Cheguei em casa para lhe beijar a testa e assistir você dormindo. O fim dos dias é sempre igual, mas só o que me importa por agora é estar com você. A noite cai densa, a lua aparece como quem não quer vir e as poucas nuvens prenunciam um dia de sol amanhã. Você, banho tomado, cabelos molhados, deita-se na cama e passa um creme cheiroso e gostoso em todas as direções da pele. Suas mãos dançam pelo seu corpo, seus olhos se fecham e você abstrai o mundo em contato com você mesma.

Tudo tem formas de beleza na noite em que eu decido cozinhar para nós dois. A gastronomia francesa tem no exagero sua maior virtude, assim como nós exageramos em tudo que fazemos ou falamos. Manteiga. Muita manteiga é o que os franceses nos ensinaram. A economia de sabor é um crime que deve ser combatido, a economia de sentidos é o que faz de nós menos humanos. Por via das dúvidas, o melhor é colocar mais uma colher de manteiga.

Na hora de comer, você, de camiseta amarela, de calcinha branca, nos olhamos como dois namorados recém-conhecidos. Olhos redondos, olhos rasos, somos dois distintos buscando encaixar nossas imperfeições no mundo um do outro. Invadimos nossos espaços para agora percebermos o lugar de cada um de nós. Vivemos para estarmos aqui, juntos, separados apenas pelo corpo e unidos pela falta. Somos dois seres faltantes, sem dúvida. Mas temos um ao outro, pra sempre.

Depois do jantar, deitada sobre os lençóis brancos da cama, iluminada pela luz frágil do abajur, lê com pouca atenção alguns poemas de Mário Quintana. Você não entende a beleza da tristeza e eu acho isso sempre muito engraçado. Eu, que celebro o triste como benção, estranho a sua forma real de perceber que a morte é como uma gaiola sem pássaros. Não há nada para se olhar. O melhor é abandoná-la ao não entender que ela significa.

Quando olha para mim, pouco antes de dormirmos, seus olhos brilham e minha boca te chama. O sentimento, horizontal, explode como uma granada sem pino atirada a esmo. Não há pensamentos, não existem razões. Nossos corpos se unem para provar ao mundo que estamos e ficaremos juntos até amanhecer. Acordarei com a sua voz, enroscado em suas pernas, tranquilo por saber que seus olhos estarão abertos quando eu acordar. Até a noite voltar e repetirmos toda essa simplicidade diária que nos faz respirar.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses

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Cabernet sauvignon, a uva.

A resposta é o Chile, é claro. Ambas as bebidas são fermentadas a partir de uvas generosamente fornecidas pelo profícuo Valle Central. O pisco, aguardente de uva verde, é produzido mais em áreas ao norte, geralmente mais quentes, e promove a conexão entre o presente exportador de bebidas e o passado indígena mapuche. Já os vinhos pedem por temperaturas mais amenas, além de grande disponibilidade de água. Tanto em uma como na outra ponta da bússola, o território delineado irregularmente pela Cordilheira dos Andes produziu condições das mais adequadas para fomentar uma das agriculturas mais férteis em todo o mundo. Naturalmente, quando se deu conta disso, o país se tornou uma grande potência no esmagar dos frutos púrpuros e esverdeados.

Ainda assim, tal profissionalização levou tempo. A ascensão da burguesia chilena no século XIX permitiu que vários jovens se deslumbrassem in loco com o requinte dos vinhos franceses, especialmente da região de Bordeaux. Convertidos pela ocasião em futuros empresários do ramo, levaram ao país alguns varietais – vinhos com com pouca ou nenhuma mistura de uvas – dos grandes rótulos da região. A assessoria dos mestres do ramo possibilitou a expansão sem freios da exploração daquela terra para o cultivo das uvas. Os resultados foram crescentes até a implosão civil do país com o golpe de Augusto Pinochet, que desarticulou a indústria, voltada à época para o mercado interno.

A redemocratização do país embutiu reformas liberais que atraíram o investimento internacional, capitalizando novamente empresas do ramo. Com a conjunção de estabilidade econômica, clima favorável e alta tecnologia, o país escalou alguns degraus no contexto produtor internacional e imprimiu uma marca de “bons e baratos” aos vinhos sul-americanos. Um dos principais responsáveis pela explosão do consumo fora das fronteiras chilenas foi Don Melchor Concha y Toro, que legou aos chilenos uma metonímia do vinho que se produz naquele país.

O vale do rio Maipo, onde se situa a fazenda da família Concha y Toro, segue a fertilizar os vinhedos convertidos em atração turística das mais valiosas do Chile. A região onde se situa, na região metropolitana de Santiago, permite uma visita sem maiores dificuldades com o aluguel de um carro na capital. Um metrô seguido de um curto trajeto de táxi também o leva até lá. Por “lá”, entenda-se que existem outros vinhedos tradicionais nos “sideways” das estradas, mas a grande atração é o lugar onde se fazem os tradicionais Marques de Casa Concha e o Casillero del Diablo, posicionado frequentemente entre os 50 melhores do mundo.

O que era para ser apenas uma fazenda remodelada tornou-se uma espécie de parque temático do vinho. Um casario enorme, onde vivia perdulariamente a família, foi convertido em um salão para grandes eventos. Adegas de inspiração medieval abrigam uma profusão de tonéis de carvalho importado, que imprimem as notas amadeiradas e acentuam o sabor dos vinhos. Uma delas carrega um folclore que se tornou um dos rótulos mais conhecidos da vinícola. Preocupado com os constantes furtos dos vinhos de sua reserva, Don Melchor alimentou a lenda de que o diabo a habitava. A história diz que a história colou, com o que aquela adega ficou conhecida como o Casillero del Diablo e hoje é merecedora de um passeio temático com direito a sons guturais e pouca ou quase nenhuma luz.

Como se vê, o marketing também foi bem absorvido pelos chilenos. Da mesma maneira como a Costa Rica faz com seus cafés tipo exportação, o Chile capitaneou uma busca por grandes enólogos e empresários do ramo em todo mundo, que transmitiram grande conhecimento técnico e transformaram a coisa toda em um grande negócio. Puristas ou não, alguns críticos dizem que tamanha evolução impediu a elaboração de vinhos chilenos autóctones.

Se falta personalidade ou não aos vinhos chilenos eu não sei, mas, para quem tinha experimentado, no máximo, um tour pela esforçada produção de vinhos em São Roque (SP), o breve contato com a vinícola temática talhou a lápide do chapinha no cemitério que é meu passado.

Mas uma catuaba para a bagaceira ainda vai bem.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

Dunas lunares no Parque Nacional los Flamencos, em San Pedro de Atacama, no Chile

Quem tem bronquite, rinite, sinusite e outras inflamações dos nossos combalidos recursos respiratórios nem continue a ler este texto. É bem provável que as descrições ou a simples imagem do deserto aí de cima já te causem falta de ar. Foi o pesado fardo desses problemas que senti, em janeiro de 2006, quando visitei as atrações da chilena San Pedro de Atacama. Quem batizou o lugar deve ter pensado em fazer um apelo desesperado pelo aumento da umidade relativa do ar, mas o efeito parece ter sido justamente o oposto: São Pedro provavelmente nunca apareceu por lá. Já foram registrados períodos de até 300 anos (isso, anos) sem um perdigoto de Jesus, tudo divinamente calculado para que o lugar fosse registrado como o deserto mais árido do mundo. E faturasse alto com isso, a ponto de atrair uma das etapas do ex-rali Paris-Dakar.

Apesar de o parque nacional que o abriga se chamar Los Flamencos, não existe sequer uma galinha viva no Atacama. Tudo o que provavelmente lá já viveu irracionalmente morreu de sede, calor diurno extremo (pode chegar a 45 graus Celsius), frio noturno intenso (- 25 graus Celsius) ou soterrado pelas dunas. Além da secura, o vento também age inclementemente sobre os visitantes, com velocidades que eventualmente ultrapassam 100 km/h. Tais restrições à salubridade não impediram a formação de uma cidade com razoáveis opções gastronômicas e uma excelente base para explorações das paisagens desérticas – e, por isso mesmo, belíssimas – do norte do Chile. Como o ser humano farreia em qualquer situação, existem ainda ótimas opções noturnas. Enquanto come uma boa margherita e degusta uma cerveja Escudo em um pizza-bar sem teto, você poderá ser abordado por um maluco de plantão a te oferecer uma rave em pleno deserto com a lua cheia como único refletor.

Quando acordar e se deparar com o primeiro dia de deserto, pense em alugar uma bicicleta. É barato e te permite um passeio incrível por caminhos arenosos extremamente inóspitos, no meio de cânions formados por areias mais rígidas e rochas pré-históricas. Embora a dificuldade para cumprir trechos arenosos com uma magrela seja alta, a frequente qualidade das bicicletas ofertadas garante a segurança. Se seguir o circuito indicado pela agência, o visitante se depara com imensas esculturas talhadas na areia compactada. São rostos de mulheres esculpidos por artistas locais que permanecem como uma espécie de arte rupestre vitalícia. Quando acabar o passeio e estiver voltando para a cidade, repare no gigante que foi sua companhia durante todo o trajeto. Você provavelmente não pôde encará-lo por se concentrar demais nos sulcos de areia serpenteados por outros colegas, mas o vulcão Licancabur estava lá, adormecido, com seus quase 6 mil metros de altura. Existe a opção de escalá-lo, mas funciona apenas para os bem iniciados.

Embora o vulcão esteja calmo, nos subterrâneos do Atacama há atividade constante. O magma das rochas vulcânicas ferve a água depositada nelas, gerando a erupção de gêiseres. Em torno de 8% dos gêiseres de todo o mundo está no Deserto do Atacama, principalmente no campo de El Tatio. O nome é praticamente metonímia de gêiseres no Chile, capaz de atrair 100 mil turistas por ano, mesmo em uma área tão feia, embora tão interessante. Visitá-los é fantástico, mesmo com o cheiro de enxofre e o fato de ter de acordar às 4h30 para chegar a tempo de ver a única água subterrânea do lugar jorrar a 75 centímetros de altura, a uma temperatura de 86 graus Celsius.

San Pedro poderia trocar de lugar com São Paulo às vezes. Para o bem deles e do nosso.

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

… e uma receita delicinha  como bônus.

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Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses