Sentir-se só é saber que o coração enxerga muito mais do que os olhos.

Pipa nunca soubera disso. Durante anos voara leve e matreira por céus invariavelmente furta-cores. Com o peito carregado de segurança, rasgava os horizontes sem medo de nuvens cambiantes que anunciavam torós. Afinal, esperar por tempo bom era coisa de turista ou sertanejo.

Mesmo quando o ar rareava, parar de pairar era algo impensável. O temor de Pipa nunca fora, pela inocência de uma criança, perder a linha e beijar o chão ou, após uma interminável queda livre, ver-se emaranhada em fios de alta tensão ou enroscada na copa de uma árvore. Medo mesmo era de um dia rasgar os horizontes sem ter a seu lado a segurança da robustez do papel e a sensibilidade inquebrantável das varetas de Pipo.

Num fim de tarde aparentemente sereno, a brisa que acariciava o rosto de Pipa verteu-se em lágrimas. Por obra da fatalidade, um bem-te-vi cego varou o peito de Pipo, que, parafuseando, fez o caminho inverso de quem morre, descendo do céu à terra.

Agora sozinha, sem ter um par em seu campo de visão para sempre, ao som de Two Kites, de Tom Jobim, Pipa bem-te-via o amor não mais pela janela da alma, mas pela porta do peito.

 

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses

 

Expedito espiava pelo vão da fechadura. O que havia do lado de lá? Tudo o que desejava, mas jamais poderia ter: a vida. Em resumo, por culpa sua (ou não) havia se enclausurado na inércia. Tinha perdido a chave e ali viveria por quanto tempo fosse necessário.

O pior de tudo é que o cômodo que habitava era desprovido de janelas. Ou seja, o único contato que tinha com o outro lado se dava pelo buraquinho da chave ou pela réstia que lhe visitava por sob a porta. Estava trancado no quarto desde os 8 anos de idade.

Agora, com 94, resolvera derrubar aquele pedaço de madeira retangular com os ombros para dar uma voltinha. E o resultado positivo havia lhe revelado que o vigor físico continuava o mesmo. Afoito, desceu as escadas do predinho de três andares correndo. Depois de vencer uma porta de aço maciça no hall de entrada, deparou com uma estradinha aparentemente sem fim, banhada por um pôr-do-sol de enferrujar retina.

Hipocondríaco que só, decidiu logo de cara procurar um médico. Como a última vez que havia saído Expedito ainda era uma criança, na dúvida recorreu a seu antigo pediatra. O diagnóstico era surpreendente:

– Nem a ciência explica, garoto, quer dizer, meu senhor. Você não só continua forte, mas como mantém a mesma beleza de outrora.

– E o que o senhor me recomenda, doutor? Preciso trabalhar, me exercitar, você me conhece bem…

– Veja, Dito, você já está com uma idade avançada. E como não tem formação escolar, eu lhe indicaria um cargo que não exigisse muito das pernas. Ouvi dizer que o supermercado daqui do bairro está contratando idosos…

Expedito não precisou nem se candidatar. Apresentou-se e levou a vaga.

– Quando começo?

– Daqui dois minutos., respondeu-lhe a gerente loira-aguada, salivando e contendo-se para não agarrar o mais novo empregado.

Expedito não era tolo. Em 30 segundos de papo sacara a ninfomania de sua patroa, mas também não poderia conter o apetite da clientela do mercado. Meses acumulados na função e centenas de mulheres (de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, atrevidas, acanhadas, vividas, casadas, carentes, solteiras, felizes, donzelas, meretrizes, cabeças, desequilibradas, confusas, de guerra de paz) passando-lhe cantadas baratas, Expedito experimentou pela primeira vez na vida a fúria de uma mulher enciumada, justo sua patroa…

– Dito, seu subalterno de quinta. Das três, uma: ou você deixa de seduzir essas sirigaitas, ou me degusta, ou está no olho da rua.

– Mas, dona, eu mal olho no rosto delas… Apenas cumpro com minhas obrigações, não tenho a menor responsabilidade sobre o que tem ocorrido aqui. Como podemos resolver essa celeuma?

– Só queria olhar no fundo do seu olho, apenas isso…

Imbróglio resolvido. Expedito levou a gerente para seu antigo quartinho. Não deu nenhuma recomendação. Diante da falta de janelas, a reação dela seria óbvia. Não tardou. Em poucos minutos, a patroa estava com os olhos grudados na fechadura. Do outro lado, o olho de Expedito encerrava o tempo e o espaço. E a cada porta que se fechava, duas janelas se abriam.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e teve a pachorra de ligar para Martinho da Vila para lhe parabenizar, hoje, por seus 72 anos

 

 

Cada recuo de maré é um refugo do mar em ir adiante.

A vida de Aguiar seguia e desseguia assim. Todas suas relações, não só humanas, eram um bololô de valentia e covardia. Pareciam as ondas que agigantavam-se para depois desintegrarem-se em espumas.

Os ponteiros de seu relógio nunca saiam dos eixos. Era um lacaio da rotina, um servo da obediência pessoal. Acordava às 5h30 da manhã e caminhava até o banheiro. Lá, o ritual mesmava dia sim, dia sim. Um bocado de espuma de barbear no pincel espalhando-se por toda a cabeça e pelo rosto. Despelava-se inteiro, preservando apenas o vasto bigode, mais preto que piche.

Era um peso-pesado da retórica. Da mesma maneira que imaginava o que seria de um massagista sem tato, um fotógrafo sem visão, um chef de cozinha sem paladar, um cão farejador sem olfato e uma mulher sem sexto sentido, descabelava-se com a possibilidade de um dia perder a voz. O único ofício que sabia operar com destreza era o de provocar os outros, mas com uma peculiaridade indesejável: arregão como um bumerangue, esgrimava pessoas com palavras para testar seus limites. Quando elas retrucavam trovejando, Aguiar batia em retirada. Feito criança com cachorro bravo, atiçava e corria.

No trabalho, cutucava o chefe elogiando a concorrência de forma ostensiva. Quando o patrão ameaçava cortar seu salário e até mesmo a demiti-lo, o subalterno comportava-se como tal, faltando apenas desejar saúde ao superior caso ele pensasse em espirrar.

No botequim com os amigos que lhe aturavam, fanáticos por Noel Rosa, insultava a todos com ofensas banais contra a Unidos de Vila Isabel. Parecia disposto a sustentar sua opinião até as últimas consequências. Mas, não. Recuava quando os colegas começavam a pagar a conta contribuindo com valores abaixo da honestidade, ameaçando deixar Aguiar arcar com mais da metade da fatura astronômica do bar.

Em casa, impedia sua mulher de ver a novela só para ver a TV Senado, largava meias e cuecas por todos os cômodos e urinava pra fora da latrina. Só amansava quado a esposa coçava o dedo para convocar o sogro de Aguiar a aparecer com sua terrível carabina de sal grosso.

Até o dia em que acordou sem seu canhão de guerra, a voz. Achou que era apenas uma rouquidão avançada e resultado de uma noitada regada a cigarro e cervejas congelantes. Após vários dias recluso em casa, constatou que estava mudo. Para sempre. Saiu de casa direto para o médico. Com anotações em um papel, descreveu ao doutor o lodaçal em que se metera. Passaram-se dias de exames e análises, mas os médicos não diagnosticaram a razão para a mudez de Aguiar, e muito menos encontraram uma cura para seu silêncio involuntário.

Preso em seu quarto, evitava sair para que ninguém descobrisse seu mais novo mal. Agora não era mais só ele, suas palavras também transformaram-se em covardes. Sabia que quando desse as caras ao convívio social novamente, seria mais humilhado que time pequeno.

Pra não correr o risco de ser achincalhado em praça pública, foi à desforra por antecipação. Saiu ao encontro de todos que um dia ousaram lhe levantar a voz. Com uma navalha no bolso do jaquetão, Aguiar queria pares idênticos e calados. Com Palpite Infeliz, de Noel Rosa e Vadico, pulsando no iPod, arrancava a língua dos desafetos e as guardava em pequenos frascos com gelo. Em casa, postava-se diante do espelho e brincava de mímica com as línguas como se fosse uma matraca.

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses, e passa o aniversário sozinho no dia 3 de fevereiro, em silêncio

 

Lindolfo era guri matreiro de fazer coçar os olhos de tanta inveja. Desde que a vitória havia lhe avisado que sairia de férias de sua vida, ele sentou-se na copa de uma árvore à espera dos fracassos que lhe chegariam aos borbotões, sem cerimônia.

Não era altivez. Tudo não passava de um misto de sagacidade e covardia juvenil. Morava nos galhos altos como mera defesa das derrotas que serpenteavam no duro chão do cotidiano. Vivia lá em cima com hábitos simples, apenas com o essencial para notar e ser notado, com a meta de nunca importunar os passos em caminhos alheios.

Havia constituído, praticamente, um ninho. A árvore lhe dava tudo, menos companhia e a grande diversão de sua vida: partidas de futebol transmitidas pela televisão. Sendo assim, Lindolfo descia, vez ou outra, para ver uns joguinhos e quiçá encontrar alguém.

De perder as contas eram as vezes que encantava-se por moças e, posteriormente, abria o jogo com toda a sinceridade de um bebê. Detestava tautologia. Se rodava, era para sair do lugar, não para perder-se em círculos davincianos. Assim, dava a palavra:

– Olha, você rouba-me o ar, mas quem tira-me a gravidade mesmo é o futebol. Em dia de jogo, ou você me acompanha, ou bate perna por aí, ou segue sua estrada.

Assim viraram-se centenas de páginas de calendário com “xizinhos” em tinta vermelha. Se pudesse, por um dia, viver o amor e a alegria, Lindolfo jurava que os daria a elas. Falava de amor com os dois pés atrás, até o dia em que Lindalva passou tão bonita naquela rua banhada de sol. Como cão de desenho animado que flutua na horizontal seguindo o cheiro de frango assado, Lindolfo viu sua alma desprender-se da matéria e seguir aflita, esquecendo até do futebol.

 

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

 

Perguntar nunca foi a luz dos curiosos. Pelo contrário, sempre será o cartão de visitas dos inseguros, daqueles desprovidos de cais para ancorar seus barcos. Ademais, interrogações não são meros deméritos. Afirmações e negações, sim, não passam de um recurso vergonhoso que apenas serve para içar os homens das incertezas e da volúpia do mar.

Paladino da dúvida, Alcindo regia sua vida ao sabor das indagações. Em todos os diálogos que travara com alguém nunca havia completado uma sentença sem que ela terminasse com um ponto de interrogação. Desde pequeno, era assim que conseguia tudo o que queria. Na fila do brinquedo mais divertido do parque de diversões, ficava na ponta dos pés para ludibriar o fiscal e mostrar que tinha altura suficiente para embarcar. Ao que o funcionário do parque questionava:

– Quanto você mede, garoto?

– É verdade que esse é o brinquedo mais emocionante do parque, moço?

– Não me faça perder a paciência, moleque. Saia logo da fila e deixe quem tem a altura mínima permitida brincar.

– O senhor tem filhos? Se eles te implorassem para se divertir aqui, mesmo que não tivessem tamanho ou idade para isso, você os deixaria de fora?

Não tinha como responder “não”. As perguntas de Alcindo sempre desmontavam seus interlocutores. Não havia catraca de fila de brinquedo que o detivesse na vida.

Na escola, professores também se descabelavam com a eloquência às avessas do menino. Choviam zeros e intransigências. Como alguém tinha a audácia de responder os questionários das provas com outros questionamentos? Diante de perguntas como “qual o resultado de 2 + 2?”, Alcindo escrevia: “O que fica melhor, escrever 4 por extenso ou em forma de numeral”? Mesmo com o garoto acertando o gabarito, os mestres julgavam errado um aluno responder perguntando.

Sendo assim, Alcindo colecionou expulsões de colégios, foras do mulherio, celeumas com valentões e demissões sumárias. Isso, na visão dos outros. Para ele, a vida seguia saborosa justamente na ausência de exclamações e pontos finais. Nada lhe dava mais prazer do que desmontar covenções.

Assim sucedeu-se com Rosalina, a futura mulher de sua vida. Bastou apenas um encontro para que a palavra “amálgama”, cujo significado era o ajuntamento de corpos diferentes ou heterogêneos, fosse adaptada para o sentido primordial da vida: o amor.

– Alcindo, quem é seu maior ídolo?

– Pode ser o Sócrates?

– Ai, que fofo… Jura que você também é corintiano? Aqueles toques de calcanhar do Doutor desmontam qualquer esquema adversário, né?

– Já ouviu falar naquele filósofo que disseminou a maiêutica num país famoso onde se quebram pratos após as refeições?

Os olhos de Rosalina brilhavam mais do que figurino de dragqueen. Sentados na areia fresca daquele fim de tarde comum, os dois mergulharam em uma prosa sem fim de pergunta-e-pergunta. Com o violão a tiracolo, Alcindo ouviu mais uma interrogação da garota.

– Você já amou alguém?

A resposta veio pelo violão. Depois de se declarar com O Astronauta, de Vinicius e Baden, Alcindo aguardava o pedido, era inevitável.

– Sei que hoje é a primeira vez que nos vemos, não se assuste. Mas, sabe que eu casaria com você, Alcindo?

– Será que por acaso a flor sabe que é flor? E a estrela Vênus sabe ao menos por que brilha mais bonita, amor? Ouro ou diamante no dedo? Lua-de-mel em Muriqui ou Havaí? Menino ou menina?

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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Todas as noites  de domingo chovia algo do alto do prédio da esquina da Birimbó com a Rua dos Trítonos. De tão antigo, o acontecimento havia sido confirmado em livros de recordes como a única regra do mundo a não ter exceção. O que variava era apenas a natureza dos objetos que despencavam da janela do apartamento 52.

Os impropérios cachoeirados lá de cima chegavam lá embaixo como uma espécie de recado: em todo lugar do mundo existem Estraga-Prazeres aos borbotões. Naquele corner, um dos mais tradicionais da cidade, o pivô do imbróglio atendia pelo nome de Roda de Samba. Justo o gênero que conferia pedigree à música brasileira no estrangeiro, e que ostentava a fama de ser tão radiante e agregador, era o responsável por uma rusga tão longeva quanto a de ingleses e franceses na Guerra dos 100 Anos.

Parecia piada pronta. Os sambistas linha-de-frente da algazarra carregavam pseudônimos artísticos de Rastilho e Estopim. Lembrava nome de dupla de palhaço de circo. Donos da farra musical dominical, enfrentavam a fúria da moradora do 52, Arlete, mais conhecida como Madame Espoleta.

Desde que se mudara para aquele edifício, a dona-de-casa aposentada, que acumulava ranço e amargura no peito como quem junta pontos em programas de milhas de companhias aéreas, havia encampado uma cruzada contra a alegria emanente do cancioneiro popular nacional.

E o tom violento dos ataques aumentava gradualmente. No início, Arlete apenas berrava por silêncio. Detalhe: a dondoca iniciava o coro estridente pouco depois do almoço, horário permitido para manifestações e decibéis elevados. Com o passar do tempo, aos gritos uniram-se baldes de água fria. Diante das trombas, representantes do pagode tentaram acertar as contas pelo interfone, e logo perceberam que todo diálogo de uma só voz vira monólogo. Só a velha falava.

Já que não havia conversa, pensaram em soluções práticas. Como Arlete às vezes substituía a água encanada dos baldes por urina, os sambistas precisavam se defender. Com doações coletivas, estava feito o rateio para instalar um toldo amplo no botequim e garantir a secura dos corpos.

Meses depois, o que era berro transformou-se em água; o que era água virou urina; o que era urina evoluiu para fezes; o que eram fezes verteram-se em bolas de sinuca; o que eram bolas de sinuca retangularam em lajotas de tijolos; o que eram lajotas de tijolos encorparam-se em bigornas; e o que eram bigornas afinaram-se e afiaram-se em espetos de churrascaria.

Imagine, você leitor, estar sambando no meio da rua e ter de desviar de espetos de churrascaria e bigornas despencando do céu? Desse jeito, não havia festa que prosseguisse. Incontidos, os sambistas ergueram uma cobertura de metal e concreto no lugar do antigo toldo. Adiantou por um tempo, e ainda assim, nunca de forma completa. Alguns dos espetos e bolas de sinuca quicavam no novo telhado e respingavam em crianças, senhores e gestantes na calçada.

Cansados de tamanhas intransigência e intolerância, partiram para uma medida drástica. Duas frentes populares se dividiram. Uma atacou pela porta da sala do 52. Dois crioulos-armário detiveram Arlete e contiveram-na em uma camisa de força. A outra, escalou o prédio em banquetas de pintores e rebocou de concreto a janela pela qual Madame Espoleta proferia seus ataques.

Tudo acabado, todos desceram para, literalmente, cantar a vitória. Em uníssono, choravam e bradavam a plenos pulmões o glorioso samba Pra Que Discutir Com Madame, dos mestres Haroldo Barbosa e Janet de Almeida.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e pede louvações para a maior voz feminina do samba, Teresa Cristina.