Túnel

Túnel de acesso à estrada de manutenção da rodovia dos Imigrantes

Renato Rocha publica suas fotos às quartas-feiras no Sete Doses

Nesse post farei diferente.

Não estou nos arredores de casa, dessa maneira não irei conseguir gravar o tostão de minha humilde voz.

Reportarei algumas experiências ao redor da nossa América Nortista, por assim dizer nos próximos podcasts. Abaixo trechos de inspiração:

Toronto

Interessante local (primeiros momentos em inglês), uma correria silenciosa dos trabalhadores, tranquilidade e fertilidade na terra canadense.

Chicago

Está na corrida para sediar as Olimpíadas de 2016 e olha…. tem estrutura e beleza para isso viu. RJ que se cuide!

Nova Iorque

O sonho americano que se realiza, big telones, chicos hermanos de mexico e do mundo inteiro, um café da manhã mais gorduroso que qualquer PF do Anhangabau, uma quadra com mais telões que qualquer lugar do mundo, uma impressionante viagem posso dizer!

Resumo de um passeio que está acontecendo e que quero tentar para semana que vem (ou quando o material estiver consolidado) em um devaneio sobre essas 3 cidades que estou a passar! pois é engraçado ouvir as pessoas e saber que não estamos num filme sem legendas! E fiquem tranquilos! Brindarei aos amigos o drink ao som de Frank Sinatra! Quem quiser, pegue essa segunda feira e aproveite para tomar um blood mary talvez!

Enfim,

See u later aligators!

thank you very much indeed!

u`re welcome for every time and every moment!

Fernando Macedo, dando uma de nerd turista acidental wi-fi connected, tomando uma cerveja canadense, um vinho francês de caixa tetrapack semelhante ao facundo uns petiscos junto ao seu pai em uma cadeira do hotel Algonquin entre a 5th e 6th avenida de NYC deixa seu recado ao querido SeteDoses.com

Antigamente dizia-se que ao ler um livro, “viajava-se para outro lugar, utilizando a imaginação”. Fato. Quem nunca esteve nas trincheiras de uma guerra, nos canais de Veneza, nos tempos de Jesus em Nazaré, navegando pelo espaço em uma nave, enfim, em qualquer lugar, enquanto mergulhava nas páginas de um livro?

Hoje em dia, essas “viagens” ficaram cada vez mais palpáveis. Quem em 1998 achava o máximo embarcar em um avião do Flight Simulator e, 6 horas de vôo depois, passar sobre um canal do Panamá pixelizado e tosco, hoje deve ter ereções ao ver o Google Street View.

Em linhas gerais, funciona assim: equipes do Google viajam pelo mundo visitando e filmando pontos estratégicos. Depois, colocam esse vídeo no Google Maps, transformando-o em algo interativo. Você consegue ver 360º e “andar” pela extensão filmada. Dá para atravessar a pé a Golden Gate, ou dar um rolê na Praça Vermelha, aí, sentadão na tua casa.

Se o Google Earth já te tira horas de sono, imagine como será quando o Street View cobrir boa parte do mundo? Imagina bater um papo via webcam no portão daquela tia avó no interior da Itália? Ou ver um striptease caminhando pelo bairro da luz vermelha em Amsterdam.

Juntando imagem e som de uma forma chocante, o fotógrafo Dudu Tresca criou o excelente site www.br360.com.br, que traz imagens panorâmicas em 360º (para os lados e para cima) de diversos pontos da cidade de São Paulo.

Panorama da Ponte Estaiada by Dudu Tresca (www.br360.com.br)

A experiência criada por Dudu Tresca chega a ser emocionante. Experimente visitar a foto de um lugar onde você já esteve (certamente, em pelo menos uma das opções você já botou os pés de verdade) e dê uma “voltinha pelo ambiente”.

Isso sem contar com a qualidade técnica do site, que cria algo realmente bacana sem te fazer esperar por horas para carregar.

Um “primo pobre” é o site SP360, que traz algumas imagens em 360º de alguns pontos da cidade de São Paulo, porém sem a beleza e a grandeza do site de Dudu Tresca. Ainda assim, vale como uma consulta rápida antes de ir a um restaurante ou bar.

Se antes já era divertido conhecer novos lugares usando a imaginação, hoje em dia ficou ainda melhor. Museus, parques, ruas do mundo todo estão há uns cliques. É evidente que não substituem a experiência presencial de conhecer algo, mas imaginem quão mais divertidas seriam as aulas de geografia na escola se já existisse um brinquedinho desses…

Thiago Kaczuroski, o Kazu, escreve às quartas-feiras no Sete Doses.

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A aproximação foi lenta e cuidadosa. Melhor evitar conhecer a melhor parte enquanto é tempo. Melhor não me jogar, melhor me esconder nos cantos que podem ser desagradáveis. Não, impossível me apaixonar por alguém que não me quer. Que cobra horas e horas de burocracia. Que ignora minha presença. Impossível me apaixonar por alguém que nunca vai me dar atenção total, que sempre estará ocupada cuidando de seus arranha-céus. Impossível me entregar para alguém que não quer que dê certo.
Mas na primeira olhada a fundo, fica difícil ignorar os fatos que te fazem irresistível. O primeiro momento que me apaixonei foi naquele dia ensolarado que conheci sua maior cicatriz: lá, para todos verem, estava o memorial da suas tragédias. Você parecia não se importar em mostrar que seu coração fora esmigalhado. Estava lá, só faltava vender lápis ou camisetas escritas: eu sobrevivi ao coração quebrado. Foi lá minha primeira lágrima por você.
A segunda veio quando percorri suas tortuosas veias e você cantou uma canção para mim. Era “Stand by Me”. Jurei que lhe esperaria, jurei que faria tudo para não te deixar temer o escuro. Meu coração nunca tinha sentido nada igual. Aquela voz me deixa arrepiada cada vez mais.
Logo depois pensei em desistir, pois você me mostrou como podia ser frio e difícil. Acordar ao seu lado e querer ficar na cama, enquanto você simplesmente se mostrava cada vez mais frio, congelando. Fui quebrando o gelo aos poucos, sugeri um passeio e você me apresentou seu melhor amigo. Mal pude acreditar quem era ele. Seu maior amante. Me senti traída, me senti com inveja de tanto amor. Ele não me deu bola, muito menos você. Mas mesmo assim quis deixar registrado para guardar aquele momento.
E eu tentava e tentava, te fotografava só para poder te admirar em casa quando não percebia que você estava lá. Sorria quando via suas imperfeições e suas belezas. Já não podia mentir, aquilo era amor do mais puro.
Resolvi postergar nosso término, ver se você não queria que eu ficasse. Você me deu pequenas provas que queria. Mas não foi o suficiente. Fiz minhas malas e percebi que meu mundo já fazia parte do seu, não sabia mais o que empacotar – comprei uma mala nova para guardar nossa história e me lembrar de você para sempre. Foi tudo tão intenso que você não saberia, assim como eu, distinguir o que era seu e o que era meu.
Seis dias antes da minha partida final, sem mais treguas, você recuou. Achou que não era certo eu ir. Sorriu de uma forma irresistível, pegou meu braço e acendeu um holofote para mim. Não pude ignorar, mas já havia cansado de sua incerteza. Agora faltando três dias, tenho quase certeza que vou te deixar… Mas não posso garantir que consigo ignorar outro sorriso seu.

Baseado em fatos reais. O sorriso foi mesmo crucial para o não término daquela relação que durou mais um mês. E não é que a primavera chegou  e tirou todas as dúvidas?  Era amor mesmo.

Ana Luiza Ponciano escreve  aos sábado para o Sete Doses e estava começando a pensar que gostava mais de lugares do que de pessoas. Veja bem, estava

A Incorporação de Inveterados Viajantes postula seus sete mandamentos como uma resposta ao questionamento fundamental sobre a simbologia contida no verbo “ir”:

1) Deixar-se de estar física, virtual e espiritualmente em local determinado neste momento pela sua existência;

2) Acercar-se da impressão de que é o trajeto a percorrer que nos impele a mover a nós mesmos, aos outros, a coisas e a realizações;

3) Perceber-se como entusiasta da própria ignorância sobre o que ainda não se viu e se pretende absorver;

4) Despir-se do parco repertório de experiências e cognições a cada momento em que isso for solicitado, sob pena de regressar com a impressão de que não se foi;

5) Prover-se com os melhores tragos e refeições que os seus sentidos lhe indicarem;

6) Apontar como a melhor imagem da inveterada viagem aquela em que se reconhece a si mesmo modificado pela experiência que se deixou penetrar; e

7) Aliterar-se ao verter a volátil vivência que é ver você mesmo passar.

O último mandamento soava a Catarina como um recado que o pai pretende dar ao filho como uma desesperada tentativa de reverter o que de errado ele registrou na vida que já passou. Aos 77, ela pretendia consertar a trajetória burocrática que se dispôs antes a traçar nos romances, nas amizades e na “densa e maldita rotina de secretária daquele sindicato”. Ela queria uma desrotina.

E o fez como um manifesto, para justificar o que sempre disse, mas nunca praticou. Dessa vez, no entanto, sentia-se implacavelmente disposta a cumprir seus ditames. Legalmente estava apta também. Além disso, a previdência privada que o filho recomendou garantiria o conforto necessário. Faltava apenas buscar a mochila e as guloseimas que preparou para o trajeto. “Tudo bem, a Telma mora a cinco minutos daqui”, pensou, enquanto depositava o cartão de ponto no que sentia como a última concessão à não-liberdade que vivia. E rumou, com felicidade sincera, pelo primeiro dos três quarteirões que a separavam da carona para o aeroporto.

Catarina pensava muito. Principalmente durante o vazio que se interpunha entre às 9h e às 17h, segundas às sextas. Principalmente quando o presidente lhe pedia para registrar a ata das reuniões. Principalmente quando, no intervalo entre as elucubrações dos sindicalizados, ela encontrava aquele mágico ponto fixo e nele se entretinha por horas a fio. Adorava o delírio que aquilo lhe proporcionava. Brincava de focar o primeiro plano, depois o segundo, o primeiro novamente, um terceiro… e, finalmente, catarticamente, o “clarão elucidativo”, como confidenciou à amiga ter batizado aquela sensação. Era um estado de lucidez extrema, induzido pelo papo inócuo daquelas intermináveis reuniões. Ela via, via-se vendo e se derretia com a viagem de seus pensamentos pelas lembranças da infância e pelos anseios do futuro. Tudo isso concentrado em um ponto focal que nem existia.

“Já são seis, oras”, Telma se inquietou. “Acho que o clarão elucidou longe demais”, riu-se ao transpor a distância dos fundos ao quintal da casa.

Da pequena portinhola que era o limite entre o jardim e a rua, Telma estancou. Sentiu-se desmaiar. À beira do breu, ainda pôde avistar Catarina antes de a amiga se converter em uma silhueta debaixo daquele pano branco que encerra existências.

Atropelado pelo ônibus que desviou do acidente, o papel com os sete mandamentos da Incorporação dos Inveterados Viajantes — instituição que Catarina cuidadosamente não teve tempo de burocratizar.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses