Estou nu sobre a ponte. O vento contorna todas as curvas do meu corpo, insinuando um balé suave e espiralado. A noite, caída como um mar de escuridão, transforma meus sonhos em nuvens e meus desejos em dejetos. Estou sozinho, pois assim escolhi estar. Foi assim que encontrei os espaços do meu corpo, o limite gradual entre o que é meu e o que é do outro. Por que sempre me confundo com todos? Fujo das pessoas com a necessidade de me encontrar e as pessoas me procuram para apoiarem suas dores nos meus ombros. Nunca fui nada além do que todos desejaram. Não é culpa deles… Eu me fiz assim e agora estou nu sobre a ponte e quero pular. Cansei…

Aprisionado em grades que eu mesmo construí, luto por burlá-las, libertar-me para depois me enjaular novamente. Aprendi, a vida toda, que estar preso é a única forma de estar vivo, de não desaparecer para sempre nas águas viscosas de um rio em fluxo. Liberdade é morte. A prisão é meu destino. Despido, com os pés firmes sobre essa ponte imóvel, observo o horizonte com o silêncio marcante da solidão. A solidão, essa tragédia que consome, também desponta como a única forma de fuga, a única forma de sair, por alguns minutos que seja, da prisão de mim mesmo.

A ponte não tem grades, as grades são desenhadas pela minha mente. Ela circunda meu corpo e me deixa ver e desejar o que tem lá fora. Quando penso em sair, uma força, quase uma mão que me abraça despoticamente, impede-me. Eu quero, mas não vou. Eu quero, mas sei que é inútil e que saindo dali vou construir mais um de tantos cárceres que me sufocam. Por isso, continuo parado, nu sobre a ponte. E pelo visto, de novo, não vou pular. Ficarei aqui, exposto como uma estátua de cera, aguardando o dia amanhecer e o meu amor por você passar. Estou nu sobre a ponte e preciso pular.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Solidão é um eterno desgarrar do peito. Antunes se deu conta de sua sozinhez quando percebeu que até sua sombra havia partido. Era abandono de dar dó. Aos 26 anos, dos outros ele já havia abdicado havia tempos. Não palavreava com ouvidos alheios por mera opção pessoal. Cansado das punhaladas sociais do cotidiano decidiu, em silêncio absoluto, abraçar a clausura em si.

Quando firmou a ideia do não conviver, cometeu o simples deslize de não comunicar aos outros. Não tardou para amigos, familiares e Rosalina, a garota pela qual Antunes andava amorosamente perdido, saírem em devaneios à sua cata em hospitais, delegacias, necrotérios, cemitérios e em seu apartamento.

Em despiste bem armado, deixou todos seus pertences em casa e, apenas com a roupa do corpo, partiu para um quarto-e-sala muquifento que havia comprado há anos, escondido de todos. Uma semana depois, não podia-se dizer que Antunes estava feliz ou triste. Mas pelo menos era possível cravar que ele estava tomado por uma tranquilidade mais que contagiante: contagiosa. O que também não representava muita coisa, nem grandes riscos, já que ele não teria contato com ninguém.

O começo do período de clausura era de achados e perdidos. O confinamento naturalmente obrigava Antunes a desapegar-se de prós e contras do passado e a descobrir como tatear as cheganças do futuro. O primeiro palmear o fez entender que, por mais que quisesse, jamais conseguiria um isolamento completo. O ficar sozinho já era um dialogar contínuo consigo. Mesmo naquela casa vazia, em que até a respiração de Antunes retumbava, era como se ele estivesse o tempo inteiro diante de um espelho estilhaçado.

Até o dia em que decidiu calar os pensamentos que dirigia a si mesmo e fazer aflorar, até o dia de seu adeus derradeiro, apenas as lembranças de Rosalina que ele carregava com ardência e leveza no peito. As pintinhas deitadas na alvura daquela pele, o tímido juntar das mãos delicadas, o sorriso de derreter cordilheiras e o olhar de ensolarar madrugadas.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e pede a bênção ao mestre Argemiro Patrocínio

Noite agradável de segunda-feira, daquelas em que o vento apenas ensaia seus sopros e o calor se apresenta em seu ponto ideal. Escolho uma rua qualquer de Florianópolis. É um velho costume: gosto de andar sem rumo em lugares que não conheço. Não tinha a mínima idéia de onde estava indo, mas tive sorte e fui parar na Avenida principal da cidade, contornada simetricamente por uma orla que invade a ilha.

Fiquei vidrado no cenário e continuei andando sem rumo pelo calçadão. Foi ali que senti uma solidão maravilhosa. Não como a solidão esmagadora de São Paulo. Era uma solidão gostosa e contemplativa. Isso ocorre, percebi, em lugares onde não se tem nenhuma ligação. Eu não aguardava um telefonema, não esperava encontrar uma pessoa indesejada. Andava sem propósito por lugares desconhecidos, observava pessoas estranhas, sem saber o que ia encontrar.


Resolvi me sentar em um banco na borda da orla. Acendi um cigarro, escolhi Nina Simone como trilha sonora – sim, alguma companhia feminina era necessária. Observei um barco de pesca – iluminado opacamente pela luz da cidade – com dois homens que jogavam suas redes ao mar com serenidade invejável. Um pássaro, cuja espécie desconheço, pousa em uma pedra ao meu lado. Fica como eu, contemplando o nada. Às vezes, seus minúsculos pés ameaçam pequenos passos indecisos. Nina Simone aumenta a intensidade de seus graves, canta com tristeza envolvente e acaba aumentando minha solidão. O barco prossegue deslizando pelas águas iluminadas e outro pássaro pousa em outra pedra do lado contrário do primeiro. Os dois voam, ao mesmo tempo, no exato momento em que Nina rasga a voz no refrão.

Fiquei ali até terminar a música e o cigarro. Olhei fixamente para a orla, levantei-me e segui em direção ao hotel. Sozinho, mas absolutamente feliz por ter tomado um caminho desconhecido e, ao mesmo tempo, com um cenário que me foi tão familiar para aquela noite.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e tem uma paixão absoluta e irrestrita por Nina Simone. Assistam ao vídeo e se assombrem com a genialidade dessa mulher.

“As paredes e as ruas não guardam nada da gente. É como se nada tivesse acontecido! Está tudo em minha cabeça. É tudo memória minha. As paredes, os prédios, as ruas são indiferentes ao que a gente faz, ao que a gente pensou, sofreu e chorou. Tudo se apaga” Ferreira Gullar, em entrevista ao Globo News

O silêncio noturno postava-se absoluto. Do lado de fora, apenas a chuva fina pingava pontualmente nos vincos das telhas. Fred abriu uma fresta da janela. Alternava goles de uísque com tragadas profundas em um cigarro de maconha. Seus pensamentos variavam conforme as luzes do semáforo mudavam de cor: verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho. Fixou seus olhos ali e deixou seu pensamento vaguear sem direção, feito um novelo desenrolando-se sem fim. Uma idéia levava a outra, que levava a outra, que se perdia em outra. Tudo era confuso. Nada fazia sentido.

Diante da noite morta e silenciosa, escutava sons esparsos que lhe faziam lembrar não estar sozinho. Os grunhidos de cães abandonados, os pneus dos raros carros que passavam deslizando sobre o asfalto molhado, o apito distante do guarda noturno. Os olhos ardiam pelo incômodo da fumaça e a garganta era castigada por doses cada vez mais volumosas de álcool. Observava a rua vazia, como que procurando por algo ou alguém que em breve apareceria para salvá-lo. Diante do sono, apertava os olhos e esforçava-se para prosseguir em vigilância constante. Esperava com impaciente angústia.

Há três anos ansiava pelo encontro. Em uma noite exatamente igual àquela – em que a garoa embalava o sono dos indiferentes e incomodava a insônia dos culpados -, Fred prometera a si mesmo que três anos mais tarde se prostraria sobre a janela daquela mesma sala e esperaria. Esperaria o encontro até que ele se sucedesse, não importava o quanto demorasse. Aprendera, após correr atrás de suas vontades, que um homem em busca de objetivos termina com as mãos cheias de sonhos não concretizados. Percebera que alcançar metas é como chegar à beira de um precipício: ou recua-se, executando um passo para trás, ou se segue em frente, pisando firmemente no nada. Era preciso esperar, deixar de caminhar, para encontrar.

Os primeiros raios refletiam sobre o rosto cansado de Fred, ainda espiando pela fresta o movimento das pessoas e dos carros apressados em busca de objetivos. Riu-se de si mesmo, pensando em como era ridícula aquela situação. Enquanto as pessoas se dirigiam aos seus trabalhos, ele continuaria ali parado, inerte, à espera do encontro. De súbito, sentiu-se digno, sentiu-se superior, descolado daquela realidade porcamente emoldurada pelo parapeito de sua janela. Era um homem elevado. Observava a tudo e a todos de cima.

Já no início da tarde, a ressaca e a fome começavam a lhe incomodar. A boca seca ainda guardava o gosto amargo do uísque e o cheiro de maconha impregnara suas roupas e seu cabelo. Caminhando de costas, sem deixar de olhar para a janela, chegou até a mesa e pegou a garrafa de água e um pacote de biscoitos. Estava determinado: aguardaria até o fim. Não sairia dali para nada. Mas não precisaria esperar tanto, já que naquela mesma noite o encontro se concretizaria.

Quando a lua surgiu, imponente, Fred já havia tomado três copos de uísque e já acendia seu segundo baseado. As luzes do semáforo se duplicavam diante de sua visão turvada. Observava a rua vazia com os olhos vivos e excitados de quem se vê diante de um milagre. Sentia que o encontro estava próximo. Em transe, procurava por todos os lados. Até que encontrou.

Observou-o parado no meio-fio. Quieto, congelado, sem formas definidas. Era impossível identificá-lo. Fred agitava-se, passando as mãos desesperadamente nos cabelos e mordendo os lábios. As lágrimas brotavam-lhe dos olhos, arrepiou-se e sentiu uma paz nunca antes alcançada. Abriu mais a janela, afastou a cortina de rendas que o atrapalhava e apoiou-se no parapeito para enxergar melhor.

Chamou-o. Uma, duas, três vezes. Sem resposta. Tirou o chinelo dos pés, largou o copo de uísque no chão e mergulhou do quarto andar do prédio ao encontro do que procurava. O silêncio, entrecortado pelos grunhidos de cães, pneus de carros e apitos distantes, foi bruscamente interrompido pelo estrondo do corpo de Fred em choque contra o asfalto. As luzes se acendiam, pouco a pouco, e gritos horrorizados explodiam no ar vazio. O barulho da sirene aproximava-se. Ninguém entendia o que havia acontecido. A ambulância, eficiente, recolheu o corpo e se afastara. Lentamente, as pessoas apagavam as luzes de suas casas e voltavam para a cama. Na rua deserta, sobraram apenas os silêncios dos cães que grunhiam, dos poucos carros que passavam e dos guardas distantes que apitavam.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Inegavelmente havia beleza na imagem daquele copo sobre a mesa. Na sala escura, à meia-penumbra, apenas a mesa era iluminada pela branda luz externa de um dia nublado. Podia sentir as nuvens esparramando-se pelo vidro da janela. Agora sentado no sofá, a alguns metros de distância, Seu Edgardo contemplava a cena supracitada, com uma conclusão dura, porém óbvia: a mesa e o copo vazio eram a materialização da ausência.

Aos 63 anos aquela era a primeira vez em uma década que ele ficava absolutamente sozinho em casa. Há exatamente dez anos, depois de sua esposa, dona Maria Miquelina, ter sido levada sorrateiramente pela mão por um câncer no esôfago, Seu Edgardo decidiu que era hora de voltar a morar com o pai, Seu Rufino, num miúdo casebre, de bom tamanho para os dois.

E aquela foi mesmo uma década de hábitos simples e pequenos gestos. Pai e filho praticamente não saíam de casa, apenas para comprar pouca comida e muita bebida. Passavam manhãs, tardes e noites jogando dominó, cartas e entoando antigas canções: Seu Edgardo na voz gasta, Seu Rufino no violão surrado. Quando jogavam os passatempos, não se falavam. Dialogavam apenas por meio das músicas. Conversar mesmo, quase nunca. Não precisavam. Quando queriam se comunicar, gestos bastavam. Quando, por exemplo, um passarinho cantava bonito no quintal, o pai cutucava o filho, depois fazia uma concha com a mão direita na própria orelha e colocava a esquerda no peito, como quem diz: “escuta só que beleza, meu filho, escuta”.

A relação com Seu Rufino ensinara ao filho Edgardo que ele sabia – e adorava – conviver com o silêncio a dois. Já era assim, nos tempos de outrora, com sua saudosa esposa Miquelina. O que não suportava era o torpor da mudez solitária.

Por isso olhava fixamente para aquela mesa havia mais de uma semana. Era este o tempo que Seu Rufino, aos 86 anos, fora escolhido para não mais voltar. Sem despedida, sem palavra, sem alarde. Resignado, na companhia apenas do vazio do copo vazio, Seu Edgardo descobriu que a solidão guarda sua beleza apenas para quem abre a janela para vê-la e não pra quem fecha as cortinas.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e homenageia Seu Rufino, Seu Edgardo e Dona Maria Miquelina com o samba-canção “Naquela Mesa”, declaração saudosa de Sérgio Bittencourt a seu pai Jacob do Bandolim, gravada agora no belíssimo disco de Otto, “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”. E enaltece o cantor pernambucano por ter feito um registro bonito como os antológicos de Nelson Gonçalves e Elizeth Cardoso.

– O problema do morango é que ele é uma fruta de festa. Mesmo sendo a mais bonita, delicada e gostosa, ela vai ser para ocasiões especiais. A pêra é pêra, você querer transformar em morango é bobagem. Aceita que é pêra e que você não gosta de pêra. E aceita que morango é bom porque é às vezes, se não ia ficar besta.
– A questão é que o morango intimida as pessoas, só por ser morango, não que ele queira isso. Porque, segundo você, morango “é pra dia de festa”.
Você quer morango só de vez em quando, não porque ele te intimida, mas porque o gosto dele é tão opressor que enjoaria se fosse todo dia. Se tivesse um gostinho mais ameno, mais sem personalidade, tipo a pêra, dava pra comer todo dia.
Opressor?
– Na verdade o que acontece é que todo mundo casa com pêra e pula cerca com morango.
Mas me explica por que você acha o morango opressor?
– Pense assim, você está cansado, está num dia intimista, daí o morango está lá pela sala, cheio de encantos, divertido, engraçado, sensual, ácido, cheio de presença. Porra, morango, sai dessa, quero ficar quietinho. Mas não dá, morango mesmo na dele é todo cheio de encantos, divertido, engraçado, sensual… Ele ocupa o espaço inteiro! É assim, pega uma cesta de frutas e bota na frente das pessoas, tudo cortadinho, morango também, o morango vai fazer as outras frutas sumirem, ele vai virar a cesta inteira, daí você não quer ficar perto desse morango, porque ele vai exigir de você uma eterna contrapartida. Você não vai poder baixar as armas, ficar quieto, deitar um pouco no seu canto e ver Troca de Esposas. Porque na frente do morango você vai ter que assistir Woody Allen! Ele é exigente por ser fantástico demais.
E no fim o morango é solitário.
– Não mais do que qualquer outra fruta, mas é que como ele já é todo enfático a própria solidão do morango é grandiloqüente. Você coloca todas as frutas tristinhas na cesta, o morango vira a cesta inteira também! A tristeza do morango! Bacana é a tristeza do kiwi, isso sim é solidão. Ele é só ácido e arde afta.
Não. Porque segundo a sua teoria as outras frutas se juntam. Porque são iguais e não exigem esforços. Já o kiwi é um caso a parte.
Não, elas não são iguais!  Elas só perdem espaço pro morango, que é todo recital de balé. O morango é tipo a praça Roosevelt, muito barulhento, cheio de performance, mesmo quando está quieto e cheio de feirinhas, as outras frutas parecem iguais quando o morango chega todo cheio de exagero.
O morango não é espalhafatoso, pelo contrário, é delicado.
– Pode ser delicado à vontade, chama atenção como se estivesse berrando.
Então não tem jeito pro morango?
– Claro que não. Ele tem essa tristeza de ser a mais desejada das frutas, sempre desejada muito e por cinco segundos.
Acho que o problema do morango são esses cinco segundos.
– Daí a gente afasta a coberta da pêra, e “ei benzinho, você ainda está acordada?”, a pêra está lá, branca, humilde, com gostinho de varanda, de infância “mãe, não quero – come, pêra faz bem”, pois sabe qual o real problema do morango? Porque o morango dá medo, ele anatomicamente tem olhos para todos os lados. Mesmo que ele prestasse mais atenção em você, você nunca se sentiria seguro com um morango.
Logo… a solução do morango é ficar sozinho.
A solução do morango é virar sorvete. Sorvete de morango não é tão mais gostoso do que os outros sorvetes de fruta. Sorvete de fruta tem sempre gosto de sorvete de fruta, tudo igual, menos a uva.
Conta sobre o kiwi agora.
– O kiwi fez a própria reputação, essa é a porcaria, porque se você for ver, o kiwi é uma das frutas mais gostosas, e inclusive das mais docinhas, se você pegar na temporada certa. O kiwi e o caju, são do mesmo tipo de gente. Ops, fruta. Tem uma chance em dez de você comer um e estar docinho e maravilhoso, a maior parte das vezes está ácido e amargurado.
Ai ele se isola e desaparece.
– Lógico que sim! Ele sofre também sabendo que de 10 vezes em que ele aparece, em 9 está azedo e as pessoas não gostam. Acha o que? O kiwi gosta de ser azedo? É uma merda pro kiwi ver lá a criança vindo comer, toda alegre, na esperança de estar docinho, e depois ver o rosto dela transfigurar num nojinho histérico.
Então o problema do kiwi e do morango é o mesmo. Um sofre porque é muito doce e o outro porque é muito amargo.
Bem, acho que o morango está pior, porque o gosto do morango é sempre o mesmo: maravilhoso, lindo, mas o mesmo. O kiwi depende. O morango não tem que ver a careta de desgosto, ele só tem que ver a cara de culpa.
O kiwi sabe que é diferente.
– O kiwi está sempre fechado em si mesmo.
E sabe que todo mundo quer experimentar pra ver se aquele é azedo ou não.
– Sabe sim… mas por mais que isso soasse bem, é uma droga, porque tem que ver muito mais cara de “não gostei” que de “gostei”.
Mas também não dá pra agradar todo mundo sempre. Ainda mais sendo um kiwi e mesmo sendo um morango.
– Mentira! Essa é a desgraça opressiva do morango: ele é sempre uma delicia. Você vê ele ali sentado do seu lado e você sabe que ele vai arrebentar você no meio, mas que isso vai ser tão tão gostoso.
O que adianta ser uma delícia se mais cedo ou mais tarde vão cansar de você e voltar pra pêra, que é mais segura?
– Bem… os kiwis raramente se casam, eles acabam separando. É só você ver que raramente tem mais de um kiwi numa só fruteira, e não tem nada que combine tão mal com pêra do que kiwi.
Mas que fruta então combina com kiwi?
– Esse é o problema. O kiwi não combina com nenhuma fruta, ele acaba tendo que viver com outros kiwis e se separar quatrocentas vezes.
O lado bom é que o morango também vive sozinho, e eventualmente, pode contar com o kiwi, porque poucas pessoas entendem a solidão do morango como o kiwi.

Ai dona, assim você me quebra.

Ana Luiza Ponciano escreve aos sábados no Sete Doses e agradece a participação especial do kiwi

“I am human and I need to be loved

Just like everybody else does”

Morrissey


“A imaginação é o único campo em que um homem é realmente livre”

Domingos de Oliveira


“Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?

A igual probabilidade dos eventos impossíveis?

A eterna troca de tudo em tudo?

A única realidade absoluta?

Seres se traduzem.

Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.

Tudo irremediavelmente metamorfose!”

Paulo Leminski


Acordou com frio. Naquela época do ano, São Paulo era brutalmente gelada e descolorida, com contornos ainda mais acentuados do cinza tosco de seu desenvolvimento eficiente. A cama tornava-se, assim, o último refúgio agradável de mais uma manhã inevitável de segunda-feira. Desligou o despertador quatro vezes antes de tomar coragem e se desembrulhar do cobertor. Sentou-se na ponta da cama e observou, com olhar fixo e prestativo, seu pé direito repousado no piso frio do quarto. Os dedos, enrugados pela baixa temperatura, pálidos e magros, encolhiam-se e relaxavam-se mecanicamente. Continuou observando aquela parte de si e, por um segundo, sentiu que o membro não fazia parte de sua constituição física e humana. Simpatizou com aquele ser estranho e patético que nunca notara, fixou-se nos detalhes e, sem explicações racionais, apaixonou-se perdidamente pelo próprio pé.

Ciente do frio que fazia, apoiou-se no seu desprezado pé esquerdo e pulou em uma perna só em direção ao boxe do banheiro. Lavou seu pé direito com tamanho cuidado que se esqueceu das outras partes: toda sua atenção estava voltada para aquela mínima parte de seu corpo. Enxugou-o com paciência, passando uma das pontas da toalha em cada espaço que sobrava entre os dedos. Depois, o cobriu por inteiro: calcanhar, peito e sola revestidos por um manto sagrado de algodão.

Ao sair do banheiro, calçou uma meia preta tradicional no pé esquerdo – que ainda estava úmido e mal lavado – e resolveu vestir uma meia de seda branca no direito com o objetivo de diferenciá-lo de seu irmão renegado. Da mesma forma, colocou um sapato velho no pé esquerdo e um mais novo no direito: era necessário demonstrar e deixar claro seus sentimentos. Levantou-se e passou a fitar obcecadamente os movimentos precisos e a graciosidade do andar leve e malandreado de seu pé direito. Na outra extremidade, era como se seu pé esquerdo não mais existisse.

No trabalho, ninguém sequer notara que andava com sapatos diferentes e meias de cores contrárias. Sentou-se no computador e não conseguia concentrar-se. Ao olhar para o teclado, sentia-se impulsionado a recuar um pouco a cadeira e visualizar seu pé direito, elegante e confiante, muito bem trajado no sapato brilhante e nas meias de seda. Olhou para os lados, percebeu que ninguém o observava. Devagar, começou a tirar o sapato. Bem devagar. Primeiro apenas mostrando o calcanhar, depois deslizando o peito do pé lentamente para fora do calçado. Era a vez da meia. Tirou-a em câmera lenta, esfregando levemente seu pé direito no carpete do chão. Suas feições se transformaram em gozo no momento em que observou os cinco dedos despidos, simetricamente alinhados e com as unhas bem cortadas, movimentando-se para cima e para baixo. O que mais queria era sair dali e aproveitar cada segundo daquela noite gelada de segunda-feira.

Às seis horas em ponto, após passar a tarde toda paquerando seu próprio pé, deixou o trabalho e resolveu jantar em um restaurante para oficializar a união. Sozinho na mesa, não tocou na comida. A paixão violenta realmente tirara sua fome. Olhava para seu pé direito com tamanha devoção que o garçom veio lhe perguntar se estava tudo certo. Qual era o motivo de estar olhando tanto para baixo da mesa? Desistiu de obter a resposta ao perceber que o pé direito do cliente estava descalço e mergulhado em um prato de ravióli. Obcecado, o homem continuou indiferente a qualquer reação diante de sua mais nova e ousada relação. A paixão era tão arrebatadora que qualquer influência externa tornara-se inatingível: absurdo era o mundo, não seus sentimentos.

Ao chegar em casa, esquentou um pouco de água e repousou seu pé direito em uma espaçosa bacia rosa. Passou o restante da noite acariciando o peito de seu pé direito enquanto assistia – ou assistiam – aos acontecimentos do telejornal. Não ligou para as notícias; logo reparou em alguns pêlos excedentes no peito de seu pé direito e resolveu tirá-los, um por um, com o auxílio de uma pinça.

Na hora de dormir, lamentava a distância entre ele e seu pé direito. Passaram o dia todo juntos e agora, deitados, não podiam se aproximar. Antes de dormir, olhou para baixo, observou o pé repousando no colchão, inalcançável às suas mãos, e sorriu sinceramente. Na manhã seguinte, tão fria e cinzenta como a anterior, pulou da cama tão logo soou o primeiro toque do despertador.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses