(…) é sempre quando um homem está tomado

de amor e tudo

mais

que continua chovendo

alagadoura

encharcante

chuva

boa para as árvores e para a

grama e para o ar…

boa para coisas que

vivem sozinhas.

 

Eu daria qualquer coisa

pela mão de uma fêmea em mim

esta noite

elas amaciam um homem e

depois o deixam

escutando a chuva.

(…)

 

eu corri

da dúvida de correr ou permanecer

plástico ou invisível ou distintamente

estático

patético

molhado e azedo como uma salsicha em conserva.

 

passei o dia irritantemente molhado

do suor para a chuva

do calor ao estupor

 

depois de viver tão fundo ontem

hoje morri um pouco.

 

Espero morrer menos amanhã.

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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Para quem não leu o post da semana passada – ou ficou com preguiça de pensar – vale a pena procurar esses três elementos, respectivamente, nos poemas ali transcritos: os tambores timbiras, a própria tempestade (esta fruto também, por óbvio, da disposição espacial dos versos), e uma cavalgada.

 No mais, hoje cabe um breve reabilitação de Oswald de Andrade, especialmente de sua poesia. Goste-se ou não, as experiências de Oswald foram efetivamente radicais, e muito diferentes do que se convencionava em seu tempo – em grande medida ainda hoje – de poesia. Esse foi o mote para que sua produção, por diferentes variantes dessa justificativa, não fosse levada a sério.

 Manuel Bandeira chegou a dizer que ele teria produzido poesia “menos por verdadeira inspiração do que para indicar novos caminhos”, que seus poemas eram “versos de um romancista em férias, de um homem muito preocupado com os problemas de sua terra e do mundo, mas, por avesso à eloqüência indignada e ao sentimentalismo, exprimindo-se ironicamente, como se estivesse a brincar”.

 Bom, se são ou não propriamente enquadráveis no rótulo de poesia, creio que sempre foi o menos importante. Gostaria de lembrar como alguns são, para mim, simplesmente excelentes. E nem todos, como mostram os dois primeiros abaixo, podem ser lidos, nem em uma leitura mais descuidada, como piadinhas.

 

 medo da senhora

 

 A escrava pegou a filhinha nascida

 Nas costas

 E se atirou no Paraíba

 Para que a criança não fosse judiada

 

 levante

 

 Contam que houve uma porção de enforcados

 E as caveiras espetadas nos postes

 Da fazenda desabitada

 Uivam de noite

 No vento do mato

 

 senhor feudal

 

 Se Pedro Segundo

 Vier aqui

 Com história

 Eu boto ele na cadeia

 

 música de manivela

 

 Sente-se diante da vitrola

 E esqueça-se das vicissitudes da vida

 

 Na dura labuta de todos os dias

 Não deve ninguém que se preze

 Descuidar dos prazeres da alma

 

 Discos a todos os preços

 

 a Europa curvou-se ante o Brasil

 

7 a 2

3 a 1

A injustiça de Cette

4 a 0

2 a 1

2 a 0

3 a 1

E meia dúzia na cabeça dos portugueses

 

 aperitivo

 

 A felicidade anda a pé

 Na praça Antônio Prado

 São 10 horas azuis

 O café vai alto como a manhã de arranha-céus

 Cigarros Tietê

 Automóveis

 A cidade sem mitos

 

 ideal bandeirante

 

 Tome este automóvel

 E vá ver o Jardim New-Garden

 Depois volte à Rua da Boa Vista

 Compre o seu lote

 Registre a escritura

 Boa firme e valiosa

 E more nesse bairro romântico

 Equivalente ao célebre

 Bois de Boulegne

 Prestações mensais

 Sem juros

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

Uma das coisas que mais me chama a atenção é o quanto eu – e não tenho dúvidas de que é o que acontece com a imensa maioria dos leitores – sou ignorante no que respeita às estruturas formais próprias da poesia. Pouco compreendo, por exemplo, de como se pode com sucesso, em termos práticos, explorar a fonética da língua e a composição rítmica dos versos, e deles entre si.

 É impossível entender a genialidade de um verso livre de Manuel Bandeira sem ter ao menos noção de quanto de conhecimento, de capacidade de manipulação técnica é necessário para que um poema não tenha métrica rígida, sem que isso signifique ausência de uma cadência fluida, efetivamente ritmada. 

 A bem da verdade, mesmo para muitos que se pretendem escritores, usar o verso livre, por exemplo, nada mais é que a simples condição de não conhecer – quando mais dominar – métrica nenhuma. Não é liberdade, é indigência.

 Um poeta que admiro muito pela capacidade criativa neste aspecto formal, mas que é muito pouco lembrado (não estou falando por óbvio da crítica de academia, mas dos leitores “comuns”) é Gonçalves Dias.

  Ele me ajudou a perceber que não é preciso quase nenhum conhecimento, além de saber ler, para apreciar algumas construções muito expressivas. Abaixo transcrevi um trecho de I Juca-Pirama e a íntegra do poema “A Tempestade”, ambos de Gonçalves Dias, além de, ao final, o poema “Meu sonho”, batidíssimo de Álvares de Azevedo.

 É muito interessante o quão cheia de significado é a forma deles, seja pelo ritmo, seja pela própria disposição espacial dos versos. Vale a pena o exercício. Que tipo de ação, de circunstância a forma de cada um deles emula? Que sentido próprio transmite?

“I-Juca-Pirama

I

No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? — ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: — de um povo remoto
Descende por certo — dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: — no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incubem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira
Entesa-se a corda da embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar, (…)”

“A Tempestade

Quem porfiar contigo… ousara
Da glória o poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?
A. HERCULANO

Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz;
E trêmulo
E puro
Se aviva,
S’esquiva
Rutila,
Seduz! 

Vem a aurora
Pressurosa,
Cor de rosa,
Que se cora
De carmim;
A seus raios
As estrelas,
Que eram belas,
Tem desmaios,
Já por fim.

O sol desponta
Lá no horizonte,
Doirando a fonte,
E o prado e o monte
E o céu e o mar;
E um manto belo
De vivas cores
Adorna as flores,
Que entre verdores
Se vê brilhar.

Um ponto aparece,
Que o dia entristece,
O céu, onde cresce,
De negro a tingir;
Oh! vede a procela
Infrene, mas bela,
No ar s’encapela
Já pronta a rugir!
Não solta a voz canora
No bosque o vate alado,
Que um canto d’inspirado
Tem sempre a cada aurora;
É mudo quanto habita
Da terra n’amplidão.
A coma então luzente
Se agita do arvoredo,
E o vate um canto a medo
Desfere lentamente,
Sentindo opresso o peito
De tanta inspiração.

Fogem do vento que ruge
As nuvens aurinevadas,
Como ovelhas assustadas
Dum fero lobo cerval;
Estilham-se como as velas
Que no alto mar apanha,
Ardendo na usada sanha,
Subitâneo vendaval.

Bem como serpentes que o frio
Em nós emaranha, — salgadas
As ondas s’estanham, pesadas
Batendo no frouxo areal.
Disseras que viras vagando
Nas furnas do céu entreabertas
Que mudas fuzilam, — incertas
Fantasmas do gênio do mal!

E no túrgido ocaso se avista
Entre a cinza que o céu apolvilha,
Um clarão momentâneo que brilha,
Sem das nuvens o seio rasgar;
Logo um raio cintila e mais outro,
Ainda outro veloz, fascinante,
Qual centelha que em rápido instante
Se converte d’incêndios em mar.

Um som longínquo cavernoso e ouco
Rouqueja, e n’amplidão do espaço morre;
Eis outro inda mais perto, inda mais rouco,
Que alpestres cimos mais veloz percorre,
Troveja, estoura, atroa; e dentro em pouco
Do Norte ao Sul, — dum ponto a outro corre:
Devorador incêndio alastra os ares,
Enquanto a noite pesa sobre os mares.

Nos últimos cimos dos montes erguidos
Já silva, já ruge do vento o pegão;
Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteiam, rebramam, doudejam nos ares,
Até que lascados baqueiam no chão.

Remexe-se a copa dos troncos altivos,
Transtorna-se, tolda, baqueia também;
E o vento, que as rochas abala no cerro,
Os troncos enlaça nas asas de ferro,
E atira-os raivoso dos montes além.

Da nuvem densa, que no espaço ondeia,
Rasga-se o negro bojo carregado,
E enquanto a luz do raio o sol roxeia,
Onde parece à terra estar colado,
Da chuva, que os sentidos nos enleia,
O forte peso em turbilhão mudado,
Das ruínas completa o grande estrago,
Parecendo mudar a terra em lago.

Inda ronca o trovão retumbante,
Inda o raio fuzila no espaço,
E o corisco num rápido instante
Brilha, fulge, rutila, e fugiu.
Mas se à terra desceu, mirra o tronco,
Cega o triste que iroso ameaça,
E o penedo, que as nuvens devassa,
Como tronco sem viço partiu.

Deixando a palhoça singela,
Humilde labor da pobreza,
Da nossa vaidosa grandeza,
Nivela os fastígios sem dó;
E os templos e as grimpas soberbas,
Palácio ou mesquita preclara,
Que a foice do tempo poupara,
Em breves momentos é pó.

Cresce a chuva, os rios crescem,
Pobres regatos s’empolam,
E nas turvam ondas rolam
Grossos troncos a boiar!
O córrego, qu’inda há pouco
No torrado leito ardia,
É já torrente bravia,
Que da praia arreda o mar.

Mas ai do desditoso,
Que viu crescer a enchente
E desce descuidoso
Ao vale, quando sente
Crescer dum lado e d’outro
O mar da aluvião!
Os troncos arrancados
Sem rumo vão boiantes;
E os tetos arrasados,
Inteiros, flutuantes,
Dão antes crua morte,
Que asilo e proteção!

Porém no ocidente
S’ergue de repente
O arco luzente,
De Deus o farol;
Sucedem-se as cores,
Qu’imitam as flores
Que sembram primores
Dum novo arrebol.

Nas águas pousa;
E a base viva
De luz esquiva,
E a curva altiva
Sublima ao céu;
Inda outro arqueia,
Mais desbotado,
Quase apagado,
Como embotado
De tênue véu.

Tal a chuva
Transparece,
Quando desce
E ainda vê-se
O sol luzir;
Como a virgem,
Que numa hora
Ri-se e cora,
Depois chora
E torna a rir.

A folha
Luzente
Do orvalho
Nitente
A gota
Retrai:
Vacila,
Palpita;
Mais grossa
Hesita,
E treme
E cai. “

“MEU SONHO

EU
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?
Do corcel te debruças no dorso…
E galopas do vale através…
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?…
Tu escutas… Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério…
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O FANTASMA
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…” 

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

Estamos caminhando para um evento midiático sem precedentes. Há uma semana estreou na TV americana a última temporada do seriado Lost. Goste você ou não, é inegável a qualidade da série e a quantidade de fãs espalhados pelo mundo.

 

Lost mudou algumas coisas no jeito como assistimos a seriados. Foi uma das primeiras a ser baixada em larga escala pela internet e fez com que voluntários de todo o mundo se empenhassem em capturar e distribuir seus episódios, traduzindo-os do dia para a noite, como mostra essa reportagem do Link, caderno bacana do Estadão.

Também é a primeira vez que uma série é exibida no Brasil com apenas uma semana de diferença dos EUA. (Já é uma coisa, mas quem manda nessas coisas ainda não se ligou que uma semana é sim MUITA diferença).

Talvez por conta de seus mistérios, ou pelos atores bonitos, ou por causa de uma série de outros fatores, Lost acabou se tornando uma das séries mais populares e comentadas do mundo, com uma legião de fãs discutindo e teorizando sobre os possíveis desfechos da aventura dos sobreviventes do vôo 815. Há até uma Wikipedia só sobre a série.

Quando, daqui a uns dois meses, for exibido o capítulo final, que promete amarrar os fatos, estaremos diante de algo que nunca vimos antes. Há alguns anos eu acreditava que a ABC abriria o sinal em streaming para todo o mundo, saciando a curiosidade dos fãs de uma forma “legal”, sem ter que apelar para o download da madrugada de terça pra quarta. Hoje em dia duvido disso. Ainda assim, será um dos eventos mais comentados da TV americana, sem dúvidas.

Agora que já passou até na TV brasileira, se você ainda não viu o episódio inicial desta sexta temporada, tem aqui um texto que escrevi pro Terra comentando o que acontece. Cuidado com os spoilers caso não queira saber de algo. Eu vou indo nessa porque o episódio da noite passada me espera.

 

 

Thiago Kaczuroski, o Kazu, escreve às quartas-feiras e acha o Ben um dos personagens mais fodas já criados para uma série de TV

Cabernet sauvignon, a uva.

A resposta é o Chile, é claro. Ambas as bebidas são fermentadas a partir de uvas generosamente fornecidas pelo profícuo Valle Central. O pisco, aguardente de uva verde, é produzido mais em áreas ao norte, geralmente mais quentes, e promove a conexão entre o presente exportador de bebidas e o passado indígena mapuche. Já os vinhos pedem por temperaturas mais amenas, além de grande disponibilidade de água. Tanto em uma como na outra ponta da bússola, o território delineado irregularmente pela Cordilheira dos Andes produziu condições das mais adequadas para fomentar uma das agriculturas mais férteis em todo o mundo. Naturalmente, quando se deu conta disso, o país se tornou uma grande potência no esmagar dos frutos púrpuros e esverdeados.

Ainda assim, tal profissionalização levou tempo. A ascensão da burguesia chilena no século XIX permitiu que vários jovens se deslumbrassem in loco com o requinte dos vinhos franceses, especialmente da região de Bordeaux. Convertidos pela ocasião em futuros empresários do ramo, levaram ao país alguns varietais – vinhos com com pouca ou nenhuma mistura de uvas – dos grandes rótulos da região. A assessoria dos mestres do ramo possibilitou a expansão sem freios da exploração daquela terra para o cultivo das uvas. Os resultados foram crescentes até a implosão civil do país com o golpe de Augusto Pinochet, que desarticulou a indústria, voltada à época para o mercado interno.

A redemocratização do país embutiu reformas liberais que atraíram o investimento internacional, capitalizando novamente empresas do ramo. Com a conjunção de estabilidade econômica, clima favorável e alta tecnologia, o país escalou alguns degraus no contexto produtor internacional e imprimiu uma marca de “bons e baratos” aos vinhos sul-americanos. Um dos principais responsáveis pela explosão do consumo fora das fronteiras chilenas foi Don Melchor Concha y Toro, que legou aos chilenos uma metonímia do vinho que se produz naquele país.

O vale do rio Maipo, onde se situa a fazenda da família Concha y Toro, segue a fertilizar os vinhedos convertidos em atração turística das mais valiosas do Chile. A região onde se situa, na região metropolitana de Santiago, permite uma visita sem maiores dificuldades com o aluguel de um carro na capital. Um metrô seguido de um curto trajeto de táxi também o leva até lá. Por “lá”, entenda-se que existem outros vinhedos tradicionais nos “sideways” das estradas, mas a grande atração é o lugar onde se fazem os tradicionais Marques de Casa Concha e o Casillero del Diablo, posicionado frequentemente entre os 50 melhores do mundo.

O que era para ser apenas uma fazenda remodelada tornou-se uma espécie de parque temático do vinho. Um casario enorme, onde vivia perdulariamente a família, foi convertido em um salão para grandes eventos. Adegas de inspiração medieval abrigam uma profusão de tonéis de carvalho importado, que imprimem as notas amadeiradas e acentuam o sabor dos vinhos. Uma delas carrega um folclore que se tornou um dos rótulos mais conhecidos da vinícola. Preocupado com os constantes furtos dos vinhos de sua reserva, Don Melchor alimentou a lenda de que o diabo a habitava. A história diz que a história colou, com o que aquela adega ficou conhecida como o Casillero del Diablo e hoje é merecedora de um passeio temático com direito a sons guturais e pouca ou quase nenhuma luz.

Como se vê, o marketing também foi bem absorvido pelos chilenos. Da mesma maneira como a Costa Rica faz com seus cafés tipo exportação, o Chile capitaneou uma busca por grandes enólogos e empresários do ramo em todo mundo, que transmitiram grande conhecimento técnico e transformaram a coisa toda em um grande negócio. Puristas ou não, alguns críticos dizem que tamanha evolução impediu a elaboração de vinhos chilenos autóctones.

Se falta personalidade ou não aos vinhos chilenos eu não sei, mas, para quem tinha experimentado, no máximo, um tour pela esforçada produção de vinhos em São Roque (SP), o breve contato com a vinícola temática talhou a lápide do chapinha no cemitério que é meu passado.

Mas uma catuaba para a bagaceira ainda vai bem.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

Fernando Pessoa (caso alguém realmente não saiba…)

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras. Mas hoje, depois de uma semana destruidora e de perceber que vai perder seu carnaval, se reserva o direito de ser irremediavelmente irresponsável, mesquinho e preguiçoso.

João passou voando pelo pátio da escola e seguiu direto para o corredor em que ficava Dona Tereza, assistente da diretora, no final do segundo andar.

 Entrou na sala e bateu imediatamente a porta. Ficou imóvel, com a cabeça baixa e o corpo voltado para a direção da mesa de Dona Tereza. Ao levantar os olhos, ela tomou um susto. O menino estava tremendo, com os olhos arregalados e a camisa e o rosto cobertos de sangue.

– Õ meu deus João, o que foi?

– O Zé tava me batendo. Me jogou no chão no ponto do ônibus, e ficou me batendo. Depois eu consegui soltar, e corri de volta pra escola. Não sei se ele ainda tá me seguindo. Deixa eu ficar aqui?

– Minha nossa, o que aconteceu… – murmurou ela – João, por que ele fez isso?

– Eu… eu só dei risada dele. O Manu ficou chamando ele, chamava Tucano!, e quando ele virava todo mundo da sala abaixava a cabeça, para proteger do nariz dele. E eu baixei a cabeça e ri. Aí o Zé falou que eu não era amigo dele, que eu ia aprender a ter vergonha na cara e não vacilar com ele.

João estava todo sujo. A camisa do colégio, além do sangue, tinha duas marcas de tênis na altura do peito do garoto. Olhando melhor, a região do olho e maçã esquerdos do seu rosto estava um pouco roxa e inchada. Tereza encaminhou João para a enfermaria do colégio, e ligou para os pais dos dois garotos, chamando-os para uma reunião no dia seguinte.

A situação era grave. João tinha ficado muito machucado. José, que tinha 16 anos, era três anos mais velho que ele. Um péssimo aluno, repetente crônico, com um histórico escolar e disciplinar vergonhoso. Mas era quase impossível expulsar um aluno da rede pública. Além disso, a agressão tinha ocorrido fora dos muros do colégio.

Tereza tinha um problema grande. Mas o melhor que podia fazer, além de repreender seus alunos, era chamar os responsáveis dos meninos para uma conversa franca, e contar com o seu apoio para encontrar uma saída educacional que pudesse contribuir para remediar e superar o incidente. Infelizmente, contar com o apoio e comprometimento efetivos das famílias, mesmo em situações pontuais e eventos graves, era sempre uma incógnita.  Não conhecia os pais de nenhum deles. Jamais compareceram às reuniões bimestrais da escola.

No dia seguinte Tereza chamou José e João em sua sala, e, após um breve e direto sermão, disse que todos ficariam aguardando os pais dos meninos para terminarem aquela conversa.

– Meu pai e minha mãe já disseram que não vão vir – disse José.

– Tem certeza? No telefone, eles me disseram que viriam.

– Fica tranqüila. Eles já disseram que não vem.

Alguns minutos depois dois homens apareceram na soleira da porta.

– Oi. Eu sou o Kledson, pai do João.

– Bom dia. Eu sou Tereza, assistente da diretoria. Fui eu que falei com a sua esposa a respeito do incidente. E o senhor, quem é? – perguntou ao rapaz ao lado.

– Eu sou vizinho da família. Vim acompanhar o Kledson para resolver esse ocorrido.

– Desculpe, mas a reunião envolve só os responsáveis pelos alunos. Eu peço que o senhor aguarde do lado de fora.

– O moleque que te bateu é esse aí? – perguntou Kledson apontando na direção do menino.

João assentiu com a cabeça. Os dois então atravessaram a sala, e Kledson agarrou José pelos cabelos.

– Agora você vai aprender a nunca mais encostar no meu filho, seu merda. Vai ficar com saudade de parecer um tucano.

Os dois homens começaram juntos a dar uma surra de socos e pontapés no garoto. Enquanto isso, Tereza, que ligava exasperada para a polícia, pôde ouvir seu nariz sendo quebrado.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.