Coração espanta o mosqueado quando um elefante desavisado resolve sobre ele repousar.

E assim ele sentava-se rotineiramente num banco de praça até um dia ser indagado:

– Quer dizer que anda agora a ficar por aí pensando na vida?

Ao que ele respondeu:

– Já que a vida não pensa em mim, resolvi pensar um pouco nela.

Sem exageros, ele que sempre julgara-se demasiadamente leve levantou-se em passos de manada.

Acostumado a permutar as audições de piano erudito de sua amada por uma honesta resenha no botequim com os amigos, sabia que, por mais vergonha que ela tivesse, era, no mínimo, de bom tom que ele comparecesse ao camarim ao fim do concerto com um ramalhete de rosas simbolicamente portentoso para jurar-lhe amores mais que eternos.

Ele até que tentara presenciar glórias em festejos bem sucedidos, mas os rubores acabrunhados dela o impediam. Embora soubesse que a convergência da delicadeza germânica – raramente nascida – com a entrega tipicamente suburbana resultasse em uma combinação felicitosamente fatal, diuturnamente conscientizava-se de sua pequenez. Afinal, o que eram 4 cordas da populeza de um cavaquinho diante da erudição das 88 teclas de um piano?

Até o dia em que um nó no peito e uma senhora enxaqueca o demoveram prematuramente do convívio com os pés-inchados.

Botequim demais é guarida de menos. Sempre sabendo que não há analgésico tampouco safena capaz de dirimir uma dor peitosa.

Sendo assim, lembrou-se que era dia de concerto dela e arrancou direto para o auditório. Não sem antes encomendar a vermelhidão do buquê. Orgulhoso, encarou uma sala lotada e, entre licenças e desculpas, sentou-se na antepenúltima fileira. Surpreendentemente naquela noite ela, desavisadamente, havia resolvido deixar de lado os cravos bem temperados e os noturnos para encarar as galerias, alamedas, meandros, sabiás e passarins de arromba-peitos de um tal de Tom Jobim.

Assim como na música, é em fugas e contrapontos que o amor se esvai.

Ao término da audição, ele costurou a plateia para, com o peito em transbordamentos, invadir o camarim. Lá chegando, abraçou o vazio e, já não sem tempo, constatou a partida derradeira da amada, com o seguinte recado: “O vento que toca nas folhas, contando as histórias que são de ninguém, mas que são minhas e de você também”.

 

Lucas Nobile, metaforicamente autobiográfico, escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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Sentir-se só é saber que o coração enxerga muito mais do que os olhos.

Pipa nunca soubera disso. Durante anos voara leve e matreira por céus invariavelmente furta-cores. Com o peito carregado de segurança, rasgava os horizontes sem medo de nuvens cambiantes que anunciavam torós. Afinal, esperar por tempo bom era coisa de turista ou sertanejo.

Mesmo quando o ar rareava, parar de pairar era algo impensável. O temor de Pipa nunca fora, pela inocência de uma criança, perder a linha e beijar o chão ou, após uma interminável queda livre, ver-se emaranhada em fios de alta tensão ou enroscada na copa de uma árvore. Medo mesmo era de um dia rasgar os horizontes sem ter a seu lado a segurança da robustez do papel e a sensibilidade inquebrantável das varetas de Pipo.

Num fim de tarde aparentemente sereno, a brisa que acariciava o rosto de Pipa verteu-se em lágrimas. Por obra da fatalidade, um bem-te-vi cego varou o peito de Pipo, que, parafuseando, fez o caminho inverso de quem morre, descendo do céu à terra.

Agora sozinha, sem ter um par em seu campo de visão para sempre, ao som de Two Kites, de Tom Jobim, Pipa bem-te-via o amor não mais pela janela da alma, mas pela porta do peito.

 

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses

 

 

Lindolfo era guri matreiro de fazer coçar os olhos de tanta inveja. Desde que a vitória havia lhe avisado que sairia de férias de sua vida, ele sentou-se na copa de uma árvore à espera dos fracassos que lhe chegariam aos borbotões, sem cerimônia.

Não era altivez. Tudo não passava de um misto de sagacidade e covardia juvenil. Morava nos galhos altos como mera defesa das derrotas que serpenteavam no duro chão do cotidiano. Vivia lá em cima com hábitos simples, apenas com o essencial para notar e ser notado, com a meta de nunca importunar os passos em caminhos alheios.

Havia constituído, praticamente, um ninho. A árvore lhe dava tudo, menos companhia e a grande diversão de sua vida: partidas de futebol transmitidas pela televisão. Sendo assim, Lindolfo descia, vez ou outra, para ver uns joguinhos e quiçá encontrar alguém.

De perder as contas eram as vezes que encantava-se por moças e, posteriormente, abria o jogo com toda a sinceridade de um bebê. Detestava tautologia. Se rodava, era para sair do lugar, não para perder-se em círculos davincianos. Assim, dava a palavra:

– Olha, você rouba-me o ar, mas quem tira-me a gravidade mesmo é o futebol. Em dia de jogo, ou você me acompanha, ou bate perna por aí, ou segue sua estrada.

Assim viraram-se centenas de páginas de calendário com “xizinhos” em tinta vermelha. Se pudesse, por um dia, viver o amor e a alegria, Lindolfo jurava que os daria a elas. Falava de amor com os dois pés atrás, até o dia em que Lindalva passou tão bonita naquela rua banhada de sol. Como cão de desenho animado que flutua na horizontal seguindo o cheiro de frango assado, Lindolfo viu sua alma desprender-se da matéria e seguir aflita, esquecendo até do futebol.

 

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

 

Vicente não conseguia entender porque a chuva ficava mais bonita quando o Sol resplandescia. Nas tardes em que isso acontecia, descia para o páteo da empresa para saborear um cigarro, e por lá ficava horas cabulando o serviço. Enquanto isso, pilhas de formulários amontoavam-se no seu gabinete. Quando notavam sua falta no sexto andar do edifício daquele conglomerado empresarial, ligavam em seu celular para indagá-lo da ausência. As escapadas não eram frequentes, mas a resposta estava sempre na ponta da língua:

– Quando desci apenas para pitar um cigarrinho, não sabia que o tempo estava tão belo. Pudera. Esse prédio é cercado por vidros fumê, e nós, funcionários, nunca sabemos se o dia está em brasa ou em neve aqui fora. Portanto, deixem-me em paz. Produzo muito mais aqui embaixo, na companhia das gotas e dos raios, do que aí em cima, atormentado por esses ringtones cafonas.

Ele tinha razão. E também, convenhamos, não era todo ano, nem todo mês, muito menos toda semana que aquele fenômeno o brindava. Certa feita, desceu pelas escadas de incêndio só para matar mais tempo do tão entediante trabalho. Ao chegar na pracinha da empresa, quase teve a vista direita cega por raios solares e a esquerda por pingos pluviais. Não titubeou. Com pés de pluma avançou em sentido contrário os degraus, para o alto. Com pés de tanque cruzou todo seu setor apenas para apanhar as malas. Todos olharam perplexos, sem tempo para reações. Com ouvidos de vácuo passou pela portaria, pulou a catraca para vencer as amarras contratuais. A essa altura, o chefe já acionava o ramal do departamento de Recursos Humanos. Com pescoço de torcicolo, atravessou a rua contando com a proteção, bem sucedida, de seus orixás.

Vicente tinha o privilégio de morar a duas quadras de casa. Além disso, naquela tarde, tinha outra bênção, que sempre fora motivo de reclamações de sua parte. Sua casa e a firma ficavam a menos de 50 metros do acostamento de uma rodovia imaginária. Outrora, com boca de Padre Antonio Vieira, bradava sermões inflamados contra os decibéis elevados da estrada. Agora, com olhos de aniversariante mirim exultava com aquela combinação climática tão louvável quanto esporádica.

Apanhou o filho de 4 anos e a filha de 5, um em cada braço, e correu para a beira da rodovia à espera da viagem sem volta. Com pés de caroneiro escalou a escadinha lateral de um caminhão para alcançar o topo de sua caçamba aberta no teto. Lá do alto, ele e seu rebento, deitados de braços abertos em cruz sobre toneladas de pétalas, transformaram a velocidade da luz em slow motion, e, ao som de Chovendo na Roseira, seguiram viagem banhados por raios pluviais e gotas solares.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e recomenda um “play” na gravação antológica de Elis e Tom para acompanhar o humilde texto

 

Vinicius de Moraes dizia que parceria é um “casamento sem sexo”. É sabido por todos que na História da Música Mundial houve uma porção de duplas de compositores cujos versos e melodia/harmonia se encaixavam feito enzimas, comprovando empiricamente a Teoria da Chave-e-Fechadura. Muitas conseguiam emplacar algumas joias esparsas em discos próprios e de outros artistas. Porém, só uma dupla foi capaz de presentear o mundo com um disco integralmente perfeito.

Em novembro de 1981, algo além do plano terreno conspirou para que Eduardo de Góis Lobo e Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim gravassem Edu&Tom – Tom&Edu, o melhor álbum de música popular já feito neste País. O que dizer de um disco que teve “Chovendo na roseira”, “Luiza” e “Moto-contínuo”?

Sem mais alongamentos e bravatas desnecessárias, vamos ao que interessa. O vídeo acima é uma bomba. Tom completamente mamado, fazendo piadas com o comedido Edu Lobo. Nas imagens, todo o clima de placidez que o disco transmite é refutado pela descontração e naturalidade desses dois gênios, que literalmente brincaram de fazer música da melhor qualidade possível.

“De todos os arquitetos de música que conheço Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é, sem dúvida, o de traço mais amplo e perfeito. Dele surgem projetos sólidos, feitos para abrigar os corações do mundo”, texto de Edu Lobo na contracapa do maior disco de música popular de todos os tempos.

“Conheci Edu ainda adolescente, magro, de grandes olhos, sobraçando o violão, expectante, atento, crescendo no corpo e na música. Era ainda uma promessa. Hoje o revejo homem feito, charmoso, sorridente, dono de cancioneiro vaso e lindo”, texto de Tom Jobim na contracapa do maior disco de música popular de todos os tempos.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e pede desculpas aos leitores pela demora.  A letra violenta do mestre Paulo Cesar Pinheiro, os “pianos de brinquedo” de Edu e Tom, e o flugelhorn de Márcio Montarroyos redimem o autor deste texto.