoras do Kwak

Quarta-feira

A foto da Casa das Rosas não me diz absolutamente nada. Mesmo que as luzes e reflexos cruzem o salão de um jeito bonito, e o verde do mato invada a falta de personalidade da foto como em “O Jardim Secreto” (adaptação de Agnieszka Holland para o livro de Frances Hodgson Burnett) – a imaginação completa a vida porcaria. A chatice é esta foto de Rocha. A imaginação do espectador recebe no caso apenas um empurrãozinho do espinafre centralizado, na imagem, pela porta. Agora, quanto à arquitetura da Casa das Rosas, digo que me lembra um Parque da Água Branca para gente que bebe chá. E Rocha é um parnasiano.

 

Fig 5. Espinafre

Confesso a Kazu que acabei perdendo a droga de uma hora inteira da minha tarde no flavors.me – a dica da semana. Estava me preparando (quando ainda lia o meio do texto) para criticar o post pela falta de informação – parecia para mim, que ele falava de algo que esperava que já soubéssemos, e que não chegaria a realmente explicar – quando “pá”: esclarecia-se tudo. E vale a pena seguir o mestre, de novo. Só detestei o título do post, o “Menos é mais”. Kaczuroski deve ter escrito esse aí com a mesma tinta do Marquês de Sade. E lá vou eu perder outra hora na Flávia Alessandra, sobre a qual caí saltando de um trampolim do twiter do mestre, também pelo flavors.me.

Fig 6. Marquês de Sade

Quinta-feira

A cabeça careca de olhos contornados por folhinhas tribais, com salpicada de “abelha” numa panela de “Contatos imediatos de terceiro grau” do Spielberg, de Ziegler, ameaço aplaudir como o melhor da semana (Oh não, Ombudsman! Não faça um negócio desses!). O melhor da semana. As capitulares no pescoço, as cores, a dimensionalidade – tudo seguramente impecável. A ilustração é, inclusive, melhor do que o poema de Bilac, que (diga lá) é um chato parnasiano como o Rocha.

 

Fig 7. Ziegler e vários Senadores

Helder não completou o texto de semana retrasada nem fez nada para esta. Acho que foi para a praia com o Roston. Aliás, indo checar como se escrevia “Roston”, acabei de perceber que nosso amigo advogado tem no sobrenome “Esposito”, o mesmo segundo nome de “Peppe” em “Destino Insólito”, onde um pescador bruto italiano perde-se em uma ilha deserta com a Madonna. Péssimo filme.

 

Fig 8. Destino Insólito

Sexta-feira

Conhecia também todas as músicas do podcast erótico de Lex. Digo erótico porque até agora não deixei minha irmã voltar para a sala pelo “seis sem tirar de dentro”. Não sei se é bom que eu conheça todas as músicas, mas também não é possível julgar o Lex por algo tão subjetivo. Nada foi novidade pra mim, mas lógico que poderia ter sido. E gosto de absolutamente todas as canções da seleção, assim o programa é praticamente um cheddar mcmelt. Continuo a implicar com o “tã-nã-nu-tã-nã” do começo, mas já deixei o Lex de castigo por esta e ele fugiu pela janela com as suas péssimas companhias. Agora uma medalha de honra para o “Ok Go”, porque esse clipe só não é melhor do que “Do the evolution” do Pearl Jam, desenhado pelo Todd Mcfarlane, que além de ganhar do “Ok Go”, inventou o Venom e o Spawn.

Fig 9. Todd e a sua bolinha

Mantendo a folha no ar, Lucas conquista a gente aos poucos nesta fábula sobre um compositor brilhante que não vivia o que explicava àqueles que conheciam o mundo de perto, mas enrolavam ao cantar sobre ele. Não que o “enrolado” fosse ruim – deixa muito claro Nobile – mas malandragem é malandragem. Os “cabeças de algodão” colam na prova, enchem lingüiça e tiram dez. Ou será o contrário? Quem cola é Cido que não vê de perto, mas de longe? Os velhinhos sambistas viveram, mas não tem a beleza das palavras cartolíssimas de Cido. Nem as de Lucas. O começo do texto, quando fala dos jantares que o cavaquinista perdia, é um pouco chato e óbvio. Mas encorpa. Encorpa. Encorpa. Para chegar em “Tinha ciência de que há coisas que não é preciso vivenciá-las para senti-las”, a chave linda do texto que explica o título perfeito: “Amor não se vive”. Título este, aliás, que honestamente já vale como um belíssimo poema expresso. Dá para passar a tarde conversando sobre esta frase. Mas não grude não.

Sábado

Dia doze. Ana Luiza finalmente engordou o post, tornando-o um pouco mais interessante. Isso graças a Deus mesmo, porque já fazia um tempo que a moça não fazia mais do que poucas frases para indicar um filme do Caderno 2. Desanimava muito o sábado no Sete Doses.

Desta vez, por mais que publique notas de agenda, a moderninha o faz com estilo e charme, fazendo valer a leitura. O humor é leve, mas interrompido aqui e ali com alguma melancolia – esta que domina com o segredo do coração partido que Ana anuncia ao fim, com previsões para que aconteça em breve, sem que saibamos porque ou como o coração se partirá. No aguarde.

Fig 10. Ana Luiza voltou!

Leandro construiu uma pirâmide carregando pedra nas costas no último sábado. Deve ter sido o post mais trabalhoso da história do site. Isso ainda porque o texto está perfeito, redondinho, delicioso de ler. Defeito? Exagero. A pirâmide é grande demais. Boa parte do trabalho foi inútil. É tempo demais de vídeo – praticamente impossível de assistir. O post é um bem-feitíssimo mar de magnésio.

 

Fig 11. Auto-explicativo

(tudo que uma tirinha do Yuri não é)

Domingo

O texto de André Toso costuma ser interessante, embora eu tenha de razoavelmente sempre discordar de suas opiniões a respeito do mundo. O jornalista analisa o ato de lavar legumes como uma atitude “revolucionária”. Posso concordar com essa idéia, sob a ótica da “não-alienação” que Toso coloca, uma vez que está claro no “lavar legumes” qual o trabalho, o resultado do esforço, e o quanto afinal de contas a produção (o bem final a ser consumido deste trabalho) não está fora da própria capacidade do trabalhador de usufruir do que ele mesmo criou e deu ao mundo. Agora, não é possível comparar nem em brincadeira qualquer coisa que se predisponha a existir coletivamente com “trabalhar para si mesmo e não para os outros” (o lavar legumes domesticamente). A não ser que você esteja preparando uma salada para dividir inclusive com aqueles que plantaram, colheram, e distribuíram os seus legumes, não está fazendo nada revolucionário, mas pensando unicamente no seu próprio bem-estar. Se ainda quiser dizer que é justamente isso que é “revolucionário”, é melhor pararmos de usar o mesmo dicionário, porque “individualismo” e “egoísmo” são as bases do que a gente já vive, não uma ponte para um amanhã que possa existir em oposição ao hoje.  Se Toso ainda quiser riscar o “egoísmo” do que eu acabei de dizer, para trocar por “auto-conhecimento”, continua não mudando nada. “Auto-conhecimento” não é um ímpeto da era que virá, mas do mundo onde a gente cresceu, onde o encontro consigo mesmo parece mais importante do que o encontro com o outro. Da próxima vez, experimente lavar legumes à quatro ou oito mãos. Agora, riscando a palavra “revolucionário”, o texto é hippie e niilista ao mesmo tempo, o que é sempre um bom malabarismo de se fazer.

 

Fig 12. A revolução de Deco e Yu

Yuri Machado publica uma tirinha, finalmente. Claro que uma obscura e um pouco…difícil? Desenhada com o mouse, no paint brush, de novo. O desenhista deveria largar o Sete Doses e ir logo ao Gugu. Mas teria de tornar as piadas um pouco mais populares. Alguém notou que “Felipe” (a personagem careca) conversa com a própria mão, que é sua (aparentemente) amante? E que esta mão está a trocá-lo por uma outra, provavelmente porque “Felipe” está ficando careca? O fim, “Cortazar…”, é muito simples depois da quinta vez que você se força a tentar entender a tira: “Felipe” vê no abandono, na vida ruim e na gigantesca frustração do primeiro amor a perfeita porta de entrada para a carreira acadêmica e os estudos literários com pompons. Ou, se você não quiser queimar a cabeça tentando entender o que o Yuri não conseguiu passar direito: entenda que agora “Felipe” vai ter de ler “Cortazar” sem as mãos, visto que uma (Marlene, a direita) fugiu com a outra (Rodrigo, a esquerda). Agora falando em voz alta parece tudo cheio de boas idéias. Mas a tirinha, em si, é um pouco…difícil? Mais do que devia, sem dúvida.  

Boa é a comédia.

Nabuco Dosador é ombudsman do Sete Doses às segundas-feiras.

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A semana do dia 30 de Novembro ao dia 7 de Dezembro

Segunda-feira

Fim de mês. Roston posta alguns versos livres – pode ser um poema. Se sim, nele o Eu Lírico anuncia que está com preguiça ou que se mastiga demais de tristeza para escrever nem que seja em branco. Mas escreve, como sempre, que não vai escrever. Em branco. Não demora até que os versos do texto assemelhem-se a uma carta de suicídio. E tudo tem a ver com garganta. As pessoas mexendo-se em volta e “estou incomunicável”. Por fim, se o “destino” é a paz no encontro com uma mulher, o último ponto de um dia chato de trabalho (onde se pode “cansei e me recuso a continuar!” – e note a exclamação, porque esse tipo de sobressalto é raro em poema! A maioria dos autores foge um pouco do tom de chilique), o encontro com essa mulher também soa, no embalo, como uma espécie de suicídio. A proteção, o aconchego, o abraço que ela dá no pescoço. Tudo tem a ver com garganta.

Em suma, o post é um resmungo emocional do André. Coisa justa, porque nem título o troço tem, e todo poema – bom ou ruim – resmunga.

Fig 1. Ney Matogrosso canta um ponto de exclamação 

Fig 2. Manuel Bandeira no resmungo de “Estrela da manhã”

“Saudades, hein?” diz ao telefone Fernando Macedo, para oferecer seu post e uma feijoada com samba. De fato; saudades. O podcast tem mais carinho do que qualquer outra coisa. Começa com uma versão leve e comportada  – lá vem um ar forte de nostalgia (potencializado pelo eco da voz de João Nogueira) – de “Feijoada Completa”. Mais bonita e mais feijão-preto do que quando Chico canta. E eis que chega o Fernando de sempre, depois da primeira faixa, realmente travestido de locutor. O texto de narração sinestésica que quase dá para sentir os cheiros da cozinha! Mas aí começam os problemas (quando a gente tira a tampa da panela, que eu prefiro de barro): O miolo do podcast não tem muita unidade. Surgem daí trechos picotados de canções logo interrompidos pelo (“to mole que nem manteiga, e…”) grito do Grito. Faltava? Faltava. Assim sem contexto? Estranho. A dica ficaria essa – encontra um momento melhor para o urro, por favor? Não fez sentido. A escolha das canções continua salvando todo mundo da forca. Mas o volume entre uma faixa e outra varia demais – o segundo pedido ficaria este; atenta mais pra essa diferença de “altura”? Na gravação, logo depois de dizer “Laranja madura”, no entanto, é preciso notar que Macedo arrota surdino.

Fig 3. Complemento de feijão e paio

Terça-feira

Senador, esta semana, deu coça em Ziegler pela ilustração de duas vezes atrás a respeito de Geisy Arruda. Merecida, a surra, mas não se fala mais nisso. É a primeira vez que escuto uma coluna recitada, agora isso sim – não é um podcast. É tão pessoal e tão centrado no próprio Kwak que não esconde sequer a esquizofrenia do Senador, que cobra de si mesmo que elucide a sua própria dúvida (instantaneamente e sem tempo de pesquisa) sobre a faculdade de Geisy. “UNIBAN..é UNIBAN?”, pergunta não como se pra si mesmo mas quase que para outro Kwak ali sentado brincando com um suco de tomate. E o podcast chega a falar de mim; o ombudsman que nem mesmo existe! Mas não posso discorrer mais a respeito do caso. Nele, eu concordo com o Senador que concorda comigo. Fica pela graça que eu vejo no termo “tomar tenência”. O vocabulário do Kwak dá à “pisa” um tom amarelado de vovô, algo quase como um beliscão enrugado.

Fig 4. Café-da-manhã

A segunda parte da jornada de Ricardo por Jericoacoara segue o sabor da primeira. Os caminhos do jornalista já vinham antes relatados (pelo correio) como fossem aventuras para se narrar de dentro de uma jacuzzi étnica. O texto de conclusão à saga faz mais gracinhas, mas não sossega dos serviços. E erra apenas no fim do primeiro parágrafo, quando desmonta a falar de princesas, príncipes e dragões! Além de trazer um universo imagético gringo e medieval para o meio do paraíso tropical brasileiro e negão (o que se poderia até dizer que não é tanto um erro, visto que tem muita gente de fora vindo morar nesses nossos cantos perfeitos, e Jeri já parece um pouco gringa), o trecho é escrito como recorte de um diário da Hanna Montana. “Tentei me converter em príncipe para ingressar nos encantos do subterrâneo, mas a concorrência é grande e eu fiquei para trás, comido por um dragão imaginário” deve ser a coisa mais pré-adolescente purpurinada que eu já tive o prazer de ler na vida. Ricardo tenta resolver citando Drummond no final do segundo parágrafo, mas na verdade só consegue se salvar de novo quando engrossa a voz em “Se o seu paladar não tolera frutos do mar, leve um bauru ou vá para Minas Gerais”. Praticamente uma cusparada no chão e um gancho com mão em concha no saco. Agora os malditos elogios: Deus do céu, quanta coisa exótica ou com cara de exótica no mesmo lugar! Caipirinha de Umbu, “Lagoa da Torta”, sorvete de tamarindo, Chico César, carteira recheada… Faltou só uma informação, no mundo: Jericoacoara é a prima feia dos Lençóis Maranhenses? No Google Earth, Jeri parece um desertão safado.

Fig 5. Chico César

Quarta-feira

Foi a primeira vez que senti em um texto de Kazu as duas mãos da avenida. Normalmente, o post traz informações para o leitor. Aqui, se explica no meio do choro e apenas informa o que veio até ontem (não aquilo que é hoje nem que virá de agora pra frente). Não, eu não sei melhores opções para baixar filmes. Mas acho muito interessante um texto internético falando sobre compartilhamento de arquivos pedir troca de informações (sobre programas de troca de informações) entre leitor e autor. Kazu quebra a quarta parede aqui, e faz do seu post um bate-papo. Não é exatamente uma crítica. Mas também não é tanto um elogio. E sei que baixei “Deixa ela entrar” – a versão sueca de “Crepúsculo” – procurando direto no Google, e não só consegui um vírus de computador gravíssimo, como nem sequer pude ver o filme todo: em um determinado momento, a língua original é (na minha fantástica versão) substituída por um espanhol muito duvidoso.

Fig 6. Espanhol duvidoso

A cachoeira do Rocha levanta uma neblina que realmente lembra um véu de noiva (Yu ombudsman). As cores estão muito equilibradas – só não o estava o fotógrafo, que se esborrachou no chão um pouco depois de clicar a imagem. O que mais me interessa é como as rochas logo abaixo da ponte (é uma ponte, Pedra?) se confundem com as folhas secas da sombra. E é lógico que me traz lembranças de novo. Mas dessa vez trata-se de um vídeo que assisti certa vez no youtube, que rola mais ou menos assim:

Quinta-feira

Ziegler, o discurso do fim da ilustração é do AC/DC? Ele faz mesmo uma (tragi)cômica transposição da saudação (anônima?) àqueles engajados em movimentos sociais, políticos e coletivos para um urra aos demais em comemoração de produtos-de-transgressão que camuflam hedonismos individuais vividos em massa em um show de rock? (Nada contra shows de rock ou hedonismo, mas tudo tem hora, tamanho e grau) Não consigo não me incomodar com o que realmente significa a progressão de imagens na ilustração. Esta, diga-se de passagem, que ainda parece um pouco preguiçosa. Traz praticamente várias fotos famosas coladas uma embaixo da outra como se por “ctrl-c, ctrl-v” no paint brush. Nisso, a conquista da taça deve ser a única imagem que combina um pouco com o que seria um show do AC/DC. Aqueles velhinhos ginastas de couro.

Fig 7. Aeróbica do diabo

Helder não completou o seu texto esta semana. Postou um pedacinho de conto, um asterisco e ficou por isso mesmo. Não sei os motivos, então também não faço piada.

Fig 8. Lima Bahelder

Sexta-feira

A personalidade do podcast de Lex é sempre o ponto alto do trabalho. E a seleção de canções, esta vez, conseguiu praticamente (para mim) apresentar-se em inéditas – só conhecia 4 músicas. Os pontos baixos: Um pouco de exagero na apresentação (com a sugestão de afastar as coisas para poder dançar, que por mais que seja simpático, soou meio estranho de ouvir vestido no meu robe, no quarto, com essa chuva do lado de fora. Só poderia atender essa dica se eu estivesse em um filme ruim com o Tom Hanks), e o mesmo riffzinho de abertura de sempre – acho que já está na hora de mudar o “tã-nã-nu-tã-nã”…

 

Fig 9. É pra dançar mesmo?

Se semana retrasada Lucas Nobile me deixou a uma lágrima de chorar, desta vez me pôs em meia. As descrições bem-humoradas que ainda misturam o seco e realista e o fantástico (como Fontaninha a rasgar páginas de dicionário pelo “imprevisto” ou lavando as mãos com Superbonder) levam o leitor pelo dedinho (pra não fazer como a morte, que leva segurando a mão inteira) a uma fábula-do-samba – para lá onde na realidade Lucas sempre leva seus leitores, de um jeito ou de outro. A única imagem que me parece previsível demais para o nivel do resto da narrativa é a das flores como fedendo para Fontaninha. No entanto, mesmo esse é erro tão miúdo que castigar essa pérola pela frase infeliz seria como matar um elefante pela deformidade de uma espinha. É preciso dizer, mais uma vez, que nunca é a originalidade do enredo que coloca Lucas como um bom escritor. A história é sempre beirando o imbecil, o repetido. O interessante é essa raiz funda no samba e a capacidade do compositor de armar textos para se cantarolar na chuva (mais uma vez repito que é como no dia de hoje, sem sertão nenhum, tudo chovido).

Fig 10. Pra matar o texto

Sábado

Ana Luiza continua não escrevendo seus posts. Parece realmente que perdeu o interesse depois que eu passei a existir.

Leandro prossegue na Fórmula 1. O texto, desta vez, me parece excessivamente informativo – digo como se fosse ruím, porque cai um pouco numa falta de apelo “comercial”(!). Ao mesmo tempo, é de fato uma belíssima retomada histórica do esporte. Agora, dirigir um carro é esporte por quê? A mesma coisa com o xadrez. Aliás, gostaria de ver um pouco mais de xadrez por aqui. Por fim, digo que gostei da piada leve entre parênteses “para sorte de Schumacher”. Não sei bem porque, mas ri bastante.

Fig 11. Sugestão de pauta

Domingo

Não aguento mais o André Toso querendo (fingindo) ser o Nelson Rodrigues. A fluência, a simplicidade crua no relato em atos, personagem simples 1 e personagem simples 2, saltos cronológicos, finais catastróficos e arrogantes – André até vive enfiado no corpo de jornalista maldito com um quê de teatro (nem me diga nada, Dostoiévski é paixão do Domingos Oliveira) – é tudo roubado da carteira de Nelson. Pra que é que serve ler o André Toso se já existe o Rodrigues? É pra quem gostaria de saber o que o dramaturgo diria das relações do mundo de hoje? O Toso é médium? Psicografa? André está ficando chato, e deveria participar logo de um daqueles blocos de programas horrendos de auditório da televisão aberta onde fosse, junto ao sósia do Michael Jackson e o Tiririca (que não é sósia de ninguém mas é do mesmo nível do Toso e da sua corja de seguidores pedantes – não que o Tiririca seja pedante, mas é entretenimento para dementes mentais tanto quanto o André) rebolar na frente da câmera e ganhar uma nota por quanto consegue abrir mão da sua própria personalidade para imitar perfeitamente o talento de uma outra pessoa. Texto fantástico.

Fig 12. Premiada imitação de Nelson Rodrigues

Yuri Machado não assinou seu próprio post (se bem que seu nome já constava bem visível no fim do poema-caixa-de-comentários), e ainda publicou ilustrações do mês passado. Parece que se pode dizer que o desenhista não anda muito engajado no site este fim de ano, mesmo com a qualidade dos desenhos desta semana – e apesar de serem sim, inéditos na internet. O texto das alunas da Cásper é bastante ruim, mas isso também não justifica que Yuri o apresente praticamente transparente no site. Custava um pouco mais de definição? Por fim, não entendi o vídeo congelado do Youtube. Se era apenas para mandar um sinal de fumaça para os companheiros do site avisando que você anda mesmo muito triste e que está prestes a tomar um porre com o Roston porque afinal de contas até a lembrança vai embora, deveria ter publicado isto:

Nabuco Dosador é ombudsman do Sete Doses às segundas-feiras.

A SEMANA DO DIA 23 AO DIA 29 DE NOVEMBRO

Segunda-feira

“Não existe homem bom por natureza. Existe disciplina e força de vontade”, diz “Despedida de um queimado em coma” de Roston. O texto é muito bem escrito mas tem um ar cristão um pouco exagerado. As frases às vezes carregam no rebusque e dizem pouca coisa. E tem cara de auto-ajuda erudita. Mas não dá pra negar que pega um pouco no rim. E se aproxima sim de uma overdose de Vinicius-de-Moraes-na-missa. Quanto ao título, só me lembra que quando operei as costas, alguns anos atrás, fiquei internado na ala dos queimados no Albert Einstein. Não sei bem o porquê. Só sei que tinha uma criança no quarto da frente do meu que chorava o dia todo, e não me deixava assistir Friends. Os gritos dela me impediram de saber afinal se a Rachel amava o Ross. E a despedida da criança-torresminho era bem menos articulada do que a do André.

Fig.1 Criança queimada

Fig 2. Ross

Fernando Macedo impressionou na estréia de seu novo podcast. Digo novo, porque de fato tem do velho muito pouco: o assunto engorda os sons que Grito usa para embalar o ouvinte, e não o contrário. A seleção de faixas de música brasileira funciona perfeitamente, e dá ao trabalho do publicitário-poeta (?) o ar de uma versão tupiniquim do “Dose Indie” de Lex. Com o mesmo capricho do Dj-de-cabeça-gilette, Fernando abre o trabalho discorrendo sobre as raízes negras da música (e da cultura) brasileira – com a boa notícia de que agora consegue prender a atenção do ouvinte por completo. Se algo faz falta, bem se podia dizer que é o berro que lhe emprestou a alcunha – aliás, o grito. Nos momentos em que parece que o rapaz vai se animar no seus “aaaah’s” que costumam me deixar com vergonha (quando tem gente me ouvindo ouvir o Fernando), Grito decepciona um pouco caindo para um murmúrio desacelarado, como se fosse um berro em “baleiês” do “Procurando Nemo”. Mas não consigo me decidir se isso é realmente ruim. Já estava chato que a única coisa que o Grito gritava era coisa nenhuma.

Fig 3. Homenagem ao dia da consciência negra

Fig 4. Retrato falado do novo Fernando Macedo

Terça-feira

O texto de Ricardo sobre Jericoacoara fala bem do autor – o cara é um imbecil na sua capacidade de escrever textos turísticos literários costurados em equilíbrio minúsculo e perfeito entre bastantes listas de serviços e momentos gays. Tudo isso no melhor sentido. Agora o chato: Há dois defeitos horrendos que me irritam porque quase estragam a belezinha do texto. Em primeiro lugar, Ricardo entrega-se como uma porcaria de mochileiro quando conta quase como a Adriane Galisteu diria sobre sua semana de spa em Saint-Tropez que se hospedou, em Jericoacoara, em uma pousada classe B+ por R$160 a diária. A aventura da história (que querendo ou não é o que seduz a turma do Supertramp e dos jeepeiros) mingua em imaginar que no fim dos bate-pernas você assistia “Jô Soares” na televisão suspensa sobre a cama de mola com botãozinho de massagem enquanto falava com a Ana Luiza sobre Manhatans e Martinis ao telefone. O segundo defeito? Este fim clichê e melado. Até porque todo mundo sabe que a lua não é tímida nada. Ela é um queijão metido.

O vento constante é um eunuco natural”. Gay.

Fig 5. Jeep

Fig 6. Jô Soares

“E a voz não tão esplêndida…” anuncia Senador as cantorias do Pelé – aquele babaca dos gols. Lucas Nobile encarna mais uma vez o Vinicius de Moraes (“eu é que aprendo com você” é paráfrase consciente, né? Ou nosso amigo cavaquinista está realmente com uma crise de personalidade?) para elogiar com carinho o “pequeno notável” (não acredito que Kwak referiu-se a si mesmo desta forma! Que cara-de-pau maravilhosa!) pelo podcast gravado com o som tão abafado que parece que meteram uma almofada na cara da Elis Regina e enfiaram a cabeça de Senhor Edson dentro de um aquário. E o Senador repete pela quadragésima vez o termo “quiçá”. Mas o podcast está divertido. Do que se pode reclamar de verdade e sem gracinhas? O som está bastante ruim na parte da música. Mas o chute na barriga da modéstia perdoa tudo.

Fig 7. Pelé

Fig 8. Lucas Nobile em sua infância em Itapoã

Quarta-feira

Não entendi (mas adorei) as imagens do post de Kazu sobre pornografia. Afinal, quem fez essas montagens mais que interessantes? São de chamar as pessoas da casa toda pra olhar. Gosto do chapéu de cowboy. Gosto do telefone. Mas não entendi a negrinha de avental azul. Ela está fazendo o que? Moldando metal? O texto é relevante. E as grosserias que o autor joga no meio (“seu puritaninho de merda” e “freaks que sentem tesão com anões ruivos transando com garotas de membros amputados com prendedores de roupa nos mamilos”) são de apaixonar qualquer evangélica. Mas preciso dizer que conheço um sujeito que é conhecido de muita gente por aqui que compra dvd das Brasileirinhas sim. E assiste enquanto toca flauta.

Fig 9. Anão ruivo

Fig 10. Esposa de Kaczuroski

O morcego do Rocha é vesgo. E deve ter morrido de stress depois de fotografado. O fundo está embaçado, mas o bombadinho vai dizer que é estilo. Na verdade nem o bicho está muito nítido. Não serve para a National Geografic. Mas serve para provar para as pessoas o que eu sempre disse: asa de morcego parece plástico derretido. Eu lembro que derretia meus bonequinhos (menos o homem-de-gelo e o Mr.Freeze, do Batman, que eu congelava dentro de um copo) justamente para comparar com as asas do morceguinho que eu tinha de estimação no sítio (Boituva). Este morceguinho é mesmo verdade. Quando o troço cresceu um pouco, decidimos deixa-lo dormir do lado de fora da casa, perto da churrasqueira – embora ainda na gaiola de passarinho. Em uma manhã espetacularmente fria, me lembro que corri para cumprimentá-lo pelo “bom dia” logo depois de esperar o orvalho sair da grama (gay) e devorar meu ovo semi-cozido com shoyu (boto a receita em outra ocasião), e que chorei muito quando notei que o morcego havia suicidado. Tentara escorregar para fora da cela, entre as grades, no desespero de quem sabe voar com os outros morcegos ou entupir-se de vaga-lumes de exoesqueleto de açúcar – enforcara-se. O corpinho parecia plástico derretido ainda, quando o arrancamos de lá, frio e encolhido.

Fig 11. Bonequinho do George W. Bush (que eu adoraria derreter)


FOTO CENSURADA

Fig 12. Rindo do morcego. “Há há há!”

Quinta-feira

Ziegler, esta semana, foi despretensioso. O retrato tratado das lajotas da sua casa com o sistema solar na barriga (do chão) conseguiu chegar a comover – como parece que só conseguem comover as despretensões. As cores, o equilíbrio da imagem… ficou muito bonito. Tem cara do começo de uma série de imagens, embora eu imagine que essa idéia não se vá cumprir.

Fig 13. O jardim do Ziegler

“Sobremorrência” é uma palavra excepcionalmente Helder. E ela resume esse texto, truncado, non-sense e picareta. Mas interessante. Em alguns momentos, fica metido e aleatório. Em outros, barrigudinho e inteligente. Termina bem. O tipo do texto que mesmo quem não entendeu vai dizer que gostou, porque o gosto (o aprovar) parece que traz implícita a compreensão. Mas os séculos da gente já provaram que não. Assim: eu não entendi porra nenhuma. Mas gosto. Só pra fingir que eu entendi.

Fig 14. Helder sendo irreverente em uma visita à Bienal

Sexta-feira

Lucas Nobile – e não brinco quando digo isso – me emocionou dolorosamente com “Janelas e Cortinas”. É raríssimo isso comigo, mas tive alguma vontade de chorar sim. A canção é perfeita, nesta gravação quase de rádio antigo; as menções da letra a uma mesa onde “falta ele” casam da forma mais triste e completa possível com o texto fino, delicado, silencioso, com algo do retorno de Cartola à casa do pai (depois de falir o Zicartola por liberar bebida de graça pra Mangueira inteira). O texto traz pérolas das mais doces de Lucas, beirando especialmente a perfeição aqui:

“Quando, por exemplo, um passarinho cantava bonito no quintal, o pai cutucava o filho, depois fazia uma concha com a mão direita na própria orelha e colocava a esquerda no peito, como quem diz: “escuta só que beleza, meu filho, escuta”.

Fig 15. Coisa linda de Deus

Lex fugiu um pouco do indie para falar de rock nacional. Com o capricho de sempre, é certo, mas bem podiam os Titãs praticar a musiquinha com o mesmo esmero do Bola Branca. E pensar na contribuição da barata grisalha de óculos pós-modernos Lulu Santos tocando baixo com os tiozinhos meso-irritados cabeças-dinossauro me dá ânsia, enjôo. Da mesma forma são regurgitos de azia tanto o Ira quanto o Legião Urbana – porque convenhamos que o Renato Russo acertou algo como 4 vezes na vida, e o resto do tempo jogou flores do palco para um monte de cazuzinhas de Brasília. Capital Inicial então nem se fala. Então é tudo uma merda? Claro que não! Plebe Rude! Picassos Falsos! O maldito Lex espirra páginas de enciclopédia!

Fig 16. Um Picasso falso

Fig 17. Lex

Sábado

Desta vez, para ninguém dizer que não prestei atenção no trabalho do Leandro, assisti os vídeos duas vezes, lendo e relendo o texto (trás pra frente, frente pra trás). Pra começar, preciso dizer que é hipnótico ad nauseum (a minha homenagem ao Helder é falar em Latim! Ou será que isso é mais Aroston…) assistir corrida de Fórmula 1 em japonês. Não que em português seja menos hipnótico. As frases do locutor dão voltas junto dos carros, e você sente como se girasse. Mas não é assim com o texto de Leandro, que é tão conciso que chega a ser duro. É um tolete maciço de informação, extremamente bem organizado. Eu fico tonto com os vídeos, mas paro em pé com o texto. Só continuo detestando o Senna.

Fig 18. Narração de Fórmula 1

Fig 19. Ayrton Senna comemorando um título

Ana Luiza parece que vai seguir a linha de apenas indicar filmes, sem falar nada sobre eles. Não tem nem o que criticar. É um post quase em branco. E o Almodóvar é um chato ególatra repetitivo, que escreveu três filmes geniais e depois preferiu catarrar roteiros em série (dois por dia, vencendo até dos impressionantes um livro e meio por semana de Stephen King) que na verdade são só dois textos que ele re-adapta e reveza: um sobre mulheres fortes que fumam e geralmente são a Penélope Cruz e outro sobre bichas estilosas e exóticas (que no fundo sempre são ele). Cara mala.

Fig 20. Pedro Almodóvar

Fig 21. Flor de cereja

Domingo

Conhaque barato? Isso aí é Domecq, Toso! Eu mesmo te dei uma garrafa disso de presente. É coisa boa; é só botar um gelinho e uma folha do louro…  Mas de fato a decoração (que decoração?) da sua cara é uma merda, e o chão sai do lugar em pedaços, subindo toda a poeira que você é preguiçoso demais pra tirar. Mas a “apuração” do texto é fantástica, merda (dá pra chamar essa colcha de retalhos de “apuração” ?). Você quase toma emprestada a genialidade daqueles que depõem para que o seu texto exista, e há momentos na “entrevista” em que é bom parar e ir buscar um copo d’água. Isso é um elogio e um cuspe na cara, sempre. Que a idéia do Ser Inexistente é boa demais para que o jeitão pretensioso do texto estrague tudo. E Toso aos poucos começa mesmo a dar uma de psicanalista? Então fica este presente que te dou de Natal (já que o novo Domecq que eu ia te dar, vou beber com gente menos afrescalhada e metida):

Fig 22. Freud para colecionar

O vídeo que Yuri postou é muito bom, mas o desenhista está sem dúvida na sua pior fase no site. Além de não colocar novidades, agora deu para imitar a Ana Luiza. O ridículo é que ele parece que continua se sentindo melhor do que ela – como se John Lennon fosse menos clichê que Almodóvar. Não dá pra criticar muito o “cartunista” também. Ele com certeza anda fazendo a revolução deitado na cama ou no sofá da sua mãe.

Fig 23. Yuri Machado e a Filosofia

Bem, isto fecha a semana. Se alguém tiver alguma reclamação a respeito do meu bom português, encaminhe para o Helder. Ele agora é encarregado de editar o site todo.

Nabuco Dosador é ombudsman do Sete Doses às segundas-feiras.

Essa semana o Sete Doses inaugura uma nova seção. Com o objetivo de melhorar a qualidade do conteúdo, decidimos criar a figura do Ombudsman. O papel de nosso Ombudsman, batizado de Nabuco Dosador, é fazer toda segunda-feira uma análise isenta de tudo o que aconteceu na semana, com críticas construtivas e ideias para que os posts melhorem cada vez mais. Cada um dos 14 integrantes do Sete Doses poderá vestir a carapuça de Nabuco Dosador por um período de um mês. O leitor, porém, não saberá qual de nós está escrevendo com o pseudônimo. Figura já comum no jornalismo impresso, o Ombudsman ainda não é normalmente utilizado em blogs e sites. De acordo com uma pesquisa rápida que fiz, suponho que o Sete Doses seja o primeiro blog do Brasil, e se bobear do mundo, a criar o cargo. Se alguém souber de outro blog que faz o mesmo, por favor deixe um comentário. Abaixo, segue a primeira análise de nosso Ombudsman.

Abraços,

André Toso

Editor do Sete Doses

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A SEMANA DO DIA 16 AO DIA 22 DE NOVEMBRO

 Segunda-feira

 André Roston ainda está indeciso quanto ao que fazer com seu espaço no site. Percorre muitas “modalidades” de texto de forma completamente cigana, como fosse um bêbado com labirintite e vendas nos olhos correndo de costas em uma ladeira ensaboada. Mas André ridiculamente não cai. Ao passar pelo bacharel, eu bem gostaria – como todo mundo – de não notar que se vira muito bem no seu desgoverno. Mas parece que o advogado nasceu mesmo para ser equilibrista exótico. E segunda-feira última, provando o comentário, Roston levantou uma das melhores surpresas do seu roda-pião: “Mulheres ficam espertas antes (ou: lição nº 1 para a vida toda)”. O texto é doce na medida certa, e parece que sempre esteve ali. Com ares de conto infantil a ser publicado em uma compilação para adultos nostálgicos, a redação relata a dolorosa (e mais do que conhecida por todos) travessia de um moleque – que tem aquela porcaria dos seus 12 anos – do começo de uma festinha pré-adolescente ao fim da própria, onde com sorte sua mãe passaria no Mac Donald’s. Ou pode ser que este fim do fast food seja só o que acontecia comigo depois de levar um tapa de duas ou três Adrianas. No meu caso, tapas não por ser tão solicitado pra dançar (pois recebia as porradas por menos amor): a minha graça estava em levantar as saias com um garfo de churrasco que eu roubava da cozinha quando ia comer um brigadeiro contrabandeado pela faxineira gorda que paparicava intrusa os meninos parrudinhos. Levava tapas bem dados todas as vezes, menos quando (aconteceu em uma só ocasião, com Aline Santiago, da 6ª série) eu acabava arranhando a perna da menina com o garfo, e era posto de castigo por adultos que eu não conhecia como se houvesse sido minha pretensão arrancar um filé daquelas coxinhas.  Mas o texto de Roston não é engraçado, e nem tão arrogante quanto a lembrança. É fluido e limpo, e corre em um discurso indireto livre brilhante. Por fim, apenas não é perfeito por cair algumas vezes, durante esse discurso indireto livre, em algumas obviedades de gibi da Mônica, onde o autor faz parecer que toda criança traz consigo um misto de ingenuidade de veraneio e um retardo mental agudo. Num mesmo trecho, André consegue sair de uma descrição situacional impecavelmente confusa (e linda) para chegar à sugestão de que as crianças relatadas no conto haviam antes sido montadas na barriga de uma fumante de crack compulsiva ou trabalhadora braçal de uma indústria em Cubatão:

“Eles aproveitando para zoar o… BUM! canhão da aniversariante. A pirulito e a Isabola. Mas algumas delas… olhavam uns, davam risadinhas, e a outros apontavam em gestos motivadamente pouco discretos, mas mais sérios. Estavam tramando com certeza! O que era? Daniel continuava se divertindo, brincando! Ah! Quem se importa?”

Fernando Macedo não publicou seu podcast semana passada. Subiu para o site apenas uma ilustração que anunciava uma “reforma” pela qual estaria a passar o trabalho que o publicitário performático posta às segundas-feiras. A imagem jogada ao dia 16 trazia à esquerda uma claquete de um amarelo alaranjado que não tinha como não me lembrar a fonte “allure” da capa de cd da revista eletrônica “The Wave” que eu recebi pelo correio em 96, um pouco antes da chegada da internet. O cd não servia pra nada, mas trazia um ensaio fotográfico de uma modelete trintalhona que tinha mamilos como duas mortadelas – ou quase do tamanho de fatias de pão sírio, ainda um pouco esverdeados pela tela do Itautec jamanta. À semelhança do “The Wave”, a ilustração meio “men at work: engolindo notas em azul-verde ciano”, se fosse feita de papel daria um belo apoiador de copo. E a gente espera pra ver as novidades de Fernando-homem-grito no dia 23? Fantasticamente hoje. Na pior das hipóteses, quando está com preguiça, o sujeito traz boas sugestões de apetrechos de mal-gosto para escritório.

Terça-feira

Não tem pra quê alongar-se sobre Ricardo Torres desta vez. Quando se concentra em relatar viagens, o jornalista é um rapaz blindado. O texto é perfeito da boca à bunda. O único comentário negativo daqui fica pelo exagero na bagagem pop (que exige do leitor o domínio da extensa asa que vai de Fagner à Ferris Bueller e Marty McFly) – o texto tem pelo menos um parágrafo inteiro que ameaça ruir por fazer referências demais, violentado pela higiene compulsiva da edição de Ricardo – ele que some com todas as pistas que poderiam explicar as frases em inglês e citações. Mas nada demais também, porque Didi é mesmo um canalha.

O Senador já não tinha contemplado a Ana Luiza? Lembro de uma entrevista antiga. E a menina não acha feio se derramar em elogios à leitura que Kwak faz justo de um texto dela mesma? Mas a voz do literato-de-luzes é sempre um prazer – embora seja preciso dizer que essa voz não basta para justificar um podcast, uma vez que com o passar dos meses tudo vai deixando de ser novidade e acaba como se a Playboy trouxesse para sempre como capa a mesma menina, a mesma menina, a mesma menina. A voz do galante repórter oriental é uma mulher gostosíssima que fica mudando de posição, mas depois de meses de site já às vezes se parece com uma esposa murcha, dessas que a gente trai pra não matar. O post da terça, assim, é a narração na íntegra do texto de Ana sobre o gato que confundiu sangue com groselha, que veio ao ar no Sete Doses meses atrás, com uma ilustração de um dos colaboradores do site, Yuri Machado. Na realidade, funciona na mesma lógica de um song-book, daqueles que as pessoas compram pra ouvir no carro porque estão com preguiça de ler. No caso, com a voz grave e mono- tônica do Senador, o post é praticamente um song-book erótico. Não foi muito criativo. Mas é mais menos como o Chico Buarque continuar escrevendo canções metalingüísticas “samba sobre samba” depois de quarenta anos de carreira.

Quarta-feira

 Kaczuroski provavelmente não poderia falar de algo de que entendesse mais. É impressionante como não passa uma semana sem que o especialistíssima Thiago traga ao site alguma informação interessante, curiosa ou extremamente útil ao leitor do Sete Doses – isso desde que reformulou seu espaço que fugiu de tratar do universo das imagens em geral pra focar-se na internet. Há quem sinta saudades, no entanto, de algo do conteúdo ou do clima de antes. Kazu, sempre adepto do tom didático e paciente de quem escreve um texto como um monge chato explica a tecelagem (artesanal), antes se esforçava menos para ser útil, e mais para entreter. Agora, o entretenimento fica por uma ou outra piada, e a atenção do leitor é escravizada mesmo é pelos assuntos e curiosidades.

As fotos de Renato Rocha agora andam transpirando audiência. No caso, o fotógrafo congelou uma menina que lia com cara mais de saco-cheio do que de sossego no Parque do Ibirapuera. O livro voava. Os comentários criaram um castelo de carta. A Yu preferiria se na imagem fosse um homem ajeitando os óculos. E o mundo tem estilo demais. O retrato é que é sempre muito elegante e o balanço de Rocha sobre si mesmo, permanentemente fantástico.

Quinta-feira

A reportagem de Helder Junior está infelizmente impecável. Apenas se poderia dizer que parece um pouco descabido fazer tanta comparação entre o conflito na Ossétia (com suas repercussões) e a Guerra-fria entre a União Soviética e os Estados Unidos. No entanto, o absurdo é bem embasado com as aspas cheias de pompons. E o jornalismo é perigoso justamente porque sabe levantar poeira que até quase não existe, mesmo quando pra isso é preciso assoprar e varrer alternando brisa pra cima e vento pra baixo. Mas a reportagem vai longe e fundo, e é muito interessante. O equilíbrio entre as partes está excepcionalmente bem trabalhado.

O post de Alessandro Ziegler do dia 19 assusta em vários níveis, assim como apavora a caixa de comentários. Como apontar o dedo para uma menina tornada famosa por ter sido (meso) estuprada de uma forma espetacular e curiosa, acusando a vítima de ter desejado o estupro por querer e prever a fama? O ilustrador (assim como metade do país, e sobretudo as freqüentadoras dogmáticas das manicures e dos elevadores) bate o martelo do óbvio moralismo agressivo e faz coro com o bando de macacos que expulsaram Geyse da universidade (antes literalmente) UNIBAN. O assunto, que deu mais pano pra manga do que seria aceitável em uma comunidade de bugios, acaba sempre caindo em debater se a menina era ou não era uma puta. A questão nunca foi essa, e sim se as putas devem ou não devem ser apedrejadas. Alguém aqui é a favor de pena de morte para mau gosto? Como se qualquer coisa justificasse engrossar a sopa de veneno pra cima da menina, que na pior das hipóteses é mesmo promíscua e queria mostrar o corpo e ganhar dinheiro – mas que na brincadeira acabou deixando explícito um mal-estar social tremendo, onde uma geração inteira que deveria ser mais liberal (pelo menos em estilo é bastante) acaba se comportando como uma horda cristã fundamentalista da idade média, ou simplesmente como uma trupe fascista em um churrasco para fofoqueiras de portão que continuam, séculos depois, “coroando” bruxas que devem mesmo adorar tornarem-se famosas a ponto de serem condenadas à fogueira. Se daqui pra frente ela vai colher bons frutos da desgraça? Tanta faz. Mas antes de qualquer esbalde, a desgraça foi uma desgraça. Tanto quanto este post.

“todo mundo já sabe como termina essa história…nas páginas de alguma revista masculina, aparições em programas humorísticos e debates com Luciana Gimenez”

PS: E eu não pagaria para ver nem a Geyse nem o Ziegler pelados.

Sexta-feira

Lucas Nobile parece um velhinho escrevendo. Essa é a verdade que não dá pra nem revolver; ela desce muito macia para o estômago. Estar perto do Lucas é mesmo algo como visitar um avô que bebe e fuma muito e tem mãos bem mais quentes do que devia. Ainda assim, o jornalista faz relações e descreve como um moleque, às vezes até descuidando-se. Em “Pré-sentido”, o escritor chega a dizer que os babuínos somem sem deixar vestígios (os babuínos? Eles invadem casas e reviram as estantes, devoram os livros e desfilam barulhentos com seus ânus vermelhos e vulcânicos nas estradas de terra dos vilarejos africanos, oras! Com certeza um babuíno deixa mais marcas que um elefante). Mas nada disso estraga o estilo de Nobile, que sempre acaba conquistando a graça de uma conversa de lareira, mesmo que o jornalista em questão prefira os botecos de chope a quatro reais aos chalés de madeira de Maringá. Neste texto de 20 de Novembro, Lucas, tomando como gancho a primeira frase da canção “Fala” do Secos e Molhados, “Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto”, conta o estranho encontro entre uma mulher que andava sozinha de noite na rua de sua casa e um assaltante afrescalhado por um machucado em sua perna que termina por adocicar-se de vez (entregando-se à polícia) com a lírica hippie da ex-banda de Ney Matogrosso. Teoricamente, é uma história idiota e forçada. Mas, assim como tudo com Lucas, o idiota torna-se caloroso, e fica tudo carinhoso demais para que passe ignorado. E há, na brincadeira, trechos fabulosos (para variar):

“Ultimamente andava com o faro descalibrado, tendo previsto a morte de sua sobrinha de 4 anos, por meningite, quando, de fato, quem batera as botinhas fora seu sobrinho de 6, de leucemia”

Lex é o rei do site. Seu único erro é respeitar o “Cansei de ser Sexy”.

Sábado

Leandro é o príncipe do site. Seu único erro é falar de esportes.

Ana Luiza vinha publicando textos que mais pareciam notas desorganizadas de uma agenda de clichês femininos quase modernos (tão modernos quanto um clichê consegue ser). Muitas vezes cada parágrafo falava de uma coisa diferente e nada juntava com nada. Talvez tenha passado um período contente demais por ser a única menina do site, e assim seus textos tenham migrado para um estilo cleópatra-cult de escrever que acabou por tornar-se bastante repetitivo. No entanto, esta semana animou o mundo com um horizonte: parece que empurrará o seu trabalho (que deve ser ótimo quando ela se segura) para um rumo novo. E não podia começar isso melhor do que jogando no site um trailer com Émile Hirsh. É verdade também que o post não foi nada trabalhoso de fazer, mas vale pelo comentário: “Aconteceu em Woodstock:  Esse é o filme que Across the Universe gostaria de ter sido”.

Domingo

O experimento de André Toso publicado ontem acertou em cheio. Usando de links, imagens e mesmo dando como a fala de uma personagem uma definição do Wikipedia, o texto “O homem que se entregou a sua insignificância” anima bastante por aproveitar o “tudo ao mesmo tempo” da internet em prol da literatura. Tropeça como todo experimento, principalmente um tanto na fluência, mas ganha em fazer o leitor mergulhar em pequenos momentos do protagonista bastante a sério, principalmente em permitir o acesso à tirinha do Calvin – ela que temos a impressão de ler encarnados no cobrador-estátua-de-leite. Há apenas uma ressalva: a palavra que fecha as cruzadas ser “ilusão” torna o trecho pedante e conquista certa má vontade do leitor que dura até quase o fim da primeira metade do texto.

Yuri Machado não surpreende há algum tempo. Terminou no dia 22 o mês e meio bastante parados em que publicou a série especial de 7 posts irritantemente burocráticos, sobre a sua exposição no Otto Bistrot em Setembro. Nesta última edição, o antejornalista traz uma tira fraca baseada em uma idéia simples demais até para ser estúpida, e uma folha de caderno sobre um regime (seu?) escaneada. A folha de caderno ganha, pelo ridículo da realidade.

Nabuco Dosador é ombudsman do Sete Doses às segundas-feiras

Um espírito de fogo e ódio invade a toca. Sentindo a presença indesejada, ela empurra suas três crias para dentro do labirinto. A cobra a segue pelos corredores de terra. Nenhuma das tentativas de despistá-la com as inúmeras bifurcações cuidadosamente cavadas funciona. Os ratinhos, ainda cegos e desorientados, a tornam muito mais lenta. A fugitiva tenta escapar pela última saída que lhe resta, na parte sul da toca, mas um garoto tampou o buraco com sua latinha de refrigerante. Impossível retornar. Impossível proteger os rebentos. A solução para desatar a situação é extremamente pragmática. A mãe rata morde e abre a cabeça dos filhotes, come o quanto consegue de suas carnes, e cava uma saída para a superfície.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

Uma semana que se escoou como se o tempo avançasse derretendo tudo que me constitui. Sempre imaginei que, com o passar dos anos, sentiria uma angustia cada vez maior de viver. Intensamente. Em verdade, hoje sinto, em alguns momentos, como se a única coisa que pudesse crescer fosse o distanciamento. O desapego de eventos repetitivos e maçantes que inundam horas seguidas de trabalho e compromissos que nem sei quando, e como, assumi. Sensações se diluem, em um corpo e mente entorpecidos de informações irrelevantes. Nenhum detalhe marcante destes dias. Nunca imaginei chegar aos meus 25 anos mais cansado do que inquieto. Acreditei, intensamente, que, pelo medo de ver boa parte da trilha corrida, tomaria cada vez mais controle e consciência de meu bem viver. A inversão de perspectiva é assustadora.

Começar a se perceber um pouco experiente tem sido – em grande parte, em essência – observar uma série de lembranças e vontades embotando. Essa semana não passa em branco quando, ao final de suas 167 horas, às 11h00min de domingo, esgotado, suspendi a correria monótona destes dias para subir 18 andares de um prédio na Avenida Paulista. Perdi-me entre latas e copos vazios, suados de gelo, exalando cheiros agridoces, cinzeiros fartamente preenchidos de cinzas e pontas, e bons homens reunidos em volta de uma figura marcante em especial.

Não conseguiria repisar, nem mesmo contar em linhas gerais, os últimos dias que me levaram até aqui. Tranqüiliza-me somente o norte e o porto seguro que é acordar deste sono sem sonhos para deixar a você um enorme abraço e a felicidade geral de sempre por mais este aniversário. Grandes amigos são os faróis e portos que nos balizam nestes períodos de andanças sem buscas. Imprescindíveis contra a morte pelo tédio ou o emburrecimento pelo entretenimento dos compromissos do cotidiano.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras

Sugiro ler o texto com a música. A depender da sua perspectiva, ou bem você vai ter vontade de cortar os pulsos ou de gozar da miséria e do ridículo da personagem. De todo modo acho que funciona melhor assim.

Mariana se mexeu na cama, muito de leve, somente para lançar um longo suspiro e mergulhar de volta em seu sono profundo. Que alívio. Venderia a alma para não ter de conversar com ninguém esta noite. Ainda mais com ela. Seus pensamentos eram neuróticos. A repetição, aliada ao cansaço, retirava-lhes quase todo o sentido durante boa parte do tempo. Ter consciência disso, sem nenhuma possibilidade de controle, deixava-o, de quando em quando, furioso.

– Semana que vem ela vai se casar. Porra, e ainda tem que ser a primeira a se casar. Se pelo menos pudéssemos conversar… Depois de 12 anos sem quase nos vermos… se estivesse solteira, seria um pedido estranho. Como explicar, então, que preciso de sua ajuda agora que decidiu se casar? É loucura. Evidentemente.

– Sei que não é a mesma coisa. Basta nos encontrarmos. Não sinto do mesmo jeito. Mudamos. Ela continua linda, mas consigo admirá-la com frieza, sem comoção. Sequer sinto a mesma afinidade, o consenso de compreensão mútua. Não sinto sua falta no dia-a-dia, como foi por algum tempo. É só o que fica em minha cabeça que me tortura, e vive e se alimenta sozinho. É estático, como uma rocha. Difícil de digerir, de expurgar, relativizar. O sentimento, antes, foi grande demais. Dois que se respeitavam e se queriam bem há tanto tempo. Havia tanta esperança e sinceridade que não podia conceber qualquer tipo de perda. E o medo de começar algo novo e intenso, de que algo saísse errado e eu a perdesse, simplesmente me paralisou. Sabia o que me levava a frustrá-la, magoá-la. Olhava em seus olhos e, sem falar, implorava em pensamento que me compreendesse e me perdoasse pela pusilanimidade. Somente ela poderia, adivinhando e superando minha fraqueza, salvar a mim e a nós dois. Cada novo silêncio pesava como todo o mundo e os séculos sobre o meu peito, e me condenava à incomunicabilidade. Queria tanto explicar… Queria explodir e gritar. Era tudo tão simples, tão cristalino. Se ao menos não tivesse calado da primeira vez… Naquele momento toda aquela carga, que no fundo era vazia, não era absolutamente nada, tornou-se intransponível. Eu, injustificável. Distante, desatencioso, fechado, morno. Perdi a companhia próxima da amiga, que em verdade já não existia há muito tempo nessa forma simples, pelo tanto que nos queríamos, e a garota a quem amava.

– Só gostaria de poder sentir que tudo acabou. Queria lhe dizer. Nos afastamos entre reticências e silêncios incômodos. Dúvidas. O suficiente para que alimentasse esperança. E para que a esperança se transformasse em obsessão. Queria lhe explicar tudo isso, embora não haja quase nada para dizer. Que nunca tive dúvidas de que a queria. Que o resto era expressão de medo. E lhe pedir um beijo. Um apenas. Sem promessa de recomeço. Sem intenção de reconquista. Apenas para que eu possa sentir em minha pele, realmente, que não é a mesma coisa. Para que eu possa destruir esse fantasma.

– Casando fica tudo muito difícil, praticamente impossível. Ela vai montar família. Inevitavelmente sua vida será muito bonita. Ele é um bom homem. Que diabo! Não há nem ao menos um defeito grave que possa enxergar para me consolar. Tenho somente minha frustração e a visão cada vez mais palpável de uma felicidade que se concretiza à distância, que um dia sonhei compartilhar, e que nunca será minha. Bom, casais se separam. Homens vivem menos do que mulheres. Acho que mais à frente é possível nos encontrarmos. Cacete, isso é loucura. O casamento devia colocar um ponto final nessas idéias idiotas. É uma maldita armadilha. É isso, eu nunca vou poder expulsá-la. E ela jamais vai envelhecer aqui dentro. Permaneço ansioso por qualquer migalha. Qualquer chance de me libertar, de me desencantar.

A vida nunca lhe pareceu tão amarga. Desejou que ela morresse. Não por maldade, nem inveja. Queria apenas paz. Enquanto isso Mariana continuava a dormir a seu lado na cama. Mariana que lhe fazia tão bem. Mariana que gostaria tanto ser capaz de amar, sem dúvida.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.