Ilustração: Felipe Ribeiro (www.coroflot.com/somarfr)

“Dias iguais, avareza de Deus”, Chico Buarque

Henrique espalmou as mãos no ar, esticando os dedos ao máximo para sentir toda a intensidade das gotas de chuva. Os fatos pareciam se repetir, exatamente como nos últimos dias.  Chovia novamente, no mesmo horário, com a mesma intensidade. Sua memória, apesar de seletiva e desatenta, apontava para momentos idênticos nos últimos dias. A vida tornara-se um déjà vu.  Optou por prestar atenção em detalhes, desde a água que caia dos céus até as placas dos carros que passavam. Atento, observava com olhos vivos as letras e números que formavam a identificação dos veículos. Para sua surpresa e espanto, todas eram idênticas às do dia anterior. O mundo havia se tornado um eterno videotape, uma sinfonia de uma nota só repetindo-se ao infinito. Tudo o que ocorria em um dia se repetia em todos os seus detalhes no outro. Henrique demorou dias para perceber a monotonia que se tornara sua vida.

Ainda perdido e alucinado, continuou andando a caminho de seu trabalho. Atravessou a Rua da Consolação com passos tímidos e lentos, de quem caminha sem seguir. Era incrível, apesar de perceber que os dias agora se repetiam continuamente, prosseguia preocupado com o horário do trabalho e com as obrigações no escritório. Seu andar só foi interrompido ao ouvir uma voz.

– Ei, ei… Onde está indo?

A fala, serena e macia, era de um homem de cabelos fartos e vestido elegantemente em um terno preto sob medida. Os sapatos lustrosos sofriam com as poças de água que invadiam as calçadas da Consolação.

– Eu te conheço? Estou indo trabalhar, oras.

– Por quê?

– O que você quer, afinal?

– Você já percebeu…  Não precisa mais ir trabalhar.

– Percebi… Percebi o que?

– Você sabe do que eu estou falando. Sua vida se repetindo, se repetindo, como um disco de vinil enroscado na vitrola.

Apesar do absurdo das afirmações daquele homem misterioso, tudo aquilo fazia muito sentido para Henrique.

– Olhe para os lados – advertiu novamente o homem – O mundo está se repetindo e a maioria ainda nem percebeu. Você é um dos poucos que se deu conta.

– Como você notou?

– Eu estava acompanhando você desde lá perto do Mackenzie, quando você tomou o ônibus. Eu sabia que você tinha percebido, eu vi nos seus olhos.

– E você, quando você percebeu?

– Eu… Faz dez anos já.

– O que?! Como assim dez anos?

– Eu estou preso nesta situação há dez anos!

– Como você aguenta isso?

– Tomei caminhos diferentes, é simples. Após perceber, uns três dias depois que começou a acontecer, decidi não ir mais trabalhar, mudar a rotina. Larguei minha esposa e meus filhos, larguei tudo. Não aguentava mais aquele eterno repetir.

– Isso é loucura! Você é louco. Eu vou embora!

Com os passos mais apertados, quase correndo, Henrique entrou em seu escritório. As reuniões eram as mesmas, as pessoas vestiam as mesmas roupas cinza ou pretas e as mesmas burocracias tinham de ser cumpridas. No final da tarde, ao chegar em casa, deparou-se com a mesma situação. Os filhos correram em direção ao seu colo, falaram as mesmas palavras do dia anterior, como robôs programados. O sexo com a mulher, mecanizado, foi idêntico. Até a programação da TV era a mesma. A vida tornara-se mais óbvia que o correr dos ponteiros do relógio.

No dia seguinte, o despertador tocou no mesmo horário. A rádio tocava as mesmas músicas e a chuva se formava para cair justamente no mesmo horário de ontem. Henrique colocou a mesma roupa do dia anterior, cumpriu todos os rituais – da escovação do dentes ao pentear de cabelos com gel. Saiu, decidido a esquecer aquela repetição e prosseguir com a vida que se acostumou.

Quando desceu na Consolação, sob a mesma chuva, deparou-se com um homem de cabelos raspados, vestido de bermuda e camiseta.

– Ei, rapaz, vamos para o Rio de Janeiro comigo? Vou alugar um carro e dar o fora.

– Peraí… é você? Cadê seu cabelo? E o terno?

– Então, bicho, ontem eu estava trabalhando. Fazia tempo que não trampava, só fiz para mudar um pouco a rotina. Já tô livre do eterno repetir, vou pro Rio! Vamô?!

– Não, não… Preciso trabalhar, tenho família, tenho minhas responsabilidades.

– Que família, rapaz… É todo mundo robô e você também. Mas você percebeu, não precisa mais disso. Arranca esse terno apertado, bota uma sunga e vamô curtir o Rio. Vai ficar nessa chuva?

– Por que esta acontecendo isso? Por que as coisas estão se repetindo?

– Estão se repetindo porque você quer. Só depende de você mudar a sua rotina, mas você parece que não enxerga.

– Mudar como?

– Cara, as escolhas são suas. Se você, ao invés de descer na Consolação, descer lá no Ipiranga a vida vai mudar de algum jeito. Ao invés de vestir esse terno preto medonho, bota uma bermuda. Ao invés de achar que sua vida se repete, invente-a, mude o tema. A porta da prisão está aberta, é só você empurrar…

– Mas minha vida sempre foi assim. Faz dez anos que faço esse mesmo caminho, que visto as mesmas roupas, que tenho minha rotina. Eu sou feliz assim…

– Feliz nada. Você se acostumou. A vida, pra você, é insossa como um biscoito de polvilho vencido. Não tem paixão, nada é sagrado, tudo é mecanizado. Seja criativo. Só você pode inventar sua própria realidade.

– Mas como eu faço?

– Você é livre, você pode fazer o que bem entender. Pra que ir trabalhar, se tudo vai ser igual ao dia de ontem?

– Eu preciso do dinheiro para pagar as contas. Aliás, estou atrasado…

– Que contas? Os dias se repetem e hoje não é dia de vencimentos. Vai ao banco, tira mil reais. Amanhã, como num passe de mágica, o dinheiro estará lá de novo, como se nunca tivesse sido sacado. Isso não é maravilhoso?

– Você é maluco, tenho família, rapaz.

– Venha comigo!

O homem, agora enraivecido, puxou Henrique pelos braços até o ponto de ônibus. Lá, pegaram uma condução e pararam nos arredores da Vila Mariana. O homem tirou uma chave do bolso e abriu a porta de uma pequena casa de esquina. Escondidos, os dois observavam uma mulher que fazia o café e duas crianças se trocando para ir à escola.

– Essa é minha esposa e meus filhos – disse o homem, com a voz embargada.

– Eles devem sentir muito sua falta.

– Não, você não entende… A vida deles continua a mesma, para sempre. Minha mulher nunca percebeu nada. Ela vive em replay eterno.

– Mas ela não percebeu que você sumiu?

– Não… Eu não estava em casa no dia em que as coisas começaram a se repetir. Eu estava trabalhando, como sempre.

– E como ela não percebe?

– É assim, acorda todos os dias, faz o café, leva as crianças na escola e depois fica pregada a tarde toda na frente da televisão. Aí vai buscar as crianças, volta, faz o jantar e vai dormir. Todos os dias, todos os dias.

– E você não foi falar com ela? Por quê?

– Essa é a vida que ela quer pra ela, sempre foi. Eu não falo com ela, pois seria pior. Ela está acostumada com a vida assim, deixa ela viver a vida que escolheu.

– E por que você quer que eu viva uma vida diferente da minha? Eu também gosto da minha rotina.

– Mas você percebeu o que está acontecendo, ela não.

– Como sabe que ela não percebeu? Como sabe se ela não está fazendo como eu, vivendo uma vida repetida para não precisar reinventar tudo? Faz dez anos e ela não percebe? Isso é impossível!

O homem, com a cabeça baixa, começou a chorar copiosamente. Como negar: sua mulher com certeza percebera o que acontecia, mas preferia aquela vida repetida, preferia assistir aos mesmos programas na televisão a se responsabilizar por uma mudança brusca em sua vida. E o pior: não sentia sua falta.

– Na verdade, você é feliz com essa nova vida, sem raízes – continuou Henrique – Vocês eram infelizes, ela preferiu ficar com as crianças e a TV, vivendo em looping, e você preferiu sair de casa e só voltar para observar de fora, sem precisar fazer nada, sem se responsabilizar, sem reinventar uma vida com ela. Você também é um covarde, como eu e como sua mulher!

O homem, já totalmente abalado, saiu às pressas portão afora. Henrique, sozinho, olhou para o relógio e saiu apressadamente rumo ao seu trabalho.

 

Foto: Guilherme Borducchi (www.flickr.com/photos/gbaguiar)

Seis anos depois, Henrique descia na Consolação como sempre fizera. A chuva caia com a mesma intensidade de sempre, os carros, as pessoas, os sons, tudo era da forma que sempre fora. Com o mesmo terno preto, Henrique andava lentamente rumo ao seu trabalho quando deu de frente com um homem de cabelos fartos e terno elegante.

– Você por aqui?

– É, faz uns cinco anos que voltei para o meu trabalho.

– Como vai a vida?

– Igual a sempre…

– Não tem vontade de mudar de novo?

– Não mais, sinto-me menos sozinho indo trabalhar, vendo todos os dias as mesmas pessoas, tendo a vida que sempre tive. E você, tem vontade de mudar tudo?

– Todos os dias.

– E por que não muda? Pelo menos por um dia, só para saber como é.

– Se eu não tinha mudado antes de acontecer esse eterno repetir, por que mudaria agora que a vida ficou exatamente do jeito que era pra ser? Em minha opinião, todo mundo já percebeu, mas ninguém tem força ou vontade de fazer qualquer coisa para mudar. A minha vida, pelo menos, não mudou tanto desde que o viver se tornou um piano de uma tecla só. Antes, eu tinha o piano completo, com suas 88 teclas, mas eu só tocava com uma delas mesmo. Qual é a diferença?

– É… A vida de hoje é exatamente aquilo que buscamos no ontem.

– Já estou atrasado, bom trabalho pra você.

– Pra você também.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e agradece Felipe Ribeiro pela ilustração e Guilherme  Borducchi por ceder a foto

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Com roupas puídas cobrindo minimamente suas vergonhas, Maciel juntava latas com a obstinação de um homem objetivo. Encontrava-as,  olhava-as, analisava-as, amassava-as e as jogava no carrinho de madeira. Trabalhara arduamente durante uma semana, dia após dia, do nascer do sol ao invadir da madrugada. Compenetrado, anotava em um caderno o número de latas que conseguira juntar. No fim dos sete dias, dirigiu-se ao posto de troca: oferecia as latinhas, produto de seu trabalho, e ganhava em troca moedas e notas, necessárias para poder continuar com seu ofício. Recolhera naquela semana R$ 23.

Retornara ao trabalho no mesmo dia com a meta traçada de lotar novamente aquele carrinho. Sabia agora que cada carrinho lotado correspondia a R$ 23. Precisava aumentar a produtividade, ser mais objetivo e rápido para conseguir lotar sua carroça em períodos mais curtos de tempo. Era um homem inteligente e lógico, sabia como funcionava o mercado de latinhas e decidira se tornar o melhor entre todos os catadores. Sua velocidade cresceu, sua visão tornou-se periférica. Encontrava latas até em locais impossíveis. Era um gênio. Um mês depois, conseguia lotar seu enorme carrinho três vezes em uma só semana. Um recorde inigualável no centro da cidade de São Paulo. Seu salário mensal era de R$ 275. Trabalhava dezesseis horas por dia. Era o mendigo trabalhador mais rico da cidade de São Paulo.

Em uma tarde normal de caos urbano, Maciel se dirigira ao bairro do Itaim Bibi para recolher latas jogadas na rua por cidadãos notáveis. As recolhia com uma capacidade única. Algumas vezes, pegava duas, até três latas de uma só vez. Em certo momento, porém, sua visão compenetrada foi desviada em direção a uma casa de jogos de esquina. Dentro, engravatados jogavam jogos de azar para dar graça a suas vidas de sorte. Os olhos daqueles homens brilhavam, pareciam ainda mais fixados nas roletas do que os olhos de Maciel nas latas. Resolvera entrar, mas em menos de dois minutos foi expulso por socos e pontapés de um segurança. Sentira-se humilhado. Continuara sua rotina de latas e chegara a uma conclusão: guardaria dinheiro, compraria um terno e retornaria para jogar. Estava decidido. Era questão de honra.

Por longos quatro meses, Maciel guardara o dinheiro das latinhas. Trabalhara maquinalmente de domingo a domingo para realizar seu desejo. Seus gastos pessoais foram bancados por esmolas e favores. Antes de conseguir o feito de realizar o sonho de se enroscar em uma gravata, o pedinte fora humilhado em duas lojas que entrara. Enfim, conseguira comprar um terno brega e um par de sapatos baratos. Tomara um banho no abrigo da prefeitura, cortara os cabelos e arrumara uma amostra grátis de um perfume francês. Era outra pessoa: o catador de latinhas parecia um típico gerente de empresa do interior, um rico sem grande habilidade estética para se vestir. Um pobre que, aparentemente, ficara milionário da noite para o dia. Correu para a casa de jogos.

Lá, foi recebido com calorosos préstimos pelos seguranças e os croupies. Era festejado como um novo cliente. Dizia-se nas rodas de conversa que ali estava um homem poderosíssimo, que acabara de chegar do interior de Minas Gerais. “Um senhor de muitas posses na cidade de São João Del Rey; ouvi dizer que é dono de metade da cidade”, cochichava um moreno alto para o seu colega de vício.

Maciel postara-se no meio dos jogadores em torno de uma roleta com números e cores pretas e vermelhas. O croupier, com voz altiva, informou que a aposta mínima era de R$ 100. Maciel olhou para o bolso e percebeu que era exatamente a quantia que possuía, era tudo que havia sobrado de suas 1920 horas de trabalho. Iria jogar apenas uma vez. Colocara os R$ 100 na casa 7 vermelha. A bola deslizava pela roleta com velocidade impressionante, os olhos de Maciel a acompanhavam com um misto de apreensão e excitação. A bola foi parando, parando, parando… E o croupier anunciou: casa 7 vermelha! Maciel não acreditava, havia vencido os outros sete apostadores e embolsara R$ 700 de uma só vez. Os convidados aplaudiram a sorte do novo e prestigioso colega.

Maciel entrou novamente no jogo com R$ 100. Ganhara uma, duas, três, quatro vezes. Sua sorte era impressionante. A casa toda parou para ver o “mineiro” que estava com a maior sorte que se tem notícia. Seu capital se acumulava. Perdeu algumas vezes, mas as vitórias eram incontáveis se comparadas com as derrotas. Enchia os bolsos com fichas, não tinha mais onde colocá-las. O dono da casa de jogos postara-se ao seu lado para tentar ver se havia alguma maracutaia por trás de assombrosa largura anal.

Maciel sorria e decidiu encarar a mesa em que a aposta mínima era R$ 1000. Os outros jogadores, donos de si mesmos e com o orgulho ferido, continuavam perdendo para tentar derrubar o “mineiro”. A casa toda jogava contra ele. Em determinada rodada, todos os presentes o enfrentaram sem sucesso. Maciel, com olhos hipnotizados na bola que rolava pela roleta, perdia uma e ganhava outras cinco seguidas. Era um fenômeno das roletas. No fim do dia, estava milionário. Seu patrimônio ultrapassava os R$ 100 mil. Uma mala lhe foi emprestada para que guardasse as fichas. O dono da casa decidiu fechar o local até a manhã seguinte: a banca não tinha mais fichas para distribuir aos jogadores. Maciel saiu aplaudido e afagado por todos. Um retrato seu foi tirado para registrar o momento. Já do lado de fora, sozinho, pegou um papel e fez a seguinte regra de três:

7 dias – R$ 23

X dias – R$ 100.000

R$ 23x : 700.000 = 30.434 dias de trabalho : 365 dias/ano = 83 anos de trabalho

Racional e matemático, Maciel concluiu que em um dia de jogo ganhou o equivalente a 83 anos de trabalho. Olhou para a mala cheia de dinheiro, abriu um sorriso e pensou que a vida poderia realmente ser fácil. Passou em uma loja de ternos, comprou o mais caro da loja e alugou um quarto de hotel. No dia seguinte, às 10 horas da manhã, já estava de volta ao centro da mesa de jogo. Acreditando em sua onipotência nas roletas apostou todo o dinheiro que tinha no número seis preto. A bola foi rolando, rolando, rolando… Maciel e todos os outros jogadores com os olhos fixos na roleta. O dono da casa de jogos, apreensivo, falava para seu sócio: “se ele ganhar, nós vamos quebrar”. A bola continuou rolando por mais tempo que o habitual. Parecia que ela nunca mais ia parar, mas parou. O croupier explodiu em euforia ao dar o resultado: três vermelho! Maciel entregou todo o seu dinheiro à banca e voltou à rua com os bolsos novamente vazios. Trocou de roupa e começou a recolher latas, já pensando em qual seria sua próxima aposta. Não via a hora de sentir novamente o frio na barriga causado pela roleta a girar.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

“Não adianta o caminho que seguir, não adianta os rumos que tomar, você estará sempre encarcerado dentro de si” Deus

“O que importa é a travessia, não a chegada”, Guimarães Rosa

“De erro em erro, vai-se descobrindo toda a verdade”, Freud

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Luciano fechou um acordo com Deus quando beirava os 25 anos. O Criador do Céu e da Terra apareceu pela manhã e lhe propôs a oportunidade de escolher dois caminhos para sua vida. Na Vida 1, Luciano concretizaria seu casamento com Joana, sua namorada há três anos. Na Vida 2, Luciano teria a chance de terminar o relacionamento e viver solteiro, livre das amarras e do compromisso. E mais: o Luciano da Vida 1 poderia observar o Luciano da Vida 2 e vice-versa. Ambos saberiam sempre o que seu outro eu estava fazendo para não repetir os mesmos erros.

O jovem, embasbacado pela presença onipotente do Senhor em seu quarto, ergueu as mãos aos céus e agradeceu a benção alcançada. Quem não gostaria de viver duas vidas? Compará-las e evitar os erros e os descaminhos? Estar ciente dos passos que seriam dados caso as escolhas fossem diferentes? Deus, esperto, sabia que todo ser humano daria tudo para se dividir em dois, viver o dobro, acumulando experiências diferentes paralelamente. Deus era um criador que conhecia bem suas crias.

Vida 1 – Domingo, 1 de agosto de 2010

Luciano acordara às 10 horas da manhã com as narinas invadidas pelo forte cheiro de pó de café em processo de dissolução. Caminhou até a cozinha e observou Joana vestindo apenas uma camiseta, sorriso largo no rosto, olhos brilhantes e a voz ainda rouca pelo sono que permanecia visível em suas expressões. Enquanto tomava o café, sentiu uma sensação familiar, um cheiro de casa, um conforto que nunca imaginara. Lembrou-se de seu contrato com Deus, ainda não entendendo bem os rumos que sua vida tomara. Correu para o quarto, ligou a televisão e, sem explicação coerente, começou a assistir à sua segunda vida. Estava curioso. Enquanto assistia, pensava:

“Vou escolher a Vida 1, sem dúvida. Olha o meu estado nesta Vida 2:  patético, perdido e sozinho. Sou tão feliz aqui com a Joana, essa casa tem cheiro de família, este Luciano que assisto pela tela é exatamente aquilo que temi a vida toda um dia me tornar”.

Vida 2 – Domingo, 1 de agosto de 2010

Luciano acordara ao meio dia com as narinas invadidas pelo forte cheiro de álcool em putrefação. A dor de cabeça lhe ardia os olhos. Caminhou até a cozinha e se deparou com uma montanha de louças e latas de cerveja por todos os lados do apartamento. Estava com fome. Lavou uma xícara, fez o café e sentou-se à mesa. Sentia-se cansado, com o corpo moído. Lembrou-se de seu contrato com Deus, ainda não entendendo bem os rumos que sua vida tomara. Correu para o quarto, ligou a televisão e, sem explicação coerente, começou a assistir à sua primeira vida. Estava curioso. Enquanto assistia, pensava:

“Que saudade da Joana, ela poderia estar aqui para me fazer um café. Estou morto, cansado, de ressaca. Pra quê tudo isso? O que eu vou fazer agora? Bom, pense Luciano, pense. Nesta vida você é livre, pode fazer o que quiser. Então, pelo menos tente ser feliz”.

Vida 1 – Terça, 7 de maio de 2016

Luciano seguia para o seu emprego em um escritório de contabilidade. A mudança fora necessária logo após o casamento, os gastos aumentavam e era necessário um emprego que lhe pagasse melhor. Vestindo terno e gravata, sentia-se ridículo e com um nó na garganta. Muitas reuniões e hipocrisias depois, Luciano saiu, pegou Joana no trabalho e foi para casa. Exausto, jantou com a mulher, assistiu televisão e, antes de dormir, foi expiar sua Vida 2.

“Era isso que eu queria estar fazendo neste momento, mas não tenho nem forças e nem tesão. Merda, minha vida é chata, enfadonha. Tornei-me um ser humano ordinário que trabalha para sobreviver, que tem um relacionamento de conveniência. Eu e Joana nem conversamos mais, perdemos o interesse. O que meu outro eu fez de correto? Foi ousado? Mas é fácil ser ousado quando não se tem ninguém para viver ao seu lado, quando não se tem responsabilidades. Quero ver quando cansar e casar. Aliás, casar e cansar deveriam ser sinônimos”.

Vida 2 – Terça, 7 de maio de 2016

Há duas noites Luciano não dormia direito. Naquela manhã, dormiu três horas após uma festa. Acordou e correu para o trabalho em sua agência. Abrira um estúdio fotográfico e consolidava um sonho de infância. Ainda devedor, os trabalhos pingavam aos poucos, mas o importante é que Luciano podia trabalhar à vontade e chegar na hora que bem entendesse. Depois de alguns trabalhos, saiu para encontrar um amigo, tomou uma cerveja e passou na casa de Marina. Era a terceira vez que saíam juntos. Foram a um bar, tomaram algumas cervejas e logo entraram em um motel. Depois que Marina dormiu, ele aproveitou para dar uma olhada em sua Vida 1.

“Que merda virou sua vida, amigo. O que você errou? Deixou as coisas caírem na rotina, abriu mão de suas paixões, abriu mão de quem você realmente era por alguém. Seu dependente. Eu dependo do meu cigarro, você depende de uma mulher. O que é melhor, einh? Fico com o meu cigarro e com todas as mulheres do mundo. E esse terno ridículo? Você é patético. Isso não tem nada haver contigo e você sabe disso. Eu, por exemplo, gosto da Marina, mas jamais vou me casar. Você deveria tomar vergonha na cara e fazer o mesmo”.

Vida 1 – Sexta, 5 de abril de 2024

Luciano se mudara para um apartamento de um quarto. O casamento com Joana esfarelara-se em conveniências e engodos. Decidiu que sua vida deveria tomar o rumo certo: o rumo que ele assistia todos os dias no aparelho de televisão comandado por Deus. Julgava que o objetivo de Deus era mostrar a ele que sua vida estava errada e que era necessário seguir aquilo que ele ainda não era. Pediu demissão do emprego e voltou a fotografar. Andava de bermuda e camiseta, saia para tomar cerveja com os velhos amigos e começava a se interessar por aquela nova vida. Naquele dia, assistiu incrédulo aos desdobramentos de sua Vida 2.

“Você é burro? Que diabos está fazendo? Não faça isso, você está errado, você está cometendo o mesmo erro que eu e vai se arrepender pelo resto da vida. Você não era feliz? Você parecia tão feliz”

Vida 2 – Sexta, 5 de abril de 2024

Luciano acordou de ressaca, olhou para o espelho e resolveu ligar para Joana. No fundo, não aguentava mais aquela vida maluca que se impusera. Estava fraco, com problemas respiratórios por causa do cigarro e vivia com dor de cabeça. Saiu para almoçar com Joana e lhe pediu perdão por deixá-la. Joana, ainda apaixonada, relutou por alguns momentos, mas tudo acabou com a promessa de uma relação séria e baseada na confiança. Luciano iria se casar. Quando chegou em casa, feliz, correu para assistir seu outro eu em ação.

“Você fez tudo errado. Seu casamento foi uma farsa. Vou aprender com seus erros e eu e a Joana seremos felizes. Agora, aí está você, em um apartamento apertado,  pronto para ter uma vida que você acha mais sincera. Mas você vai continuar errando, com ou sem a Joana”

Vida 1 – Domingo, 5 de novembro de 2032

As dores de cabeça de Luciano aumentavam. Os trabalhos como fotografo eram cada vez mais raros, as contas se acumulavam e sua vontade era de não fazer nada. Sua namorada, Patrícia, o cobrava de não amá-la. E era verdade. Depois de Joana, Luciano não conseguia enxergar o amor em lugar nenhum. Para ele, tudo passara a fazer pouco sentido. Mesmo assim, muitas vezes, sentia-se mais feliz sem Joana do que com ela. A vida parecia cada vez menos uma obrigação. Seu momento mais feliz, porém, continuava sendo assistir sua segunda vida com Joana. Era uma forma de matar a saudade do que ele já fora.

“E eu é que era o imbecil? Você é um estúpido. Estragou tudo. Seu casamento tinha tudo para dar certo, você conhecia tudo o que dera errado e, mesmo assim, estragou tudo. Imbecil”.

Vida 2 – Domingo, 5 de novembro de 2032

Marina virara amante de Luciano dois anos depois de ele ter se casado com Joana. Aos poucos, a traição provara que mesmo oculta era suficiente para destruir uma relação, mais cedo ou mais tarde. Decidira pela separação após não conseguir mais olhar diretamente nos olhos da própria mulher. Culpava-se pela traição e julgara melhor voltar a morar sozinho, sem compromissos e sem a necessidade de amadurecer. Queria voltar a ser livre para destruir a sua vida da maneira que bem entendesse. Antes, claro, observou seu outro ser, na esperança de que ele estivesse em situação pior que ele.

“Sua vida não muda mais? O que você está fazendo com essa tal de Patrícia? Mulherzinha sem sal”

Vida 1 – 5 de julho de 2042

Luciano foi levado para o hospital com poucas chances de sobreviver. O infarto era irreversível. Dois dias depois de internado, a primeira visita apareceu. Era Joana, o marido e o filho. Luciano olhou para aquela cena, tentou ver o rosto do marido de Joana. Seria o outro ele? Não, era um homem qualquer. Percebera que Joana tomara seu próprio rumo, mas que de forma alguma o esquecera. Ficaram a sós. Joana pegou na mão de Luciano e lhe disse:

– A vida é realmente inesperada. Eu jurava que se um dia você enfartasse eu estaria ao seu lado. O que deu errado?

– Eu perdi as minhas chances. Você pode, por favor, pedir para a enfermeira instalar uma televisão aqui no meu quarto? E vai embora, vai viver sua vida.

Vida 2 – 5 de julho de 2042

Luciano foi levado para o hospital com poucas chances de sobreviver. O infarto era irreversível. Dois dias depois de internado, a primeira visita apareceu. Era Joana, o marido e o filho. Luciano olhou para aquela cena, tentou ver o rosto do marido de Joana. Seria o outro ele? Não, era um homem qualquer. Percebera que Joana tomara seu próprio rumo, mas que de forma alguma o esquecera. Ficaram a sós. Joana pegou na mão de Luciano e lhe disse:

– A vida é realmente inesperada. Eu jurava que quando você enfartasse eu estaria ao seu lado. O que deu errado?

– Eu perdi minhas chances. Você pode, por favor, pedir para a enfermeira instalar uma televisão aqui no meu quarto? E vai embora, vai viver sua vida.

Vida 1 e Vida 2 – 6 de julho de 2042

Luciano ligara a televisão durante a madrugada. Na tela, observava ele próprio deitado na cama de um hospital, picado por agulhas e afogado em um inalador. Olhou com mais atenção e percebeu nas feições do homem da tela as mesmas que as suas. Levantava as mãos e a imagem fazia exatamente o mesmo movimento. Erguia a cabeceira da cama e ocorria a mesma ação na imagem. Percebera que era como se observasse um reflexo de si mesmo no espelho. Fechou os olhos. Pensou em todas as decisões que tomara ao longo da vida. Tudo o que queria era uma segunda chance.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Estou preso dentro de uma caixa. Meus braços e pernas estão amarrados com cordas grossas e resistentes. Está escuro, estou sufocado, o calor aumenta de acordo com os meus picos de nervosismo. Preciso sair daqui, preciso sair!

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O tempo passou rápido, minha barba cresceu, minhas unhas estão maiores. Estou há meses tentando me soltar. O atrito do nylon da corda com a madeira da caixa produz um ruído que está me deixando maluco. Mas eu não desisto, preciso me soltar.

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Consegui! Consegui! Meus braços estão livres, posso movimentá-los livremente. Que alívio, Deus, que alívio. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Apesar de ainda não conseguir sair da caixa, posso desamarrar minhas pernas. Sou um homem livre!

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Continuo preso nesta caixa apertada, não consigo sair. Estou sufocando. Preciso sair daqui, preciso sair! Mas essa madeira é resistente, não adianta esmurrá-la. O calor aumenta, meu desespero aumenta, estou cansado. Sinto-me sufocado. Penso em desistir.

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Consegui! Consegui! A caixa se rompeu, meu esforço não foi em vão. Posso levantar. Minhas pernas doem, o corpo dói, mas estou livre. Que alívio, Deus, que alívio. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem livre!

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Essa cidade é muito pequena. Não tenho nada para fazer aqui. Sinto-me entediado e preso. A vida parece sem graça, as coisas acontecem, mas não me causam nenhuma emoção. Estou cansado. Preciso sair dessa cidade, preciso sair. Sinto-me deprimido, asfixiado pelo tédio.

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Consegui um emprego na Capital. Estou livre dessa cidade que me apequena. Agora tenho espaço para crescer, serei um homem livre em uma cidade moderna. Estou empolgado demais. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem livre!

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Essa cidade maluca me desespera. Não aguento mais esse trânsito, a violência, o stress. Sinto-me sozinho como nunca, esmagado pelo tamanho dessa cidade, esmagado pela impessoalidade que ela impõe. Preciso encontrar uma companheira, uma mulher que me ame e me queira bem, com quem eu consiga construir algo realmente bonito.

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Consegui a mulher perfeita. Ela me entende, ela me ama e me dá tudo que eu preciso. Sinto-me aliviado com ela, a pressão da cidade não me desespera, a vida parece mais leve. Eu a amo como nunca amei ninguém. Vamos morar juntos, já alugamos um apartamento de dois quartos. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem feliz e apaixonado.

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Sinto-me sufocado como nunca me senti antes. Essa casa não me pertence, talvez essa não seja a mulher da minha vida. Olho para os lados e não me reconheço mais neste lar. Essa cidade impessoal me é cada vez mais estranha. Meu casamento está por um fio. Preciso de um filho. É isso! Precisamos de um filho para harmonizar o lar.

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Ela conseguiu engravidar. Já dá até pra ver a barriga. Que alegria. Teremos nosso filho no início do próximo ano, vai ser tudo perfeito, tudo tão incrível. Seremos uma família feliz. Estou empolgado com a ideia de ser pai. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Serei pai!

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Estou triste, sufocado. Minha mulher engordou, eu não sinto nenhum tipo de atração física por ela. Ela está inchada, chata, gorda e só fala merda, só reclama. Eu a odeio. Sinto-me preso, não posso deixá-la, pois ela está esperando um filho meu. Mas como eu queria voltar aos meus tempos de solteiro, quando a cidade inteira esperava por mim, quando eu era realmente livre.

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Nosso filho nasceu! Que maravilha, é um menino como eu sempre sonhara. Tudo é tão perfeito. Nosso lar ficou mais vivo, a cidade ficou mais viva, volto a sentir algo forte por minha esposa. Vamos recomeçar e tudo vai dar certo. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou pai!

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Não durmo há dias. Estou me sentindo péssimo. O moleque não pára de chorar e o meu estresse cresce cada vez mais. Estou preso, sufocado. Não posso fazer mais nada por minha conta, o menino depende de mim e eu não posso deixá-lo. Como queria abandoná-lo na porta de qualquer lugar. Ele chora alto, o dia todo, a noite toda. Estou cansado. Preciso me mudar.

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Parece loucura, mas acabo de me divorciar e estou me mudando para a Europa. Juntei dinheiro suficiente para sumir da vida de minha esposa e deixar meu filho. Sinto-me livre, vou conhecer os lugares que sempre quis, vou conhecer outras mulheres. Estou empolgado. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem livre!

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Não conheço ninguém neste país. O frio me castiga, não aguento mais a grosseria desse povo, a impessoalidade. Aqui tudo funciona muito bem, mas sinto falta de meus amigos, da minha esposa, de meu filho. Estou cansado. Estou sufocado. Não sei o que é liberdade, não sei o que é felicidade. Nunca soube. E agora não posso voltar, não tenho coragem. O que eles vão dizer de mim? Quero voltar! Quero sumir! Meu maior desejo agora era estar preso dentro daquela caixa. Sozinho comigo mesmo. Tenho certeza de que lá me sentiria melhor do que aqui.

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Estou preso dentro de uma caixa. Meus braços e pernas estão amarrados com cordas grossas e resistentes. Está escuro, estou sufocado, o calor aumenta de acordo com os meus picos de nervosismo. Preciso sair daqui, preciso sair!

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André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos


Resolvi desvendar o mistério da mulher mascarada.

Havia muito tempo que ela se insinuava para mim no Circo da Existência.

Costumava direcionar o rosto para o camarote onde eu me sentava, em cada uma de suas apresentações. O que me incomodava, no entanto, era a incerteza do ser visto. Seus olhos estavam protegidos por uma bela e pesada máscara.

Mas quem realmente era a mulher por trás do figurino?

Ontem eu também não fui o mesmo.

Não esperei que ela me olhasse. Acordei, e meus pés desceram da cama diretamente para o picadeiro. Vesti uma roupa propícia para a ocasião, e não a minha de todos os dias. Caminhei, com passadas largas, decidido a chegar ao encontro da mulher mascarada antes do início do espetáculo.

E lá estava ela, desguarnecida em seu largo camarim. Observada daquele ângulo, não se parecia mais com a imponente dançarina que era. As formas do seu corpo, antes encantadoras, agora beiravam a banalidade. Não havia gordura nem magreza, para a minha decepção. Apenas o indiferente.

Quando notou a minha presença, a mulher mascarada virou-se de costas. Disse-me que era uma afronta abordá-la sem a devida maquiagem. Não compreendia, contudo, que esse era justamente o meu intuito.

Puxei-a pelos cotovelos. Obriguei que se postasse de frente e permanecesse quieta, como uma modelo a ser analisada.

Naquele instante, fui arrebatado pela curiosidade obsessiva. Meu desejo não era mais de contemplação, e sim de possessão. Eu queria absorver a mulher mascarada. E, para isso, precisava conhecer o rosto dela.

Tirei a máscara preta e decorada com lantejoulas que ela vestia, descobrindo-lhe toda a face, com violência. Não me importei se a machucaria com o gesto.

Vi, então, uma garota indefesa à minha frente. Seus contornos eram pueris e ingênuos. Fiquei compadecido diante da menina, que me abriu um sorriso de agradecimento. Aquele movimento a traiu. Percebi que havia falsidade na expressão livre de rugas. Não passava de mais uma máscara da mulher.

Inconformado, arranquei-lhe a segunda máscara. Não fiquei surpreso com o que me foi apresentado desta vez: uma senhora, com lábios roxos, bochechas sem carne e traços sem vida. Então era isso? Ela entristeceu e ameaçou chorar. E mais uma vez entendi que havia sido enganado.

Ordenei que ela mesma extraísse a terceira máscara. A mulher o fez cirurgicamente. Para a minha perplexidade, deparei novamente com o disfarce preto com brilhantina que me seduzia nos shows. Obviamente, não havia justiça naquilo. Nenhuma cara nasce enfeitada.

Retirei a quarta máscara do rosto da mulher. A quinta, a sexta, a sétima, a oitava e a nona também caíram no chão. Repeti o ritual com mais voracidade a cada nova feição dissimulada. A minha dúvida não ficaria sem resposta. Para a nossa infelicidade.

Não existia uma décima máscara. Quando acabei com a última das mentiras, a minha ira se transformou em lamentação. A mulher mascarada, creiam, não possui olhos para me ver. Também não tem uma boca para sorrir. E muito menos orelhas para servirem de sustentação aos seus disfarces.

Sem máscaras, a mulher é também desprovida de rosto. Seu corpo se finda no pescoço.

Continuei incrédulo durante alguns segundos, derrotado pelo remorso. Curvei os joelhos e apanhei a máscara da vergonha, aquela preta e contornada por lantejoulas, sobre os pés da mulher. Cobri a minha própria face para cruzar o picadeiro mais uma vez, com medo de ser reconhecido por alguém.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

José Carlos

Em frente ao espelho, passou o pente fino entre os poucos cabelos brancos que lhe restavam. Com calma, repartiu-os ao meio, abriu a torneira e acertou as pontas desgrenhadas com a mão úmida de água. Fechou os botões da camisa, observou seu rosto magro e beijou a corrente de ouro que repousava em seu peito.

Maria Helena

Fechou a torneira do chuveiro e, ainda dentro do boxe, colocou o braço para fora e puxou a toalha branca pendurada no gabinete. Enxugou-se sem pressa. Primeiro os cabelos curtos e brancos, depois o rosto cansado e, por fim, o restante do corpo. Vestiu-se com uma calça de moletom cinza e uma blusa de alças cor da pele. Tateou embaixo da cama e encontrou as sandálias de couro que procurava.

José Carlos

Saiu do banheiro e dirigiu-se até a sala. Ao procurar sua carteira, deparou-se mais uma vez com a foto de sua mulher exposta no porta-retratos de plástico em cima da escrivaninha. Olhou para a imagem, seus olhos marejaram e o aperto no peito foi o mesmo que sentira na noite em que sua esposa falecera. Já se completavam quinze anos de ausência. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

Maria Helena

O vapor do banheiro ainda não se dissipara quando ela retornou para apanhar as roupas intimas que havia esquecido em cima do vaso sanitário. Jogou-as no cesto de roupas sujas e retornou para o seu quarto. Era o único cômodo de uma casa minúscula que comprara com seus investimentos de toda uma vida. Era mais do que suficiente, já que jamais casara ou dividira o teto com alguém. Vivia sem ser vista. E sua morte, que lentamente se aproximava, não seria notada. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

José Carlos

Estava na fila do caixa à espera de sua vez quando percebeu a dificuldade de uma senhora para pagar sua conta. Notou que ela não tinha dinheiro suficiente e foi cavalheiro ao intervir:

– A senhora precisa de ajuda com a conta?

Maria Helena

Colocou os óculos e, com as mãos enrugadas, abriu o pequeno zíper do porta-moeda em busca de alguns centavos para pagar a conta do supermercado. A atendente insistia que faltavam 80 centavos para o débito ser liquidado. Nervosa, não conseguia encontrar mais do que 35 centavos na bolsinha. De repente, ouviu uma gentil pergunta de um senhor que estava logo atrás na fila. Virou-se, olhou para os olhos dele e sentiu uma gratidão inexplicável:

– Desculpe, está faltando 50 centavos, o senhor pode me emprestar?

José Carlos

Ao ouvir a voz daquela senhora, lembrou-se imediatamente de sua esposa. Era inevitável. O som da voz era absolutamente o mesmo, apesar das características físicas não se assemelharem em quesito algum. Procurou na carteira e encontrou uma única moeda de 50 centavos. Sorriu ao entregar a moeda e questionou, em tom informal, se naquela noite ela iria cozinhar para a família.

Maria Helena

Pagou a conta do supermercado com a ajuda daquele senhor e percebeu de pronto a ligação ocasionada por olhares e palavras. Respondeu a pergunta emendando outra:

– Vou jantar sozinha, como faço todas as noites. E o senhor?

José Carlos

A frase da senhora lhe pareceu, de primeira, muito ousada. Ficou um tempo em silêncio e resolveu que deveria ir até o final daquele diálogo sem criar resistências. Pensou – lembrando-se do dia em que conheceu sua falecida esposa – que sonhos de uma noite marcam mais do que séculos de realidade:

– Eu também, janto todo o dia sozinho. Há 15 anos…

Maria Helena

Olhou novamente nos olhos daquele senhor e percebeu um marejar eterno de lágrimas nas pálpebras envelhecidas de seu rosto. Pensou sobre a loucura que estava por cometer, mas constatou que o infortúnio de passar pela vida em branco poderia ser corrigido a qualquer momento antes do prenúncio fatal de sua morte – sabia que só depois do fim é que não existiria mais retorno. Após 70 anos de indiferença, sua hora havia chegado.

– Jantemos juntos, então, oras. Reunimos o que o senhor comprou com o que eu comprei e teremos uma noite diferente de todas as outras…

José Carlos

Foi inevitável para ele pensar em outra coisa que não em sua esposa. Lembrou-se do último jantar que tiveram juntos e julgou aquela situação decisiva. O que responder? Refletiu e pensou que a vida é busca e aquele era o momento de se reencontrar. Como qualquer ser humano, valorizava o existir conforme os passos lentos da vida indicavam o abismo inevitável do desaparecer.

– Tudo bem. Vamos pra minha casa?

Maria Helena

O sorriso escapou-lhe quase como um arroto fora de hora. Percebeu ali a chance de enfim encontrar-se com alguém. Sabia que era aquele o homem destinado a lhe fazer feliz. Na premência da morte encontrava a vida que nunca fora vista. Afobada, quase desesperada de excitação e ansiosa pelo destino que lhe batia a porta, disparou sem pensar ou raciocinar:

– Depois do jantar, quer morrer em paz comigo?

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Faz anos que não compreendo o que ocorre quando perco os horizontes dos meus passos e, sozinho, sinto-me perdido nos descaminhos da vida. Fechado em meu leito, louco e desesperado, faço planos de perder-me ao futuro e sentir-me preso aos pesares que nunca antes atingiram meus sonhos juvenis. Adulto, tomo para mim o remédio da desilusão, a estupidez de me sentir frágil e fraco quando as penumbras das sombras dos meus antepassados me assombram para um destino que não escolhi. Perdido, sem direção e sem prumo, esforço-me para orientar-me na direção contrária ao caminho que não planejei e que não consigo evitar; ao passo que meus pés chafurdam em um mar de lama que forma aos poucos e sem pressa o abismo de meus dias.

Devagar – como devagar é a decadência de um homem que não pensa – sinto as horas e os minutos esvaírem-se em derrocadas de futilidades e emoções que não valem um centavo. Aprendo com os erros que os erros só existem por fazerem parte das direções que na verdade queremos e não sabemos desejar. Errar, como ser humano e ser pensante, é insistir no caminho que leva ao abismo, é ser atraído pela força desconhecida que nos impregna a alma e os sonhos de fantasias soturnas e nos levam de volta às nossas verdadeiras origens de homens da caverna. O erro é a prova inconteste de que o acerto não nos interessa por inteiro. Que só marchando em direção aos negros olhares profundos da escuridão encontramos as forças que nos impulsionam a sentir-nos vivos. A morte é um norte para a vida. A vida é um norte para a morte.

Cada erro é a prova de que o acerto não faz parte da natureza e nem interessa aos sentimentos profundos que nos orientam e nos entortam. Somos tortos por natureza. Endireitar-se é quase como querer que as ondas do mar não espumem nas areias das praias ou que as cores das flores se tornem cinzas e desbotadas. Todos os caminhos tomados, direcionados e mentalmente planejados, seguem dois fluxos de consciência. Quase sempre achamos que podemos escolher entre eles, mas na encruzilhada das trilhas que se avistam à frente somos puxados misteriosamente para o trajeto indesejado.

Duvida-se do caminho que não fora optado. Pensa-se sobre como o cenário final apresenta árvores secas e tortas, água suja e mal cheirosa, um céu de cor vermelha rubra e toda a miséria e pobreza que os olhos menos atentos vislumbram como a normalidade de uma vida que não é perfeita. Do outro lado, na trilha do caminho que ficou para trás, a dúvida. O que encontraríamos por ali? É preciso sempre duvidar do caminho para se ter a quase-certeza de que ele foi o melhor a ser escolhido. É preciso duvidar sempre das escolhas com o medo e a consciência de que, na maior parte das vezes, enganamos a nós mesmos. Duvidar sempre de si porque o que você é não está nem próximo de ser descoberto. Somos mistério. Somos todos mistério. Mistério que não é e nunca será desvendado por ninguém. Nem por Deus, nem por nós mesmos. Resta-nos pensar sobre quem somos e sobre tudo aquilo que não queremos ser. Resta-nos sempre duvidar de tudo e, principalmente, de nós mesmos. As certezas só existem para aqueles que não pensam.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses