O amor pronuncia-se em raios de Sol. Cada rajada de luz é um cegar de retina que, inconscientemente, já havia brotado por dentro. Colheitas da incandescência da paixão. Era ali, quando os ponteiros marcavam duas horas e trinta e oito minutos da tarde daquele sábado que todo e qualquer sentido de Batista se desvaneceu. A cabeça espiralava perdida. O peito labirinteava desencontrado.

Em plena Praça das Camélias, local de fuga habitual de Batista diante daquela cidade massacrante, ele não esperava encontrar tamanha tormenta no lugar que o abraçava cotidianamente para lhe dar a maciez da paz. Talvez ainda não fosse o caso de sentimentos. Ele havia escutado em algum lugar que todos são banais. Era apenas questão de não poder negar o que os olhos lhe escancaravam.

Até então, de tão esparramado em relaxamento no banco da praça, dava-se a impressão de que Batista iria se desintegrar e escorrer por entre os vãos dos assentos de mogno. A brisa batia de frente e amortizava-se em sua barba. Dos fones de ouvido cantarolava-se algo bonitinho e reconfortante a valer. No pulso, o relógio ia enguiçando, revelando o enferrujar do tempo. No jornal, as notícias sempre ultra-irrelevantes eram repentinamente ignoradas.

– Tenho saudade de mim. Tenho saudade de tudo.

Batista balbuciou a frase enquanto os olhos espiavam por sobre o periódico. Pulavam o muro da timidez para mirar tamanha miragem. Sabia que dali em diante não haveria mais amanhã. Perdia os pés como se pisasse em cimento fresco. Mesmo a cerca de 10 metros de distância, bastava pousar a vista na nuca desnuda daquela miríade de beleza para Batista se desprumar. Em silêncio gritante, repetia a si: “moça, dobre as mangas do tempo, jogue o teu sentimento todo em minhas mãos”.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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Um sol com tubo de televisão…poutz que tosco!!!. Bom, pelo menos ele, o sol, brilha muito mais aqui fora. Vamos nos livrar desses tubos que funcionam como bolhas.  Que aprisiona, cega e faz a gente ter falsas esperanças, motivações e amores. Desligue sua mente e respire!

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações sem pé e nem cabeça todas as quintas-feiras no setedoses

 

Vicente não conseguia entender porque a chuva ficava mais bonita quando o Sol resplandescia. Nas tardes em que isso acontecia, descia para o páteo da empresa para saborear um cigarro, e por lá ficava horas cabulando o serviço. Enquanto isso, pilhas de formulários amontoavam-se no seu gabinete. Quando notavam sua falta no sexto andar do edifício daquele conglomerado empresarial, ligavam em seu celular para indagá-lo da ausência. As escapadas não eram frequentes, mas a resposta estava sempre na ponta da língua:

– Quando desci apenas para pitar um cigarrinho, não sabia que o tempo estava tão belo. Pudera. Esse prédio é cercado por vidros fumê, e nós, funcionários, nunca sabemos se o dia está em brasa ou em neve aqui fora. Portanto, deixem-me em paz. Produzo muito mais aqui embaixo, na companhia das gotas e dos raios, do que aí em cima, atormentado por esses ringtones cafonas.

Ele tinha razão. E também, convenhamos, não era todo ano, nem todo mês, muito menos toda semana que aquele fenômeno o brindava. Certa feita, desceu pelas escadas de incêndio só para matar mais tempo do tão entediante trabalho. Ao chegar na pracinha da empresa, quase teve a vista direita cega por raios solares e a esquerda por pingos pluviais. Não titubeou. Com pés de pluma avançou em sentido contrário os degraus, para o alto. Com pés de tanque cruzou todo seu setor apenas para apanhar as malas. Todos olharam perplexos, sem tempo para reações. Com ouvidos de vácuo passou pela portaria, pulou a catraca para vencer as amarras contratuais. A essa altura, o chefe já acionava o ramal do departamento de Recursos Humanos. Com pescoço de torcicolo, atravessou a rua contando com a proteção, bem sucedida, de seus orixás.

Vicente tinha o privilégio de morar a duas quadras de casa. Além disso, naquela tarde, tinha outra bênção, que sempre fora motivo de reclamações de sua parte. Sua casa e a firma ficavam a menos de 50 metros do acostamento de uma rodovia imaginária. Outrora, com boca de Padre Antonio Vieira, bradava sermões inflamados contra os decibéis elevados da estrada. Agora, com olhos de aniversariante mirim exultava com aquela combinação climática tão louvável quanto esporádica.

Apanhou o filho de 4 anos e a filha de 5, um em cada braço, e correu para a beira da rodovia à espera da viagem sem volta. Com pés de caroneiro escalou a escadinha lateral de um caminhão para alcançar o topo de sua caçamba aberta no teto. Lá do alto, ele e seu rebento, deitados de braços abertos em cruz sobre toneladas de pétalas, transformaram a velocidade da luz em slow motion, e, ao som de Chovendo na Roseira, seguiram viagem banhados por raios pluviais e gotas solares.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e recomenda um “play” na gravação antológica de Elis e Tom para acompanhar o humilde texto

Alessandro Ziegler acaba de completar 34 anos e sente que boas novas estão surgindo diante de seus olhos, e daqui pra frente sempre no setedoses.

Eu chamo isso de Universo debaixo dos meus pés. Tem o sol, a lua e os planetas. Debaixo, porque é o chão onde eu piso… uma dessas lajotas de quintal.

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses

O Dia Que O Sol Declarou O Seu Amor Pela Terra

Clique aqui para fazer o download em mp3.

Yuri e Sena

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses e faz uma justa lembrança a Yuri que estava na festa do Setedoses sim!

lomo_paulista

Daqui do alto vejo a mente se abrir
Para um mundo de luzes e ruídos
Mas que se transformam em ideias

Ideias laranjas no entardecer de vozes
Onde o sol se acaba no iluminar de asas
E onde as ruas acabam no verde sinal

Quero brindar esse café com você
E trazer todos os momentos para esse
Fazer da farra o nosso descanso
E retribuir com laços quentes de uma broa

Ontem você me ligou, me querendo
Com o maior sentimento de estar junto
E dormimos no cair da noite até o raiar do dia
Por isso, preparo o chá saindo dessa poesia

solpaulista


Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses.